30.1.12

Bons momentos

É bom passear com amigos à beira-rio, ver o cair da tarde, o resvalar da noite, pôr a conversa em dia, comer, beber... e perceber que há pessoas que não podem estar muito longe na nossa vida.
É bom.

28.1.12

A Faca e o Queijo

A faca enterrou-se com uma facilidade apreciável, traduzindo o cuidado com que fora afiada. Por baixo da roupa  nenhuma resistência. Não se ouviu qualquer grito, urro, gemido, silvo, nada. Nada de nada.
O homem com luvas de pele rodou a faca e, com o gume apontado ao alto, puxou-a aos céus, cortando na camisa e o casaco ressequidos pelo sol uma janela com um palmo de comprimento. Foi aí que enfiou as mãos e começou a extrair a palha que enchia o espantalho. Não toda, apenas a necessária para poder enfiar o saco que resguardava as "jóias da condessa".
Compôs o boneco que de braços abertos olhava o nascer do sol e deu uns passos atrás contemplando a sua obra. 
Perfeito!
Mal se notava o corte nas vestes do espantalho.
Afastou-se uns passos e sentou-se num monte de rochas que sobressaíam na seara, marcando o ponto para onde eram atirados os calhaus que emergiam a cada passagem do arado. Pegou no GPS e registou as coordenadas numa mensagem que enviou pelo telefone.
Carla recebê-las-ia dentro de segundos para as reproduzir num papel que guardaria na última matrioshska. Depois, deixá-la-ia numa prateleira de um café da moda, a vinte quilómetros dali.
Estaria então terminado o percurso da caça ao tesouro. Dentro de duas horas começariam as filmagens e, se tudo corresse como planeado, os vencedores chegariam às "jóias da condessa" a tempo da vitória ser registada com o pôr-do-sol por detrás, garantindo um efeito óptimo para a passagem dos créditos finais.
Acendeu um cigarro, e contemplou o disco de fogo a erguer-se e a dar vida à fauna que iniciava a sua labuta. 
O homem, por seu turno, tinha agora umas cinco horas de sono garantidas dentro da carrinha da produção. E amanhã teria que iniciar a preparação do próximo programa.
Enquanto apagou a beata pensou: "Castelo Branco. Comia um queijo de Castelo Branco. Para a semana vamos para lá."
Sorriu, ergueu-se, e enquanto guardava na mochila a faca já embainhada ouviu o aviso de SMS recebida.
"Missão cumprida. Beijos".

24.1.12

Lisboa


Lisboa.
Domingo.
13h00m
Fazia sol.
À porta da Louis Vuitton, um sem-abrigo dormia, metade no passeio, metade no asfalto, coberto por um imundo cobertor.
Contrastes de uma cidade que aos domingos resta quase deserta, entregue aos turistas e aos poucos que no centro ainda vivem.
Lisboa.

Novidade

E que tal passarem por aqui, pelo "Pesqueiro da Faca" e lerem aquilo que o Cedro do Mato tem para nos contar?

23.1.12

Contemplação

Num dia de nevoeiro, a cidade tristonha anuncia mais uma semana de trabalho.
Na rádio, para além do Benfica, do Porto e do Sporting, continua a render a gaffe de Cavaco, quase tão boa como aquelas que os candidatos republicanos nos Estados Unidos vão dando amiúde.
Eu, de boa vontade continuava em perpétuo fim-de-semana, aperfeiçoando a arte da contemplação, essa actividade tão gratificante mas mal considerada pela generalidade das pessoas.
Confundem-na com preguiça.
Mas é preguiça dedicar a inteira atenção à escuta de um disco? À leitura de um livro? Ao visionamento de um filme ou de uma série? A uma ida ao teatro, à degustação de uma refeição apetitosa, à absorção de uma paisagem, um som, um silêncio?
É preguiça demorar dez minutos para tirar uma fotografia, ao invés de carregar no disparador sem limites e fazer uma centena de fotos na esperança que uma fique boa?
É preguiça olhar pela janela e ficar a ver o nevoeiro levantar?

16.1.12

Barco ao fundo (ou como a malta gosta é de dizer mal)

Em Itália, um barco de cruzeiro naufragou. Podia ter sido pior, mas a proximidade da costa reduziu o número de fatalidades. Ainda assim, foi um evento desgraçado.
Hoje, no noticiário da manhã, ouvi um português (há sempre um, desta vez até havia 11) a queixar-se porque a Embaixada Portuguesa nada fez.
Pergunto, na minha ignorância, se a Embaixada deveria ter feito alguma coisa. Pergunto se não deveria aquele português, primeiro que tudo, apelar à organização do cruzeiro, à respectiva seguradora, à sua agência de viagens, e sua seguradora, esses sim com obrigação de, no imediato, acorrer às necessidades dos sinistrados.
Quanto à Embaixada..., por acaso dirigiu-se o senhor à mesma? Se o fez, pode, e deve, exigir uma resposta pronta àquilo que requereu. Se não o fez... porquê reclamar e dizer mal por "eles" (a Embaixada) não terem acorrido a perguntar-lhe se precisava de um passaporte, de dinheiro ou de um telemóvel para telefonar (!!!)?
Afinal, não estamos a falar de uma tragédia que tenha posto em causa a capacidade de resposta das autoridades competentes, ou deixado as pessoas numa situação de desamparo e desespero. Como se demonstra por já estarem em Portugal sem necessidade de intervenção da Embaixada (repatriamento).
Ao invés de dar graças por não ser um dos mortos, ao invés de apontar a sorte que teve e a felicidade de já estar de regresso, o melhor que este senhor encontrou para dizer foi disparar críticas a qualquer coisa deste país. Porque como diz Sérgio Godinho: "Só neste país..."

12.1.12

Gaivota (que não Fernão Capelo)

Vá lá saber-se porquê, há no prédio onde trabalho um "vizinho" que descobriu uma vocação para alimentar gaivotas a partir da sua janela.
Ainda não vi isso acontecer, pelo que nem sei se o faz em movimento, para ver a agilidade dos animais a apanhar comida em pleno vôo, ou se deposita comida no parapeito. Para o efeito, é indiferente.
O que verdadeiramente importa é que, ao invés dos repetitivos e desinteressantes pombos, tenho a voar à frente da minha janela umas gaivotas que já se habituaram ao pitéu. E deixem-me que vos diga, que estas aves são verdadeiramente sinistras. Com os seus gritos de escárnio, "risos" ameaçadores, olhares avermelhados, enquanto voam em círculos sobre a rua não consigo deixar de pensar que estou sob vigilância e que, se o meu "vizinho" não satisfizer os seus desejos por comida, estas brigonas nos poderão atacar a qualquer momento.
E de repente lembrei-me do Gaston Lagaffe e os seus brigões.

10.1.12

Carnificina

Baseado numa peça de teatro, o filme é pouco mais do que isso.
E não precisava de ser mais.
O argumento é soberbo. Os diálogos, a tensão, a evolução dos personagens são fantásticos.
Os actores são de primeira água, e estão no seu melhor. A realização transforma a sala de cinema numa sala de teatro, de tal forma que, quando "desce o pano" e a tela fica escura, apetece levantar da cadeira e aplaudir, esperando que eles se alinhem na "boca de cena" recebendo tais aplausos e fazendo as costumeiras vénias.
Em Portugal, o filme está traduzido como "O Deus da Carnificina", repescando o título da peça.
Não o percam.

9.1.12

Incongruências

No fim-de-semana li que a Selecção Nacional de futebol, no Europeu que se avizinha, irá ocupar uma unidade hoteleira pagando € 33.000,00 por dia.
A Espanha, para o mesmo evento, pagará € 4.700,00 por dia...
Agora, leio a notícia dos cartões de crédito com plafonds de € 4.000,00 do anterior Ministro da Justiça e seu Secretário de Estado...
Entretanto, toda a gente fala de crise, de contenção de despesas, de sacrifícios, falências... Há qualquer coisa de incongruente em todas estas mensagens que não consigo admitir.

5.1.12

Le Carré

O filme é precioso. Espiões em plena Guerra Fria animados por uma verosimilhança ausente nos fantasiosos Bonds e afins. Mas claro, tinha que ser assim. Quem conhece e gosta dos livros de Le Carré não pode perder este filme. Está soberbamente filmado, tem os tempos, as pausas, da escrita que celebra e as interpretações são soberbas, com destaque para Gary Oldman, que dá vida a um irrepreensível Smiley.
O primeiro filme do ano merece 5 estrelas.

4.1.12

2012

Entrei o ano com a descoberta de algo muito bom. Esta bebida aqui.
Recomendo vivamente. Em tempo de vacas magras, este investimento justifica-se. É, contudo, a curto prazo... pois duvide que dure muito após saltar a rolha.

Quanto ao blog, para os poucos que ainda se dão ao trabalho de por aqui passar, vamos a ver se consigo manter a resolução de tornar 2012 um ano mais produtivo que o escasso 2011.

Bom ano!