28.4.04

AREIA

Quando cheguei ao deserto, como mostram as fotografias que ficaram para trás, o sol estava forte, o céu limpo, de um azul que só podemos ver quando o contrastamos com o amarelo escuro daquela massa de areia.
Avancei para as dunas. Estão ali, delineadas a partir da planície rochosa, como o mar surge na costa. Estava na fronteira de um mar de areia que com as suas ondas fazia montanhas. Montanhas que cabia explorar, patinhar, violar, trepar. A areia lisa é uma tentação pelo que se impõe nela caminhar.
Subi montanhas de areia, apesar de não ter conseguido obrigar-me a ir ao topo da "grande duna", pois a idade já pesa, e o Urso gosta é de gelo. Fiquei-me pela duna imediatamente abaixo. E vi o pôr-do-sol.
A Oeste não havia areia, mas sim o deserto rochoso, cruzado por inúmeros 4x4 levantando caudas de pó. De repente, por trás da grande duna, começam a surgir nuvens escuras. Desci as dunas (e para baixo todos os santos ajudam) e rapidamente devorei a distância que me separava do abrigo a partir do qual deveria ir para as "djaimas", ou tendas bereberes que ainda iriam ser instaladas nalgum local do deserto. Porém, quando lá cheguei, já se sentia o vento que trazia a areia para o ar.
Poucos minutos depois os minúsculos grãos rochosos dançavam à luz dos projectores, rodopiando sem rumo, invadindo todos os espaços possíveis e imaginários. Respirar sem protecção assegurava depósitos de areia nos pulmões. Abrir os olhos estava fora de questão.
O vento, a tempestade de areia, durou até de madrugada, variando na intensidade conforme entendia. Dormi numa "djaima", mas que estava montada no "quintal", encostada a um muro. E, durante a noite, a areia entrou na tenda, por todo o lado, depositando-se sobre tudo, insinuando-se... Dormi com um turbante, cobrindo o rosto por inteiro.

Pelas seis da manhã, com o vento a diminuir, mas ainda incomodativo, vi uma bola de fogo emergir da areia, por trás da grande duna, trazendo a luz do dia ao mar amarelo, mudando-lhe os tons à medida que avançava.
As pegadas de ontem eram passado. As dunas estavam, novamente, imaculadas. O céu azul era agora ameaçadoramente cinzento.


26.4.04

MST

Quando era adolescente lia com atenção e admirava Miguel Sousa Tavares.
Felizmente isso passou-me.
À medida que fui crescendo, fui tornando-me mais sabedor, experiente e conhecedor. Completei a formação universitária, no ramo do Direito, e passei a ler com asco as barbaridades de MST. Cada vez que fala de Direito, de processos, da justiça MST só diz asneira. É estúpido, mesmo.
Claro que, quem o leia, como eu fazia quando era adolescente, sem conhecimento de causa, julga-o pertinente, incisivo e ponderado.
É, contudo, mais um embuste no mundo dos nossos cronistas.

Leia-se a sua crónica no Público de sexta feira.
Do alto da sua sabedoria (ah ah) já previu o fim do processo que saltou para a opinião pública com a operação "apito dourado" como "mais um momento de ridículo e descrédito da justiça portuguesa". Diz que o MP prende para investigar, sem sequer procurar saber que o inquérito terá cerca de um ano, ao que consta, nomeadamente com recolha de escutas telefónicas.
Apesar de licenciado em Direito, MST sabe tanto da poda como Sofia Pinto Coelho, outra "expert" da treta. E diz barbaridades sobre a interpretação do artigo 254º/1 al. a) do código do processo penal, que manifestam a sua ignorância sobre a jurisprudência e doutrina, e mesmo da génese legal do preceito. Ou é burrice, ou é falta de ética e manipulação do popularismo das suas afirmações.
Finalmente, ousa escrever que "O patético advogado do major Valentim Loureiro - outro dos tais crónicos "cromos" do mundo do futebol, ele próprio ligado em tempos à arbitragem - acha que isto é perfeitamente legal e repete-o, com um ar muito contente, perante as câmaras de televisão, deixando-me a sensação de que, quanto mais tempo o major estiver "dentro", mais oportunidades terá ele de se ver na televisão".
Eu, se fosse o Sr. Advogado, começava por processar MST. Porque o Sr. Advogado, pelo menos, mostrou contenção nas afirmações e saber com que leis se rege o processo penal.
Ao contrário deste comentador, com muito tempo de antena para dizer tanta asneira.
Paciência tem limites.

22.4.04

Cheirinho a DESERTO

A areia mete-se por todo o lado. É fina, áspera, amarela, e é muito diferente daquilo que encontramos na praia. As dunas são montanhas que custa escalar, pois as pernas vão ficando pesadas com a fragilidade do terreno. Os miúdos da terra deram a solução: descalcem as botas, pois é mais fácil. É mesmo. A areia resiste melhor aos nossos passos e estes ficam mais leves.

Ao fim de algumas dunas não há nada a enganar: a seguir a uma duna só há... mais dunas. Contudo, a luz, a cor, o ar são experiências novas e emocionantes.

Só um lamento: a zona estava a ser usada por uma dúzia de jipes e motos de espanhóis que para ali se iam divertir. O certo é que estragam o silêncio, poluem o ar, e quase atropelaram o Urso, ao saltar uma duna, pois eu estava do outro lado, a coisa de três metros.

Porque não se ficam pelas pistas?, como o jipe da fotografia, um dos que fazia parte do grupo do Urso, que, naquele momento, estava... EhEhEh, atascado.







Amanhã falo-vos da tempestade de areia.

21.4.04

Major Valentão

Não que eu estivesse a ver, porque àquela hora prefiro perder tempo com a 2: , a SIC Radical, ou o People & Arts, o História, a BBC Prime ou o Eurosport. Aliás, ontem era mesmo o Eurosport e o campeonato do mundo de snooker...

Dizia eu, que é impressionante a relevância que é dada em Portugal a pessoas como o 'Major' (?) Valentim Loureiro, ou os outros membros do conselho de arbitragem, do clube de Gondomar, ou os árbitros... Os telejornais (deu para reparar no fatigante exercício do zapping) perderam gigantescos períodos de tempo de antena a falar, especular, comentar e, quem sabe, inventar sobre a detenção daqueles personagens.

Meu Deus, esperem pela notícia. Divulguem as notícias. E a notícia, ontem, em tempo de telejornal, mereceria 3 ou 4 minutos, quanto muito.
Os critérios noticiosos televisivos estão cada vez mais pobres. A informação é mesmo anedótica.
Antigamente, via um noticiário e ficava a saber o que se passou no país e no mundo. Hoje nem perco tempo, porque dizem e repetem, citam outros orgãos de comunicação, especulam, comentam ao sabor do vento e nada de novo chega ao consumidor.

Quando, há mais de 15 anos, tive aulas de jornalismo no secundário, ainda fui brindado com uma frase: "a rádio anuncia, a televisão mostra e os jornais explicam. Por vezes, qualquer um deles investiga e expõe algo de novo".
'Oh tempo, volta para trás', e devolve-nos o direito a informação de qualidade.

(Já agora... com o dinheiro que aqueles tipos ganham a jogar snooker, não posso de deixar um lamento: porque é que os meus pais não queriam que passasse tanto tempo no salão de jogos? Não viam que era um investimento de carreira?)

20.4.04

MAJORELLE



Em Marrakech há um jardim, o Majorelle, impressionante pelas cores vivas usadas nas pinturas, pelos milhares de cactos diferentes, e pelas dezenas de espécies diferentes de palmeiras.
A luz é caprichosa, no meio da folhagem, e brinca com o azul utilizado. Cores como o amarelo, o vermelho e o verde proporcionam contrastes cativantes para o olhar.
Mais uma vez, assim que se passam os portões, o bulício da cidade é obliterado e caminhamos numa outra dimensão que nos faz esquecer que ali ao lado está uma cidade ruidosa, frenética.
Os jardins são cuidados por uma fundação com o mesmo nome. Yves Saint Laurent tem mão nisso, pois foi um dos que comprou os jardins e criou tal fundação.

19.4.04

FILME DA SEMANA

Ou melhor, o filme do meu fim-de-semana.
"Belleville, rendez-vous".

A animação virada para os adultos com pormenores deliciosos. São, contudo, indescritíveis, sob pena de estragar alguma surpresa. Porém, sempre poderei dizer que a estética, irrepreensível, envolve uma história de persistência e fidelidade, que nos transmite a mensagem de não ser a idade um obstáculo, quando a motivação é nobre. Os "maus" não ganham e os "bons" divertem-nos pela sua calma.

Felizmente nem se deram ao trabalho de traduzir as poucas frases que se ouvem em francês, nunca proferidas pelos protagonistas, mas sim por comentadores de rádio ou apresentadores de espectáculos e que, por isso, são pano de fundo. Garanto-vos que a ausência de legendas beneficia o filme.

Apreciem a homenagem a Jacques Tati (Mr. Hulot). Cuidem na decoração da cozinha dos protagonistas. E esperem pelo fim do genérico, pois só então terminará o filme.

16.4.04

E O BLOG GANHOU IMAGEM

Dei o salto tecnológico para o mundo da imagem (muito obrigado, Gilberto).
Depois da Djemaa El Fna, aqui ficam mais duas: Marrakech e o Urso Polar no Palais Bahia.





Para a próxima prometo fotografias em formato mais pequeno.

15.4.04

DJEMAA EL FNA

Durante todo o dia, todo o dia, se ouvem as ruidosas flautas e batuques dos encantadores de serpentes. É o coração da Medina, que bombeia correntes de gente para as artérias, os souks, e o ponto onde, mais tarde ou mais cedo, os caminhantes retornam.

De manhã vendem os touaregs pós e ervas, mezinhas e bruxedos... À tarde, comida, inúmeras barracas de comida a céu aberto, ali confeccionada com temperos de mil e uma cores, compondo mostruários amarelos, verdes castanhos, vermelhos, brancos, de comidas que o apetite chama e as cautelas sanitárias afastam.

À volta das 13 horas a praça sossega. Ainda assim, é constantemente cruzada por centenas de pessoas. Ao fim da tarde milhares ali permanecem, para gáudio dos turistas que das varandas disparam furiosamente os obturadores para registo de uma imagem inesquecível que, pelo tamanho, cores, sons e cheiros nunca caberá numa fotografia.

Cheiros. Cheiros de incontrolável apetite alternam, confundem-se, com agoniantes cloacas. Mulheres totalmente veladas cruzam-se com turistas impudicamente desnudas. Lamparinas e parabólicas Passado e presente convergem num bulício que nos faz querer regressar sem ainda ter partido, nem que seja para estar seguro da imutabilidade daquele umbigo.


14.4.04

TERRA RUIVA

Vivi dois anos em Silves.
Silves foi entreposto entre o Norte de África e a Península Ibérica durante a ocupação moura, sendo eleita pelos mouros capital na Europa.
Compreendo porquê, agora que, nove anos volvidos desde a anterior visita, regressei a Marrocos e, com outro olhar, encontrei Marrakech. Para o invasor expansionista mouro que se instalou na Península Ibérica, Silves reproduzia nostalgicamente as vistas daquela que é hoje a capital do turismo marroquino.
A terra é igualmente vermelha. A temperatura, uma fiel reprodução. O vento seco, o céu azul, as laranjeiras e seu perfume uma réplica irrepreensível.

Imagino Silves corrida por mouros, com cherches e jeelabas, jaiimas nas colinas e orações cinco vezes ao dia. As estreitas ruas da cidade velha, rodeando o castelo, com casas erigidas sobre as ruínas romanas onde, em estreitos espaços, artífices e comerciantes exerciam o seu mister. Águas correntes e casas com pátios interiores, mosaicos, azulejos, relevos em estuque e casas de adobe.
O vermelho da terra, o verde das plantas, os cheiros no ar.

Estive em Marrakech em 1995 por breves horas e esqueci-me destes pormenores da cidade. Vivi em Silves entre Setembro de 2000 e Setembro de 2002, e nunca associei as duas terras.
Agora, estarão para sempre ligadas, porque em ambas me sinto igualmente bem, rodeado de terra ruiva.

13.4.04

MARROCOS

Marrocos é um bom tema de conversa. Ao longo de oito dias compilei histórias que convosco poderei partilhar. As imagens também existem, mas estou à espera de aprender a colocá-las no blog para que possam contemplar as cores de um país que me encanta.

Porém, hoje não há tempo para tanto. O regresso ao trabalho encontrou uma secretária cheia de papel que exige atenção e cuidados. Procurem, que brevemente escreverei qualquer coisa.

2.4.04

PEDIMOS DESCULPA POR ESTA PEQUENA INTERRUPÇÃO. O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE MOMENTOS.

Volto a escrever qualquer coisa dia 13. Até lá, Boas férias (se for caso disso), ou boa Páscoa.
Fiquem bem.

PASSATEMPO

Lembram-se de, aqui há uns tempos, ter mostrado como o Urso Polar se divertia na imensidão solitária do gelo? Envolvia um pinguim e um bastão de basebal.

Pois bem, farto dos mesmos resultados o Urso Polar investiu no jogo e adquiriu uns acessórios novos que tornam o passatempo menos limpo, mas mais eficaz. Vejam com os vossos próprios olhos.
Já agora: o resultado a bater é 1010,2 metros.
Eh, Eh, Eh!!!

1.4.04

CHERNOBYL

Se têm dez minutos vejam isto e pensem um pouco. Já lá vão dezoito anos. Durante quantos mais se manterá a desolação. Quantas "ghostown" estarão para ser criadas no futuro, uma vez que ainda existem armas nucleares e centrais nucleares.
Perdoem à autora os erros de inglês. Porque aquilo que criou na net vale muito..., muito mesmo.