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11.3.05

"Um Dia Acordei" (10 - epílogo)


SANTUÁRIO
Uma das coisas que sempre me impressionou nas igrejas foi o silêncio. Em especial nas antigas, construídas noutros séculos a mando de reis a Deus tementes. Mais, se foram bem construídas, a maioria dessas tem um jogo de luzes que aquece o coração, desperta a alma e alimenta a fé.

Até mesmo os ateus ou agnósticos não podem ficar imunes ao calor que a luz transporta uma vez atravessados os vitrais. Com uma nave alta, em pedra erguida, não fica gélida desde que o astro-rei faça um dos seus raios cruzar um vitral.

E o silêncio.

Podemos não ligar ao Deus dos católicos... Mas se queremos um momento connosco, uns instantes de sossego introspectivo, encontrá-lo-emos num banco de igreja. Aí podemos contemplar a grandeza do nosso espírito, a entrega dos outros que aquelas paredes ergueram, o poder que um deus tem. E podemos pensar. Pensar enquanto vemos imagens de santos, gente que sofreu pelos outros ou que aos outros trouxe bem. Imagens de Cristo no Seu calvário, a bem da raça humana. Que desperdício, Jesus, que o Homem não merece que nada nem ninguém por ele se sacrifique. O que dizem ser Teu Pai disso tinha obrigação de saber, Ele que tudo sabe. Foi cruel deixar-te pendurado em duas travessas cruzadas. Mas também foi cruel para os outros milhares que o mesmo destino tiveram e dos quais não reza a História. E os que anterior e posteriormente sofreram as consequências da prepotência dos outros.

Aqui onde estou vejo com clareza os vitrais que rodeiam a nave. Em todos eles está uma das etapas desse calvário, passos que todos os anos o Papa repete numa cerimónia, conforme a saúde lho permite. São imagens estilizadas à luz dos conceitos de outros séculos. São figuras de várias cores construídas, que evoluem até à ressurreição. Não me dizem muito, mas dizem-me muito mais do que há alguns anos atrás.

Criei este hábito de fugir para as igrejas. Fugir e contemplar. Pensar. Aos poucos construí a minha filosofia, a minha religião. Retirei deste ambiente um modo de ser. Não consegui, porém, suportar aqueles que aqui exercem o seu mister, aqueles que velam pelo templo e o usam para transmitir a dita Palavra.

Que refúgio poderia eu encontrar aqui? Desde que me abandonaste que fugi à sociedade. Deixei de ter amigos, deixei de sair com alguém. Felizmente a profissão permitia a solidão. Os restantes momentos vivia-os comigo.

Sonhava que voltarias...

Sonhava que verias o erro e tentarias emendar o passo em falso.

Sabia-te infeliz...

Sabia-me infeliz.

Mas depois ouvi dizer, contaram-me, do acidente. Doeu. Doeu saber que, ainda que o quisesses, não poderias regressar. Não poderíamos ser um outra vez.

Foi então que comecei a procurar o silêncio das igrejas. Porque é diferente. Poderoso. O silêncio lá em casa tende a ser deprimente. Aqui não, é sinónimo de respeito, de poder, de crença. Fé.

Tive que descobrir a Fé. Não me interessava a das religiões instituídas. São tantas que nada me garantia que alguma estivesse certa. A minha Fé. Foi essa que procurei. Procurei acreditar que estarias, algures, à minha espera. Que quando estivesse tudo preparado iria ter contigo e juntos continuaríamos o que ficou por acabar cá na terra.

Hoje, vinte anos depois, estou aqui. Já nem tenho o consolo profissional para ocupar algumas das horas diárias, pois é regra que quem tem mais de 65 anos já não deve fazer nada que não seja ser mantido, sustentado, à custa daqueles que ainda laboram. Hoje, sinto que as coisas estão quase preparadas. Sinto que falta pouco para te reencontrar.

Como sonhei com esse momento. Como sonho. Como acredito. É esta fé que vai tornar o sonho realidade.

Até já, meu amor.

"Um Dia Acordei" (9)


FUGIDIA
Ela fugia.

Ela estava só.

Tantos anos de solidão. De companhias imperfeitas, dolorosas. De solidão.

Estava cansada. Cansada daquele dia. Ainda sentia a pele das faces presa por lágrimas secas. Sentia uma dor no peito, junto com aquele arfar que a afligia. Mas não parava.

Caminhava. Caminhava rápido pelas ruas cheias de gente. Gente que saía dos empregos, gente que recuperava os filhos que abandonara de madrugada, ramela no olho ensonado. Gente que a estorvava e ignorava. E arfava, que um maço de tabaco por dia deixa as suas marcas. Mesmo sem correr, ter atravessado toda a cidade a andar, rápido, a cansara. A vida cansa. A fuga cansava-a.

Fugia.

Hoje mais alguém ficara para trás. Chamara-o de amigo, primeiro. Ao fim de tantos anos acabou por chamá-lo de querido, de amante. No fim fora igual a todos os outros. E para além de perder um amante, sentia o vazio pelo amigo de outrora. Fora igual a todos os outros.

Todos menos um. Sim, um. Como ele fora diferente. Como eles foram diferentes. Como em breves momentos foram felizes. Momentos intensos, espaçados como as cidades que os retiam. Como fora cruel o fim.

O Fim.

Mas o fim foi selectivo. Escolheu-o a ele, deixou-a a ela. Deixou-a com um sentimento absurdo de responsabilidade, de castigo. De que o bom só acontece uma vez e se nos é retirado é porque dele não somos merecedores.

Tudo o que agora surja mais não será que um fraco sucedâneo. Não conseguirá nunca superar o modelo anterior, o modelo negado.

Nem mesmo sendo um amigo. Ele fora um amigo e um amante. Peça insubstituível, que não se conseguem transformar amigos em amantes nem amantes em amigos. Cada qual é o que deve ser. Nunca o que outro foi.

Sim, ele é insubstituível. Não quer isso dizer que o vazio que a apoquenta não possa ser preenchido.

Desde que não fuja.

Desde que rompa com o passado.

Como podemos romper com o passado se ele foi tudo o que sonhámos? Para quê o futuro incerto? Para quê o fugaz presente?

Ela vive no passado.

Eu, se calhar, também o faria.

8.3.05

"Um Dia Acordei" (8)


VELHA

Era uma velha com ar de quem pode contar muitas histórias.

Sim, era uma velha.

"Velhos são os trapos", dizem. As pessoas são idosas. Essa será uma idosa com ar de quem pode contar muitas histórias.

Estou em completo desacordo. Era uma velha.

"Idosa" é um termo terrível. "Idosa" soa a fardo, a antecâmara da morte, a lares e a maus tratos, a decrepitude e visitas constantes ao médico. "Idosa" é uma qualificação social, um pretenso escudo para as agruras da sociedade, uma desculpa patética da sociedade com a consciência pesada.

"Velha" não. Velhas são as árvores que aguentam as intempéries e estendem os seus ramos, as suas raízes, a sua sombra. Velhas são as casas que, mesmo em ruínas, mantêm as suas fundações firmes, sólidas. Velhas são as pedras que cá estavam antes de nós e depois de nós cá estarão. Velhas são as ondas do mar que sempre embalaram a vida.

Qual é a vergonha em ser velha? Aquela mulher era velha. Só de para ela olhar sentia a vida, uma vida extensa, antiga, cheia de experiências, de sol, de vento e chuva, cheia de vontade para ter resistido até agora. Agora que é velha.

Cada uma das suas rugas poderia ser a história de um dos seus filhos, ou dos filhos deles, ou mesmo daqueles que seus bisnetos são... já lhes perdeu a conta. São tantos. Estão por todo o mundo. Quantos deles já não chegarão a velhos? Quantos são já idosos?

Lembra-se da morte do Rei. Era pequena, mas não esquecerá o rebuliço, as almas perdidas nas ruas da cidade a temer pelo futuro, e o riso satisfeito do seu pai que nem sabia ler mas defendia fervorosamente a República.

República que viu nascer. E o Estado Novo. E o Estado Novíssimo. A primeira e a segunda guerra. A guerra colonial. Tudo viu. Em tudo isto estava o seu sangue. A sua família. E tudo acompanhou atentamente com a vivacidade que sempre lhe foi reconhecida.

Aquele brilho nos olhos pode ser o reviver de uma história em que poucos acreditarão. Ou se lembrarão de um dia ter existido.

Não a tratem, pois, por idosa.

Aquela mulher é velha.

Velha!

E ainda bem.

7.3.05

"Um Dia Acordei" (7)


NEVE
Sentia-me pessimamente!
Mais uma vez o destino passara-me a perna, fazendo ruir todos os meus planos, todas as expectantes antecipações que povoam o meu espírito. O desejo de te reencontrar, de voltar a tocar-te, via a sua satisfação adiada. Mais uma vez, um obstáculo impedia-me de estar contigo como previra. Mais uma vez a tua ausência prolongar-se-ia para meu desconsolo. Queria-te. Mais do que nunca.

Ainda faltava tanto para que ficássemos de novo juntos.

Entretanto, aqueles dois ali eram os únicos seres racionais que via. Estavam, no entanto, uns degraus abaixo na escala evolutiva em comparação com aquele gordo e ágil gato que repousava enroscado junto à lareira.

Maldito nevão!

Viera sem avisar.

"Possibilidade de queda de neve", disseram quando saí do hotel. Podiam ter dito que ia nevar desalmadamente, que Deus se fartara do algodão doce que fizera e o enviara todo para nós, cá em baixo.

Era tudo tão simples. Saía cedo, subia à Torre, recolhia daqueles irmãos as suas assinaturas que faltavam, descia, entregava tudo no notário, punha-me na estrada e chegava até ti num instante. Num instante. Era tudo tão simples.

Só que tudo se complicou.

Sim, acordei cedo. Sim, subi à Torre. Sim, os dois irmãos assinaram. Não, não desci logo.

O desgraçado do carro gripou com o frio. Nevava desde as dez da manhã, e foi debaixo de neve que abri o capot do carro. Com o meu olhar "especializado" inspeccionei o desolador conjunto de fios e tubagens, de peças metálicas que se expunham aos flocos cada vez mais constantes. O vento já assobiava.

O líquido refrigerante ainda refrigerava.

O depósito tinha gasolina.

O óleo estava na quantidade certa.

Os fusíveis estavam intactos.

Não via nada obviamente fora do lugar.

Chamei os irmãos.

Pareciam dois garrafões com pernas. Apesar do matinal da hora, o cheiro a álcool era o bastante para desinfectar uma enfermaria. O bafo rebentaria qualquer balão da GNR.

Mas o certo é que percebiam de motores.

Bastou meia-hora para descobrir a porcaria que entrara na tubagem bloqueando a bomba de gasolina, e limpá-la do sistema.

Ainda o ponteiro pequeno não começara a sua viagem descendente e já o motor trabalhava.
E já a neve bloqueara a merda da estrada. E continuava a cair. A cair. Nada levemente. Olhei para o carro uma hora mais tarde e já não o vi. Foi desesperante.

Fiquei com os dois irmãos. Depressa perceberam que não tinha a mesma disposição deles, que não encarava a vida da mesma maneira. Abandonaram-me junto a uma televisão que apenas captava a RTP 1, e foram testar os seus fígados em contínuos bagaços durante discutidos jogos de dominó.

O gato... já sabes como me dou com gatos, arranhou-me as costas da mão quando insisti em fazer-lhe uma festa. De vez em quando, desconfiado, abria um olho e mirava-me lá do fundo, daquela almofada castanha junto à lareira alta.

O resto já sabes... foram dois dias até poder estar aqui contigo. Até poder acariciar a tua cara, a tua pele, a tua carne. Até poder beijar-te. A face. Os olhos. A boca. Toda, por todo o lado.

Até te tomar nos braços e esquecer o tempo.

4.3.05

"Um Dia Acordei" (6)


EMPEDRADO

A janela antiga está tão maltratada quanto o prédio. Numa das zonas antigas da capital, um prédio de três andares, cinzento, sujo. Como todas as outras, tem portadas e muitos vidros pequenos, rectangulares. A tinta branca, estalada, acumula sujidade que o zelo da limpeza não consegue eliminar. Precisa de uma pintura. Tal como o prédio. Tal como tudo o que nele está.
Tal como a velha senhora que se debruça sobre a grade ferrugenta da pequena varanda. Fátima, nome santo o seu, cuja vida mais perto do Inferno esteve, contempla com os olhos húmidos o empedrado do passeio, doze metros para baixo.

As rugas são bonitas. Sim, Fátima tem uma daquelas caras velhas e enrugadas que mantêm a beleza de outros anos. Cabelos brancos, muito brancos, mas pouco cuidados apesar dos ganchos que o tentam compor. Não usa óculos, ao contrário das vizinhas, também elas nos setenta.

Veste uma bata axadrezada, azul, por cima de uma camisola, rubra como as lágrimas que vertera durante toda a noite. Lágrimas amargas, dolorosas, doentes. Lágrimas vindas directamente do coração que já não aguenta mais martírios. A vida foi cruel. A vida é cruel. Fátima não sabe porque pecado paga... mas só pode estar a ser castigada.

Foi pura coincidência ter nascido a treze de Maio e terem-na nomeado como a Santa que estava para vir. Mas desde pequena começou a encontrar o calvário de uma existência amaldiçoada. Aos cinco anos perdeu o pai, aos oito a mãe. Aos nove já a tia a pusera a trabalhar sendo alojada lá em casa como nos piores contos de fadas. Dez horas de trabalho a lavar a roupa dos outros e voltar a casa para mais umas horas de lides domésticas. Qual Cinderela, era menosprezada pela prima que se julgava a mais bela mulher do mundo apesar dos seu treze anos mal acabados.

Quando chegou aos dezasseis, conheceu um homem que por si se interessou. É esse o momento que revê agora que olha para o empedrado lá em baixo. É por esse momento, por esse homem, que os seus olhos agora choram, hoje, tantos anos volvidos. Era terno, carinhoso, e quis amá-la. Quem não quis foi a sua tia, que tudo fez para o afastar. Como podia aquela sirigaita arranjar um homem quando a sua filha, tão mais prendada, ainda estava solteira e já corria a fama de que ficaria para tia pois que nenhum homem das redondezas era capaz de domar aquele espírito mimado ou aturar a sogra que o mimara.

Sem coragem para se rebelar, deixou aquele anjo fugir, deixou que aquele ser abandonasse a sua vida. Perante a encruzilhada que se lhe deparou escolheu a pior alternativa, porque não teve coragem de caminhar na árdua batalha da emancipação.

Ainda hoje é assim. Ali, do alto da janela, vendo por baixo de si aquele candeeiro de ferro trabalhado, é incapaz de agir. Tudo na sua vida aconteceu por inacção.

Fátima só se livrou da tia quando ela morreu. Tinha vinte e oito anos, já estava envelhecida, já as ancas acumulavam celulite e trabalho, já a pele estava gasta e as mãos ásperas e grosseiras. Para não ficar com a prima, aceitou casar com Norberto, aquele viúvo que a cortejara em pouco mais de um mês. Incapaz de dizer não, casou com as lágrimas nos olhos, revendo o jovem de anos atrás, vendo o sonho que perdera, a vida que perdera, o calvário que ganhava.

Norberto era uma besta. Bebia a todo o tempo. Chegava tarde a casa e, se não lhe batia, montava-a com violência. Com um bafo a vinho e um terrível odor corporal, despia-se, despia-a e violava-a.

Começou por resistir. Mas era pior, pois ele batia-lhe e vergava-lhe a vontade de dizer não. Depois passou a fazer tudo para tornar mais rápida a tortura. Com os olhos fixos no tecto mexia-se o mínimo indispensável para que ele não conseguisse retardar o inevitável, para que rapidamente se viesse e caísse no sono. Depois ficava ali, acordada, tentando olvidar, sonhando com aquele jovem que a teria tratado bem, que com ela faria amor e não a violaria como a besta que a seu lado dormiu durante vinte e cinco anos.

Felizmente Deus concedeu-lhe a benção da esterilidade.

Apesar de desejar ter filhos, só os queria com um pai, e esse nunca o teve.

Lá em baixo passa um casal. Ela lembra-lhe como era, nos seus idos dezasseis. Ingénua, sonhadora, com o futuro nas mãos. Apetece-lhe gritar "Não largues o teu futuro! Decide tu!", mas não grita. Não precisa. Os tempos são outros, e hoje já não há tias como a sua. Hoje resiste-se, luta-se e enfrenta-se a vida pelos cornos nesta tourada em sociedade. Os olhos choram. As lágrimas quentes que vêm lá do fundo, lá do passado, precipitam-se nos doze metros que a separam do empedrado.

Uma vez viúva, uma vez só, passou os melhores anos de sempre. Não fazia nada de extraordinário. Não conhecia ninguém. Não tinha vida. Tinha rotina. Mas estava finalmente só. Foi o que teve de mais parecido com a felicidade.

Depois... aquelas dores. Não havia de ser nada. Resistiu.

As dores voltaram. Tornaram-se insuportáveis. De médico para médico, o diagnóstico foi dos piores. Era o bicho mau, o papão, o cancro. "Foi pena não ter vindo antes... agora...". Os rodeios do médico eram óbvios. Não teve coragem para perguntar quanto tempo lhe sobrava. Limitou-se a sair do consultório a chorar. E há já dois dias que chora.

É o segundo dia que está à janela. Aquela janela antiga, com muitos vidros e a tinta estalada. Debruçada sobre a grade ferrugenta da pequena varanda onde só cabem vasos contempla o empedrado e sonha em ir ter com ele em queda livre. Um impulso. Um segundo. E já está. Acaba-se a dor. Acaba-se o cancro. Acaba-se a mágoa.

Fátima não o fará. Não tem coragem. Coragem para agir. Ficará ali, à janela, até não conseguir sair da cama, onde terá uma morte agonizante.

Até então não deixará de recordar tudo. A vida de trabalho. A tia feroz. A prima solteira que acabou no Júlio de Matos. O marido que a violou e espancou. A doença que a come por dentro.

O empedrado que se recusa a subir.

3.3.05

"Um Dia Acordei" (5)


RAIOS

Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi... Pi...


Em fundo negro os riscos eléctricos, verdes, tomam uma forma bicuda, regular, quebrando a monotonia da linha horizontal. O constante apitar ajuda a perceber que o paciente ainda está vivo.


O diagnóstico é reservado. Cinquenta e seis anos em estado de coma há dois dias. O fole do ventilador, bfff... bfff... bfff... bfff..., também constante, agarra aquele homem à vida, insufla-lhe o ar, o oxigénio, alimentando-o do que nos é mais essencial.


O quarto, asséptico, é bem iluminado pelo sol que penetra por entre as cortinas. Sol de Inverno, que não chegaria para manter a temperatura que o ar condicionado assegura naquele espaço. Mas na cama, rodeado por aquelas máquinas do Inferno, ou dos Céus, ou do Purgatório, só está o paciente. Aquele homem de cinquenta e seis anos, em estado de coma.


Ele não ouve os piis..., nem os bffs..., ele não ouve. Não ouve os médicos, as enfermeiras que volta e meia por lá passam para se assegurarem de que os caríssimos aparelhos funcionam e que, em caso de urgência, fariam disparar o alarme na central.


Ele não ouve. Não transmite. Mas vive. Se a isso se chama vida. Se vida for um conjunto de acções musculares induzidas e reacções químicas celulares. Se vida forem aqueles pensamentos que tem mas ninguém conhece. Nem ele deles se recordará se um dia voltar ao mundo dos que sobrevivem sem máquinas. Ao nosso mundo.


Armando, sim, é esse o seu nome, pensa agora, ainda que vagarosamente, ainda que demore uma hora para realizar um silogismo que nos levaria um minuto. Armando pensa como tudo aconteceu. Toda a vida defendeu a tese de que ninguém estava no sítio certo com as pessoas certas. Se alguém encontrava o seu outro eu, o seu complemento, aquele alguém a quem chamamos de amor, estava a exercer uma profissão, um ofício, um emprego que não lhe agradava por inteiro, que não era o que realmente ambicionava. Se porventura assumia a actividade desejada, por certo tinha o homem ou a mulher errada a seu lado. Aquele outro que o completava teria ficado algures no passado, ou então inalcançável num futuro que não seria vivido.


Esta era a tese de Armando. Com ele foi assim. O mundo das finanças era o seu. Sempre adorara lá se movimentar. Sempre quisera tê-lo. E acabou por o conseguir. Nele fez fortuna. Nele se tornou invejavelmente capitalista bem sucedido.


Nunca teve a mulher certa. O seu casamento não teria sido menos emocionante se escolhesse um frigorífico para mulher e decidisse adoptar o seu único filho. A viuvez trouxe-lhe a calma e satisfação de outros tempos. Até que ela surgiu.


Vinda do outro lado do Atlântico, aquela mulher. Aquele amor. Aquele sentimento que havia desistido de procurar. Que determinantemente julgara fora do seu alcance.


E pôs tudo em causa. A sua teoria.


Ahhhh! Que raiva!


Deus existe. Armando, que nele nunca acreditara, reconhecia agora a Sua existência. Deus existe, pensava. É um bicho mau e sádico que se diverte com a nossa dor. Com o desfazer das nossas alegrias. E ri imenso quando sonhamos com a felicidade. Mas, pudera!, Deus está só. E como todas as pessoas sós, feitas à Sua imagem, tornou-se amargo. Uma eternidade a amargar.


Logo, omnipotente mas incapaz de criar um seu igual, Deus não é feliz. É amargo. E se um homem, criação Sua para se divertir, qual TV, aspira a ser feliz, ele trata de desfazer tudo e mostrar que um insignificante não pode ousar ter aquilo que lhe está vedado.


Só isto justifica aquilo que lhe aconteceu. Armando não tinha problemas. Vivia como queria porque já não era economicamente dependente de nada nem de ninguém. Tinha profissão, sem qualquer horário, uma actividade que lhe dava mesmo gozo em exercer. E acordava todas as manhãs ao lado da mulher que amava, que o amava.


Naquele dia as coisas não tinham corrido bem. Primeiro a avaria no carro. Depois a chuva, a intempérie. O taxista que recusou levá-lo à casa de campo porque era longe. O taxista que aceitou levá-lo mas cujo o hálito era alcoolicamente preocupante. O pequeno despiste que o assustou. Que o fez dizer: "...deixe estar. Mesmo com a chuva eu faço o resto a pé. São só dois quilómetros e faz-me bem andar". A caminhada. A chuva a aumentar. O vento que destruiu o guarda-chuva e o expôs aos elementos. A trovoada. O raio.


O raio que Te parta!


Deus, Demónio, Bicho Mau... Ser Intragável que, invejoso, mal motivado, usaste os poderes de Zeus e fulminaste Arnaldo com um raio.


Com um raio?!


E porquê? Porque quis ser feliz.


"Mas eu vou recuperar, estás a ouvir, oh filho da puta? Vou sair daqui e ser feliz..."


Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

2.3.05

"Um Dia Acordei" (4)


SAL


A mesa quadrada é igual às de tantas tabernas por esse Portugal fora. Os dois que lá bebem também passariam despercebidos em qualquer um desses templos do homem lusitano do princípio do século vinte.


Em cima, um jarro de barro que já foi cheio três vezes por aquele barrigudo com pêlos a sair das orelhas e das narinas, e que limpa a bancada de mármore com um pano, outrora branco, encharcado do vinho que vai sendo derramado por homens de rude instrução.


Dois copos completam o conteúdo da mesa escura, suja. Frente a frente, dois indivíduos vão consumindo o carrascão tinto que sai daquele barril com trinta anos. O barril, que o vinho nem doze meses tem. Aqui é assim, não se deixa envelhecer. Desde que venha da uva, seja tinto e tenha álcool os fregueses mais não exigem.


Dizia eu que eram dois homens. Apesar de sentados, percebe-se que são baixos. Molde antigo aquele que fazia os homens com metro e meio. Não é como hoje, que qualquer puto passa do metro e oitenta e facilmente se confunde com um jogador de basquetebol.


O mais gordinho é deveras curioso. O cabelo já é escasso, rara anedota do outrora, mas, ainda assim, comprido e zelosamente penteado pela manhã com um pente molhado que cola as finas repas à cabeça pequena. O problema é que, com o correr do dia e do vinho, vai ficando solto e despenteado, tornando-se exemplo acabado de como um quase careca pode ter de sacudir o cabelo dos olhos.


O nariz é vermelho, mas nada abatatado. A sua leveza de linhas deixa-nos na dúvida se tem alguma nobreza ou se descende de Pinóquio. As faces igualmente rosadas não escondem a pele branca do sujeito. Muito branca, quase como a folha em que escrevo.


Não tem pescoço. De gravata deveria parecer um saco do lixo mal amarrado. Mas gravata é vestuário que já não se lembra de usar... desde que lhe morreu a mãe, há tantos anos.


Ventura é o nome por que é conhecido. Para mim, se lhe tirassem o copo, via a figura de um heroinómano dos anos cinquenta... Mas não. É verdade que se injecta, mas é na barriga, com insulina... Também é verdade que o faz com aquelas seringas antigas, de vidro, que todos os dias ferve ao mesmo tempo que aquece a sopa que lhe conforta o estômago antes de se deitar. Sim, que apesar de beber muito todos os dias na taberna do Jaime, chega sempre à casa fria em condições de aquecer o caldo que a mulher-a-dias, vizinha de baixo, lá deixa.


Curiosa relação, a deles...


Ventura nunca casou. Conheceu mulheres, mas pouco. Nunca foi um amante, muito menos um marido. A vizinha é viúva. Aceitou o emprego porque a pensão é míngua e o Ventura tem uma boa reforma lá da empresa. E depois, porque lhe custa ver aquele farrapo sem ninguém que por ele olhe.


Então, todos os dias lhe deixa um tacho com a mesma sopa que para si preparou, e arruma, muito superficialmente, a casa. Uma vez por semana finge que limpa o pó e lava-lhe a roupa. Até mesmo a da cama, que ela própria muda. Custa pouco. Mantem-a ocupada, e rende-lhe vinte contitos por mês que sempre vão chegando para a conta da farmácia.


Pois o Ventura está sentado na mesa quadrada, frente àquele outro homem, fitando-o no olho.
Sim, no olho.


"Meia-Vista", como o conhecem lá pelo Jaime, só tem o olho esquerdo. O outro, a julgar pela cicatriz que cruza a órbita, nascendo na fronte e terminando no maxilar inferior, ficou-se algures na ponta de uma navalha manejada por um rápido canhoto.


"Meia-Vista", parece um marinheiro. De azul vestido, tem na cabeça um boné que nunca navegou mas se confunde com aqueles das imagens de marinheiros passados. É a grande dor da sua vida, nunca ter embarcado. Mas primeiro foi a mãe. Depois a mulher. Depois a filha. Nunca quis deixar nenhuma delas e todas o deixaram. Desculpa só tem a primeira, que foi chamada à Eternidade cumprida que estava a sua missão na terra. A outra trocou-o por um caixeiro-viajante. E a filha, por si criada com sacrifício desde os cinco anos de idade, esqueceu-se dele quando emigrou para a Suíça com um recém-conhecido.


Só, naquela casa minúscula, não tem a sorte de Ventura. Ele mesmo cuida de si. E o resultado está à vista, que as duas divisões já são pasto para pequenos roedores e alguns insectos rastejantes. Porém, isso não lhe interessa, que o vinho de má qualidade que o Jaime lhe vende tudo apaga.


O cabelo é totalmente branco, talvez um pouco amarelado por força da higiene que é parca, e ainda farto para quem já aparenta uns setenta anos. A sua pele é vermelha, forte, como se andasse pelo mar como o marinheiro que sonhara ser. Enquanto mira o Ventura, que ao contrário dele fuma (e sem filtro, ainda por cima) palita os dentes com as unhas. Não é bonito de se ver, mas hábitos assim nascem com os pais e jamais se perdem.


"Meia-Vista", fala pouco. Ouve mais. Muito atentamente ouve pela milionésima vez as histórias do Ventura. Todos os dias as ouve. Por entre jarros de vinho que com orgulho faz questão de pagar a meias, o velho de um olho só mantém o seu sonho. Não há ratos nem baratas, nem caspa ou seborreia, piolhos, pulgas ou qualquer outra merda que lho roube.


"Meia-Vista" sonha ser marinheiro.


Algures naquela alma está o mar e um barco.


Quando morrer não vai para o Céu, não. Vai vogar por cima das águas num daqueles veleiros de outrora, correr mares, ilhas, sol e vento, e sentir nos lábios o sabor do sal.

1.3.05

"Um Dia Acordei" (3)


PERGUNTAS

Estava realmente desconfortável. A cadeira era dura como é costume nestas instalações do Estado. As pessoas, horrivelmente simpáticas, lançavam-me sorrisos de benção. Como se eu precisasse do seu apoio. Como se me interessasse a opinião daquelas mulheres desconhecidas que se sentavam na mesma sala que eu.

Todas elas tinham crianças sobre as quais depositavam a sua atenção, estivessem a correr, sentadas, a choramingar ou ainda, devido à tenra idade, a dormir como só os néscios e as crianças conseguem.

Eu tinha duas aos meus cuidados. A Filipa, de seis anos, que tentava comunicar com uma miudinha loira mais alta que ela, e a Inês, com a idade de menos dois meses. Faltavam ainda dois meses para que eu aliviasse o meu corpo do peso incómodo que a barriga agora proporcionava. Mais ainda naquela sala de espera onde nos obrigam a levar os nossos filhos para uma periódica injecção matinal.

Chamaram mais um nome. Uma velha ergueu-se com esforço e chamou o neto. Curiosamente, fez-se silêncio. Todos olharam para o rapazinho que naquele momento estacou, ergueu os olhos e deixou transparecer um esgar de horror. Até ali aguentara-se, tentara vencer o medo que a sua mente guardara de pretéritas experiências. Mas aquele apelo tornou presentes as agulhas, as seringas, a dor... O rapazinho gelou e ameaçou fugir, fazer uma birra, qualquer subterfúgio válido. A avó cortou-lhe a dignidade:

- Onde pensas que vais? Queres ser um homem ou um maricas? Comporta-te e vem cá! Olha a vergonha por que estás a passar. Já viste como aquelas meninas estão ali sem medo?

Pronto! Engoliu alguma saliva para humedecer a garganta que ficara subitamente seca, endireitou-se e olhou de soslaio para as duas raparigas. "Que raiva!, porque é que aquelas desgraçadas têm de estar tão calmas? Ahhhhh!!, odeio miúdas!" Ainda em pânico, mas atingido na sua infantil virilidade, deu a mão à avó e passou por mim, pobre anho, como se fosse para o sacrifício. Decerto que hoje à tarde, quando estiver a jogar computador, que hoje já não se joga à bola na rua, não se recordará mais deste momento.

Eu, pelo contrário, lembrava-me constantemente da Inês que fazia questão de demonstrar as suas habilidades para o futebol ou artes marciais. Fechei os olhos por uns segundos recordando com um arrepio as dores e o prazer de ter trazido a minha Filipa ao mundo. Iria passar por tudo outra vez. Compreendia tão bem aquele rapazinho. As dores também me assustam. Sempre tive pavor da dor. Mas... receber nos braços uma coisinha encardida, viva, que dentro de mim saiu é um milagre que compensa quais quer dores.

Senti um beliscão no braço. A minha mais velha fazia questão de me chamar a atenção com uma ferroada.

- Mãe, esta é a minha amiga Catarina. - espantoso, como as crianças fazem e perdem amigos. Há vinte minutos atrás nem se conheciam.

- Olá, Catarina. - respondi. Agora já sabia. Dali a pouco uma destas senhoras diria para ela não me incomodar com perguntas, mas meteria conversa comigo. E em vez de conversar com uma criança, das coisas que mais gosto de fazer, teria de aturar uma mulher com uma conversa igual a milhares de outras de sala de espera.

- Estás grávida? - perguntou a menina loira tratando-me por tu, como fazem todas as crianças desta idade.

- Estou.

- A Filipa diz que estar grávida é ter uma irmã na barriga.

- Desta vez é. A Filipa vai ter uma maninha.

- É um bebé?

- É... uma menina bebé.

- E vai sair da tua barriga?

- Vai, daqui a dois meses.

- Porquê?

- Porque só então é que está pronta.

- Ahhhnnnn... Como é que foi aí para dentro?

Já estava à espera. Só podia vir esta pergunta. Senti-me corar, não sei porquê. Quando olhei à volta vi toda a gente a olhar para mim. Tinha aparecido um daqueles silêncios terríveis, e todas aquelas mulheres ouviam a nossa conversa. Creio que um prazer sórdido aguçava-lhes a curiosidade de saber como descalçaria eu esta bota.

- Bem, foi uma sementinha que o pai da Filipa, pôs cá dentro e que cresceu aqui, no quentinho, até ser um bebé, como tu eras quando nasceste...", ensaiei à laia de resposta.

Fez-se um silêncio enquanto a menina dos cabelos loiros assimilava a minha mensagem. Com um ar de desprezo, virando-se para a minha Filipa, disse:

- A tua mãe está a mentir. Eu, lá na escola já estive a pôr sementinhas e só nasceram flores, não bebés.

Enquanto a minha filha ria e acreditava na opinião de uma recém-conhecida em detrimento da sua mãe, uma voz ouviu-se:

- Catarina, deixa a senhora em paz. Vai brincar com as revistas. Desculpe. - disse para mim, - Sabe como são as crianças. É a sua segunda?, ou tem mais?

28.2.05

"Um Dia Acordei" (2)


PARTE


Olhos tristes.

Como os teus olhos estão tristes.

Como doeu, ver-te depois de tantos anos, triste.

Estavas com o capacete posto, e nem o tiraste. Ias pegar na mota e trabalhar. Uma "cinquenta" para entregar correio expresso. E pela viseira esses olhos tristes, vencidos, completamente derrotados. Apesar de iguais a doze anos atrás, o brilho fugira. O sonho fugira. E aquilo que para ti sonhei não existe. Não o tens. O meu sonho também se desmoronou. Porque és um vencido e sempre te vira como vencedor.

Era pequeno quando brincava contigo. Já andavas de mota, ainda eu pedalava mal. Foste tu quem me ensinou a andar de bicicleta, lembras-te? Já tinhas namorada ainda eu detestava as raparigas e as suas bonecas. Enquanto montava legos tu desmontavas motores. E sonhavas.

Sonhavas em sair de casa, deixar o padrasto execrável, e ser independente. E eu acreditava. Via-te como um ídolo, um exemplo. Fazias tudo o que querias e perdias tempo a brincar comigo, seis anos mais novo. Fazias tudo o que querias e enfrentavas a porrada que te davam.
E acabaste por partir. Um dia, sem dizer nada. Sem nada se saber. Pura e simplesmente já lá não estavas. Já não te via à janela do quarto. Já não ouvia a música que punhas alto e eu não percebia. Já não estavam ali a tua mota, nem aquelas miúdas giras com quem andavas.

Então comecei a sonhar. Sonhei que tinhas conseguido. Que venceras. Que eras autónomo. Tantos anos depois só podias ser mecânico de qualquer campeão de motociclismo. Ou de automobilsmo. Na pior das hipóteses eras encarregado de alguma oficina onde só pelos sons percebias os defeitos dos carros, as falhas nos motores.

Sonhei-te vencedor. Nunca casado, não! Qual seria a mulher que te prenderia? Tu, que com o teu jeito tímido e resposta sempre pronta arranjavas as mulheres mais giras. Tu, que na traseira da tua mota levavas loiras com os cabelos a sair do capacete e que te agarravam com medo de cair nas curvas que negociavas a alta velocidade.

Como doeu ver os teus olhos vencidos. Ver-te de volta à casa de onde fugiste e para onde regressaste sem qualquer ponta de orgulho. Para ficar pior que há doze anos atrás. Para conduzir uma "cinquenta", tu, que devias andar numa moto de alta cilindrada.

Como me falaste quando estupidamente perguntei "Então, como vai isso?" "Não muito bem..." deixaste no ar. Não muito bem... Vai péssimo. Perdeste os teus sonhos. Desfizeste os meus. Caíste. Dói-me ver-te assim. Não podes ser assim. Vou tentar esquecer esses olhos magoados e imaginar-te há doze anos atrás. Vencedor. Meu ídolo. E sonhar que venceste. Que quem regressou foi a imagem sonhada por todos os que maldisseram a tua partida.

Por favor, ... parte outra vez.

25.2.05

"Um Dia Acordei" (1)

(nota prévia: depois do "Um Imenso Caldeirão", a produção de contos continuou. Os que se seguiram foram reunidos em "Um Dia Acordei". Nos próximos dias, contem com a sua revelação, aos poucos, para ler devagar. Começa assim...)
"UM DIA ACORDEI"


Um dia acordei.
E a vida tinha sido apenas um sonho.


CORRENTE

A praia é pequena. Uma estreita faixa de areia no fundo de uma falésia. O mar, revolto, espuma junto às frequentes rochas, branco, verde, azul, entrecortado por manchas de luz de alguns raios que conseguem furar o céu cinzento.

Está sozinho, aquele rapaz. Nesta altura do ano ninguém para ali vai. Mas ele está lá, à beira de completar a segunda década da sua vida. Está sentado na areia, joelhos junto ao peito, abraçado às pernas. Contempla o mar, não!..., contempla um ponto no mar, onde a viu pela última vez.

É um rapaz normal, mediano, que passaria despercebido em qualquer lugar. Em criança fora gordo. Gozaram com o seu peso, as suas formas arredondadas, o seu jeito sensível e mimado. Mas depois cresceu, emagreceu e, se nunca criou músculos por aí além, o certo é que ficou com uma aparência agradavelmente normal, comum.

Há mais de duas horas que olha para ali... o mar é traiçoeiro. A maré vazante puxa tudo para o largo numa corrente forte e gelada. Olha o vazio, o vazio da sua alma que chora a perda há tanto anunciada. Quantas vezes sonhara com aquele desfecho? Quantas vezes acordou com o nome dela na boca e a sensação de que nada o poderia evitar? Cinco? Dez? Qualquer coisa do género.

Hoje, finalmente, os seus sonhos, pesadelos, tornaram-se realidade e ele é o portador de uma verdade que ninguém virá a conhecer. O seu último segredo está guardado.

O rapaz que olha aquele ponto fixo no mar, que olha o vazio da sua alma, não sabe quando sairá dali. O que testemunhou feriu-lhe o coração, abateu-lhe a vontade, destruiu qualquer objectivo... Só quando anoitecer, talvez, estará em condições de se erguer e, suave e absortamente, caminhar até casa.

Estava sozinho. Os pais foram uns dias para Espanha. Por isso, quando acordou ao som da campainha, esta soou fúnebre. Adivinhou que seria ela. Levantou-se, abriu-lhe a porta, e levou-a para o quarto. Estava a chorar e pediu-lhe que a abraçasse com força. Estava fria. Foi debaixo dos cobertores que a manteve junto a si. Sentia as lágrimas quentes a correrem e molharem-lhe o pijama. Nada disse. Agarrou-a. Só. Num grande amplexo.

Já era meio-dia quando ela o olhou nos olhos e disse:

"Vou fazê-lo. Hoje."

O nó na garganta do rapaz que olha o mar aumentou. Só podia ser isso.

"Juraste que me ajudarias."

"Mas... eu não quero, eu ..."

"Por favor..., eu ajudar-te-ia..."

Após um silêncio ele acedeu.

"Como?"

"Com poesia. Com força. Vou deixar que o mar nos leve."

"E eu?"

"Fica na praia. Assegura-te de que parti. Que nós partimos."

Já tinham falado daquilo. Por isso em silêncio desceram as escadas da falésia, abandonadas pelo Inverno. Em silêncio se sentaram na areia.

"Não queres repensar?..."

"Por favor..., não... não..."

"Desculpa."

Passados minutos, em que só as ondas a rugir fustigavam o silêncio dos dois, ela ajoelhou-se a seu lado, tomou-lhe a cabeça nas mãos e olhou-o.

"Amo-te. É pena que o homem mais perfeito que conheço seja o meu irmão." Beijou-o ao de leve nos lábios e partiu. Mar adentro.

O rapaz viu. Viu-a avançar. Passar a barreira de rochas, ser apanhada pela corrente e desaparecer. Desapareceu.

Os pais nunca saberiam. Nunca saberiam que a filha estava grávida. Que era seropositiva. Que o bebé sofreria da doença. Que o pai do bebé já morrera com uma overdose. Que o irmão era a única pessoa a saber da história. E a admirar a irmã que também amava.

Sentia nos lábios o aflorar de um sentimento impossível. Sentia que se não fosse a malfadada genealogia eles poderiam ter sido amantes. Mas que foram apenas os melhores amigos do mundo.

O rapaz olha para o mar, para o ponto do mar em que a sua irmã desapareceu. Não consegue chorar.

Ergue-se, avança para as ondas, caminha. Passa a barreira de rochas. Sente a corrente. Deixa-se levar.