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30.6.05

"Vidas" (19)


ELAS

Elas eram duas. Não posso dizer que fossem bonitas. Não!, até poderiam ser caracterizadas de “feias”. Mas os seus corpos, não sendo muito vistosos, eram jeitosos. A loira, diga-se, até tinha umas pernas bem torneadas e um rabo firme, redondo, equilibrado. Por isso, quando caminhavam juntas, ouviam piropos, assobios, e muitos homens torciam o pescoço para as ver.
Eu também olhava, mas não era pelos seus atributos físicos. Havia muitas coisas que me atraíam a atenção, a começar pelo mistério que emanavam. E as semelhanças no estar, e no equipamento. Quando olhava para o lado via sair da tenda delas um fogão igual, uma frigideira igual, as mesmas sopas instantâneas e ementas, os guias do “Expresso”.
No campismo estas coisas notam-se. Somos vizinhos à força, por vezes muito próximos, e habituamo-nos às caras que nos rodeiam.
Encontrava-me naquele parque havia cinco dias, junto com a minha mulher, num pequeno igloo à beira do Rio Sabor instalado. Elas já lá estavam quando plantei as estacas no solo macio. Mas só as via ao pequeno-almoço e ao jantar. Nem as via chegar à noite para dormir.
Uma morena de nariz generoso. Uma loira-arruivada com sardas. Duas mulheres às quais, apesar da proximidade, apenas ouvi umas breves palavras. Mas reparei nas rotinas, na organização, na cumplicidade.
Nunca pensei que a cumplicidade viesse...
Ultimamente não consigo dormir muito. Nem nas férias. Desde há um ano para cá que acordo cedo e a cama me incomoda. Especialmente se a cama é um saco sobre o chão, deste separado por um centímetro de espuma.
Mas custava-me incomodar a mulher, por isso, às vezes com esforço, deixava-me ficar na tenda. Em casa é diferente. Sai-se da cama sem acordar o outro. Naquela tenda pequena era muito mais complicado.
No entanto, naquele dia, sentia que as águas exigiam seguir o seu livre curso e a fria humidade dificultava a sua manutenção no meu interior. Eram sete menos dez da manhã quando corri os fechos do igloo e saí para o nevoeiro que emergia das águas paradas da curva de rio.
Já era dia claro, uma vez que o mês era Agosto. Uma calma sentia-se no silêncio que nem a natureza perturbava. Não havia vento, não havia barulhos de pássaros, ou rãs, ou qualquer outra coisa.
Luz, nevoeiro, silêncio, frio.
Calcei as sandálias húmidas que, se ficassem ali mais uns dias teriam dado origem a uma “sandaleira” para florescer todas as Primaveras, e encaminhei-me para as instalações sanitárias.
Eram longe, e sabia que cheiravam mal. Passei pelo meio de várias tendas, subindo os socalcos por entre roncos e suspiros de quem dormia protegido por paredes de nylon e cordas esticadas.
Cheguei, aliviei-me e saí.
O sol das sete da manhã violara a neblina que em bancos se refugiara na superfície das águas de verde manchadas. Atrás de mim, a estrada silenciosa. À frente, o verde das copas, do rio. Por todo o lado os postes.
Já repararam que, para o interior, os postes são em forma de cruz? Pelo menos ali eram todos. Electricidade ou telefone: a mesma configuração. Dez metros em altura cruzados por um barrote onde os fios se acoitam.
Acreditem ou não, em todos os postes que a minha vista alcançava estava um homem pendurado, crucificado.
Vinte e três mortos, disseram os jornais. Vinte e três homens nus, crucificados, amordaçados e com os órgãos genitais escondidos no meio das pernas que se fechavam não deixando que para a frente viesse o que à frente pertencia.
Fiquei abismado, boquiaberto e chamei por ajuda, por alguém que avisasse alguém que avisasse a polícia.
O que custou mais foi voltar para a tenda, para contar à minha mulher e, enquanto corria os fechos, olhar para o lado e ver, à porta da tenda delas, um martelo e uma caixa de pregos de grandes dimensões, junto com um rolo usado de fita adesiva igual à que amordaçava os pendurados.
A polícia veio. Elas já não estavam na tenda. Tudo ficou para trás, excepto os guias do “Expresso”.
Ainda não as apanharam, já lá vão quatro meses.
E há tanto Portugal para conhecer, segundo os guias...
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Aqui acabam os contos que ao longo dos meses tendo vindo a publicar.
Agora, ficção, só lá para as férias deixarei aqui uma surpresa.

24.6.05

"Vidas" (18)

NATAL

Perdeu algum tempo a ajeitar os enfeites na árvore de Natal. Após a confusão da véspera, alguns tinham sido deslocados, outros mergulhado até às lages de tijoleira, outros ainda pendurados em figuras de equilíbrio precário e audacioso. Depois, estendeu na mesa uma toalha com motivos natalícios, alisando os vincos que o ferro de engomar aprimorara.
Da cozinha trouxe a loiça que milimetricamente dispôs: um prato, três copos, um talher de peixe, outro de carne, outro ainda para as sobremesas. Passou às iguarias. Do forno libertou um naco de carne perfumada que inundou ainda mais a casa ávida de agitação. O aroma manter-se-ia por muito tempo. Da grelha no fogão saiu uma divinal posta de bacalhau assado que se reuniu a umas deliciosas batatas na travessa reservada para o efeito. Com eficácia regou-os com o azeite quente e alho.
Levou tudo para a mesa. E regressou à cozinha de onde levou ainda uma mousse de chocolate, um bolo-rei, uma terrina de sonhos, outra de fatias douradas. Não faltaram as broas, nem as filhós. Não faltou igualmente o vinho, e o espumante que manteve no balde de gelo que lhe oferecera a mãe, quinze anos antes, durante os preparativos para o casamento que nunca se realizou.
Atiçou o lume na lareira que aquecia a sala. Contemplou o silêncio do negro exterior, numa altura em que quase toda a gente dava início à Consoada. Mudou o CD que rodava na aparelhagem, elegendo Louis Armstrong para a acompanhar na refeição. Sentou-se.
Enquanto olhava a comida à sua frente, a solidão atropelou-a, e um soluço encontrou na garganta o nó que a impedia de engolir. Encheu o copo e levou-o aos lábios. Decerto repetiria o gesto muitas vezes, durante aquela noite.
Por cima da poderosa voz que a alta fidelidade reproduzia, ouviu gritos. Gritos de dor, de raiva, de ódio, de incompreensão... Mais uma vez os seus vizinhos bulhavam, tornando a noite de Natal igual a tantas outras.
Por momentos, preferiu ser a sua vizinha, estar a ser espancada, só para ter a certeza que alguém sabia que existia, e que não era um mero avatar.

Chegou a casa já alegre. O lanche de Natal na Companhia tinha sido melhor que o habitual, e depois ainda fora celebrar com os colegas mais íntimos, aqueles com quem, na marisqueira, discutia o futebol e as gajas. Mas a desgraçada da mulher só lhe infernizava o juízo.
- Bonito estado, o teu. - foram as primeiras palavras que ouviu assim que pôs pé em casa.
- ‘Qu’é, que queres? Um homem já não pode ir celebrar o Natal com os amigos?
- Vai tomar um banho e vestir-te em condições. Os teus pais devem estar a chegar e os meus saíram agora de casa.
Resmungou qualquer coisa e encaminhou-se para o quarto. A mulher recolheu ao “seu lugar natural” como costumava dizer, a fim de verificar o andamento da ceia. Ele inverteu a marcha e rumou à sala. Abandonou-se no sofá, começando a passar pelos canais todos da TV Cabo. Quarenta e tal canais, incluindo os pagos e quase todos a dar imagens de Natal. Já não podia ver neve, estrelas, bolas, vermelho, verde... por falar em vermelho e verde, estava a dar uma retrospectiva da carreira dos clubes portugueses nas competições Europeias. Ficou a ver.
- Então não foste tomar banho?
- Deixa-me!, chata.
- Chata?!, eu? Oh meu grande lanzão!, tu não comeces a armar-te em parvo!
O tom de voz passou de imediato aos gritos com que acostumaram a vizinhança.
- Vai p’rá cozinha, galinha.
- Levanta-te imediatamente e não faças fitas hoje.
- Deixa-me, estou a ver a bola.
Ela agarrou-lhe um braço e tentou erguê-lo. Com a outra mão ele esbofeteou-a. Um grito agudo e a mulher caiu no chão.
Enquanto ele a erguia para lhe bater mais, ela pensou na vizinha que nunca se casara e que decerto viveria feliz por não ter quem a maltratasse assim.

14.6.05

"Vidas" (17)

DESEJOS

Por detrás dos óculos escuros, sem mexer a cabeça, mirou de esguelha a mulher que se sentara à sua frente. Com cuidado, prazer e lentidão, absorveu o olhar esverdeado, o cabelo negro, a tez escura. Reteve aquele movimento da língua a humedecer os lábios, atiçando-lhes o fogo.
Julgando não ser notado, passeou pelo relevo exposto do seio redondo, circulou pelo umbigo e demorou-se nas coxas de ébano que a mini-mini-saia era incapaz de conter.
Ergueu os olhos enquanto, num gesto largo, rodou a cabeça cruzando o seu olhar com o dela. Aí se fixou. Durante segundos que demoraram horas, olhou no fundo daqueles discos de esmeralda e tentou sondar a mente de tão bela mulher.
Em vão.
*
Havia dois dias que a sua colega lhe falava muito afectuosamente. As palavras vinham sempre acompanhadas de gestos, de carícias, afagos. O olhar era quente. As palavras dúbias. “Ah!, como saber o que ela quer? Como seria bom tê-la. Mas como posso arriscar? Se ela me negar nem este calorzinho aproveito.”
*
No regresso a casa, aquela loira que quase todos os dias viaja na mesma carruagem. Já se olharam tantas vezes. Ele sabe, quase de certeza, que ela tem presente a sua existência. A forma como se olham deveria ser proibida. Porém, a angústia de não saber o que ela pensava deprimia-o e aconselhava-o ao silêncio.
*
À noite, ao deitar-se, revendo as mulheres que consigo se cruzavam, desejou: “Oh!, como gostava de ouvir aquilo que os outros pensam”.
*
Rotina. O despertador liga o rádio. Ouve as primeiras notícias do dia. Levanta-se, arranja-se, come. À janela da cozinha vê passar, lá fora, a caminho da escola, duas raparigas, quase mulheres: as saias curtas, as camisolas apertadas, os seios vibrantes... Sorriu por ter um início de dia tão prometedor.
No elevador viu a vizinha. Uma tipa magríssima, só ossos, cor pálida, pêlos por todo o lado. Enquanto desciam bufou e evitou olhá-la.
“Paneleiro! Se quisesses deixava que me comesses toda.”
A porta abriu-se e, enquanto saía, perguntava se seria verdade aquilo que ouvira. Como poderia a sua vizinha dizer aquilo? Até se sentia envergonhado.
Na rua, as pessoas estavam mais barulhentas que de costume. Um rumor cavo, oco, ouvia-se por todo o lado. Viu duas mulheres giras e mirou-as. Quando por si passaram ouviu distintamente: “Olha para este palhaço! A babar-se assim ainda escorrega.”
Só na estação se apercebeu. Ouvia os pensamentos de quem o rodeava. Com uma alegria ímpar sentou-se no comboio e mirou aquelas caras sombrias de quem vai para o matadouro. Mirou e ouviu:
“Hoje vou sair mais cedo... O chefe que se lixe.”
Outro:
“Se apanho o sacana que me riscou o carro...”
Aquela:
“Estou farta daquele gajo... hoje vou por tudo em pratos limpos...”
“...uma vez que não há marcadores seguros, deverão ser determinadas diferentes normas de acordo com os protocolos...”
“... alface, tomates..., e batatas, é isso, batatas para cozer.”
“...santificado seja o Vosso nome...”
“... Já me estreei, já me estreei, já não sou virgem... Eh, eh, eh!, tenho que contar isto a alguém”
“Espero que o picas não apareça antes de Oeiras, senão estou feito.”
“Cento e sessenta contos, menos trinta dá cento e trinta. Ora a prestação é de...”
*
Quanto menos queria, mais pensamentos ouvia. Já não necessitava de fixar-se nas pessoas para escutar. Os pensamentos delas é que se fixavam no seu consciente. O silêncio passou a ser uma miragem. A vida passou a ser vivida como se estivesse constantemente dentro de um estádio de futebol. Gritos, berros, gargalhadas, choro, dor.
* * *
Após dois dias de buscas, um barco de pesca da Trafaria recolheu o corpo que a Marinha procurava. Enquanto caía, vindo do tabuleiro da Ponte 25 de Abril, ouviu trabalhadores a pensar na vida, agora que as obras estavam a acabar.

18.5.05

"Vidas" (16)

CAVALO

Estacionado ao volante da carrinha enquanto os trabalhadores do armazém a carregavam, viu aproximar-se aquela mulher.
Vestia de ganga, com um blusão cheio de franjinhas. Tinha umas botas de cano alto, à “cow-boy”. Cabelos longos. Mascava pastilha.
Cumpriu o seu dever:
“Filha, onde é que deixaste o cavalo?”
“Na cama com a tua mulher.”
A resposta pronta deixou-o calado.

A vinte quilómetros dali, em sua casa, na cama, a mulher do motorista chutava heroína pela primeira vez.
Riu com o entorpecimento.

11.5.05

"Vidas" (15)

CAPRICHOSAMENTE

Vestia um fato-macaco castanho com riscas laranja de lado, aberto sobre o peito peludo que exibia com gosto. Tinha um capacete das obras preso ao cinturão de cabedal, de onde pendiam algumas ferramentas. A sua voz, ruidosa, era cava e trabalhada por anos de exibicionismo.

Ela era pequena - talvez metade da massa daquele macaco peludo. Toda torneada, bem esculpida, vestia uma mini-mini-saia e uma camisola apertada e decotada. Tinha a tiracolo uma pequena bolsa. Enquanto andava, os longos cabelos cor de mel agitavam-se provocantes.

Ele nem resistiu. Por um impulso mais que pavloviano, provavelmente genético, foi igual a si mesmo:

“Oh boa, posso conhecer-te?”

Ela estacou. Lentamente, com um sorriso matreiro, virou-se e ripostou:

“Não, mas se quiseres apresento-te a minha irmã.”

Vindo da bolsa para a mão esquerda, apontava agora um revólver negro aos genitais do trabalhador. Este hesitou. Sorriu tentando saber se aquilo era uma brincadeira. Porém, os olhos frios e a cara dura daquela gaja ensinaram-lhe que escolhera a pessoa errada para mandar uma boca. Pressentiu que aquela louca ia disparar. No momento em que o fogo estoirou já se estava a virar.

A bala bateu no capacete e fez ricochete. Caprichosamente encontrou como destino a canalização de gás que o trabalhador pretendia consertar.

O inquérito concluiu que, devido a falha humana uma explosão matara quarenta e sete pessoas nos Restauradores. A brigada da companhia do gás não cortara o abastecimento antes de iniciar os trabalhos.

4.5.05

"Vidas" (14)

BOLEIAS


Havia já quinze minutos que buscava pela rua perdida onde habitava o distante primo. Porém, o intricado novelo de sentidos obrigatórios e proibidos conduzia-o invariavelmente ao ponto de partida.

O carro ameaçava estoirar de sobreaquecimento. Os ouvidos estalavam com os impropérios que os outros automobilistas já lhe tinham lançado. Procurou alguém a quem perguntar pelo seu destino. Contudo, nem uma pessoa circulava a pé por aquelas estreitas ruas.

Quando, por fim, viu um miúdo, arriscou:

- Olha, desculpa, Sabes onde fica a rua Alfredo Keil?

O miúdo, sete anos no máximo, franzino, com uma mochila na mão, parou. Lentamente olhou o condutor e, através de um sorriso inocente, respondeu:

- Sei. Vou para lá agora. É onde moro.

- Então, explicas-me o caminho?

- Bom, segue em frente até à... terceira à direita, depois vira na segunda à esquerda, contorna a rotunda e segue junto ao quartel dos bombeiros, depois vira novamente à direita e é a ... segunda à esquerda.

- ...
- Sim?
- Não percebi tudo. Queres boleia? Eu levo-te e tu indicas-me o caminho.
- O.K. - o miúdo abriu a porta, sentou-se e apertou o cinto. - Em frente! - disse.
O condutor arrancou.
- Agora à direita...
- Ouve lá, - disse o condutor perdido - nunca te ensinaram a não aceitar boleias de desconhecidos?
Como resposta, o miúdo sorriu largo enquanto sacava de uma Magnum .44 de dentro da mochila dizendo:
- E a ti, nunca te ensinaram a não dar boleias a desconhecidos?

22.4.05

"Vidas" (13)


MENSAGEM

PTUII... cuspiu a areia que o vento empurrara para a boca. Ainda assim, quando fechou os maxilares sentiu o desagradável moer de alguns grãos nos seus dentes.

Desgraçado vento. A areia projectada a alta velocidade colidia com a pele, perfurando-a, desgastando-a, roendo o invólucro do seu ser. Com uma das mãos cobria os genitais. Com a outra protegia os olhos e segurava o telemóvel. Lentamente, tentava progredir.

Como lhe acontecera aquilo? Como pudera adormecer tão profundamente? Fora já tarde para o extenso areal daquela praia de nudistas. Calmamente, despiu-se na íntegra e deitou-se ao sol na toalha que trouxera de Hollywood.

Depois... depois acordou, noite cerrada, o vento a fustigar-lhe o corpo enregelado. Olhou em volta e todas as suas coisas tinham desaparecido. Todas as pessoas tinham debandado. Estava só. Ele, a toalha, e o telemóvel que, com medo dos furtos, protegera deitando-se sobre ele.

Habituou os olhos à escuridão e à surpresa. Sentiu o vento e decidiu chamar por socorro. Mas a bateria do aparelho tinha expirado. Silêncio e mais nada eram as ofertas daquele apêndice social que lhe custara uma pequena fortuna. Optou por se fazer ao caminho.

Ergueu-se e, no momento em que se debruçou para apanhar a toalha, viu-a voar para longe, arrastada pelo vento ciclónico. Não fosse o rugir do mar e o cenário facilmente se confundiria com uma desértica tempestade de areia.

A escuridão reinava. A praia ficava longe de tudo como gostam os naturistas. O luar, como seria de supor numa noite de lua nova, primava pela ausência.

Iniciou a caminhada, semi-curvado, tentando regressar. Sabia que o destino se escondia por detrás de uma alta duna, na direcção oposta à do oceano. Subiu. Subiu. Subiu.

Já no topo da duna, quando suspirava de alívio, uma forte rajada derrubou-o. Rebolou duna abaixo. À terceira cambalhota partiu o pescoço.

*

A areia perfurou a pele, roeu-a, comeu a carne e limpou os ossos. No dia seguinte muitos foram os nudistas a contemplar a bizarra escultura que, de noite, algum artista deixara na praia: um esqueleto a segurar um telemóvel.

Decerto haveria uma mensagem.

19.4.05

"Vidas" (12)


GOZO

Com uma lentidão estudada levantou a tampa do estojo. O exterior de alumínio preto revelou um interior de espuma igualmente escura. Quase reverencialmente acariciou o aço frio. Com um toque sentiu a madeira bem tratada.

Respirou fundo. Olhou em volta.

Num impulso, rápido como uma máquina, montou as quatro peças distintas: cano, culatra, coronha, mira telescópica. Num ápice dera à luz uma arma de precisão. Mortífera.

Agora, o requinte. Primeiro o enorme silenciador. Depois os cartuchos. Um a um. Cinco certidões de óbito.

Era incapaz de recordar quantas vezes fizera aquilo. Quanto dinheiro recebera para fazer aquilo. Agora já não. Desde a Bósnia que não matava ninguém. Nunca gostara do mato, pelo que hoje... Os seus tempos de sniper tinham ficado para trás. Mas não a experiência, a técnica, a qualidade dos actos.

Assim, se hoje se encontrava naquele terraço era apenas por gozo. Já ninguém largava dinheiro para que trabalhasse. Passara a ser mais um na multidão. Aliás, já não havia dinheiro que pagasse aquilo que lhe faltava.

Por isso, por prazer, erguia-se agora sobre o murete, assentando o pequeno bipé fixo ao cano. Procurou uma vítima. Ah!, que momento! Quão próximo de Deus se sentia. Escolhia quem iria morrer. Tinha o dom de terminar com uma vida, e aquela arma era o seu longo braço.

Uma velha. Não... pouco impacto.

Uma criança... nã... não via nenhuma a jeito.

Aquele bem vestido. Sim, aquele... Tem um ar feliz e bem sucedido. Nem trinta anos deve ter. E aquela gravata vermelha... mesmo a pedi-las. A cruz telescópica assentou sobre o peito do bem vestido. Esperou que ele passasse na passadeira. Compensou o vento.

Espremeu o gatilho. Um pequeno som abafado, um silvo, um clack bem oleado e um tlim de uma cápsula a encontrar o chão, rebolando.

Três segundos durou a morte a atingir aquele rapaz. Três segundos, uma pancada cava, um tipo que cai projectado para trás enchendo de sangue uma camisa branca. Tudo numa rua quase a mil metros dali.

Sentiu no estômago a tremura habitual. Um gosto especial. Tinha que ser rápido a escolher outro alvo, antes de sair dali, não fosse alguém olhar para cima.

Uma grávida. AH!, essa sim, não falharia nas notícias. A mulher tremeu, gritou de dor, e caiu para trás. Bolas!, falhara o ventre e agora já nada podia fazer.

Mais um. Só mais um. Dois, naquela janela. Enrolados. Nus. Sim, percebia-se através dos cortinados. Largou as restantes munições e imaginou-os mortos sobre uma cama de vermelho empapada.

Recolheu as cápsulas deflagradas, guardou-as no bolso e desmontou o longo braço. Sabia que era bom. E que não perdera o jeito. Daqui a uns meses repetiria a brincadeira. Pelo gozo! Noutra cidade que não Lisboa.

15.4.05

"Vidas" (11)


COMBOIOS

Lentamente, a mão escorregava ao longo do peito. Entalado entre dois dedos, o cigarro ardia, soltando para o ar o veneno não aspirado. A mão, cheia de marcas de antigas crostas, suja, descaía ao milímetro, numa câmara lenta exagerada. O fumo abandonava-se numa espiral descuidada.

O torpor daqueles dois era doloroso. Sentados num banco na estação de comboios, encaixados um no outro, ambos viam a realidade através de um filtro opiáceo. Ela, de olhos fechados, murmurava palavras desconexas, quase sem mexer os lábios gretados, desérticos. Uma das suas mãos apoiava-se no tronco de verde escuro vestido do companheiro. Também nela um cigarro ardia, já esquecido da última vez que fora fumado.

Mas era a mão dele que escorregava. Num derradeiro acto de vontade subira aos lábios igualmente doentes para que algum fumo fosse aspirado. Mas ali ficara, a cinza a aumentar, o cigarro a diminuir. E enquanto a heroína ganhava terreno à consciência, a mão ia descaindo, vagarosamente.

Aos poucos a ponta incandescente aproximou-se da mão dela. Mas nenhum dos dois nisso reparou. Nenhum deles estava já capaz de reparar em qualquer coisa para além do sonho intravenoso.

A mão desceu. Desceu. Desceu. Até que por fim a ponta do cigarro se encostou às costas da mão que no tronco dele repousava. O calor do braseiro de imediato transformou a pele, a carne, queimando-a num acto de destruição. As células morreram e os centros nervosos foram incapazes de um aviso sequer. Nem uma reacção. Nem um reflexo. Apenas combustão.

Sentado no mesmo banco, senti o cheiro a carne queimada sobrepondo-se ao nocivo fumo tabágico. Doeu-me aquela queimadura. Aquela insensibilidade. Indiferença. Como pode alguém cair na merda quando a merda está à vista de todos?

Enquanto a carne ardia lentamente, o comboio chegou. Ergui-me. Entrei. Parti. Eles perderam o último comboio.

Havia já muito tempo que tinham perdido o último comboio.

12.4.05

"Vidas" (10)


GRITOS

"Europa". "Pedro Nunes". "República Portuguesa". "1990". "Escudos". "100". Tanta mensagem numa moeda só. Moeda que rodopia, rodopia, rodopia.

A moeda roda na mesa até perder o balanço. O som muda até que, por fim, a moeda pára.
Oiço um grito. Mais um grito para a morte.

"Cala-te!, não posso mais ouvir a tua voz, matraca enfezada. Como pode um ser tão pequeno fazer tanto barulho?"

Faço rodar novamente os cem escudos bicolores. Mais uma vez o impulso se perde. O irritante som do metal no tampo da secretária sobrepõe-se ao mundo. Aplico uma concentração autista na elipses desenhadas pela rotação, procurando ignorar o mundo exterior. E a moeda pára.

Oiço um grito. Mais um grito para a morte.

Oh!, como pode alguém sobreviver à partilha de um dia se o silêncio é uma ausência? Como posso caçar se a vizinha afugenta a presa? Como posso concentrar-me se quem partilha o meu espaço continua a massacrar os meus tímpanos com uma aguda diarreia?

Faço rodar a moeda e olho as elipses a desvanecerem-se. A moeda pára.

Oiço novamente a voz.

Com calma, abro a gaveta da secretária de onde extraio um revólver guardado como prova. Aponto cuidadosamente. Disparo.

Oiço um grito. O grito da morte.

As ideias escoam pelo buraco na minha têmpora.

"Olha, Deus existe... e não é uma Tartaruga".

7.4.05

Vidas (9)


COMPORTAMENTOS

Havia anos que o seu comportamento se repetia. Dia após dia, mais certo que um relógio suíço. No emprego era conhecido como o autómato. A sua pose rígida, o olhar vazio, a pontualidade doentia. Colegas de anos nunca o ouviram pronunciar uma palavra. Nem "bom-dia". Ninguém sabia como era, o que pensava.

Chegava às 8.30, às 16.30 erguia-se e saía. A secretária sempre arrumada. Nem um papel desviado. Nem um clip ou um elástico perdido.

Em casa a organização era implacável. Uma fotografia de hoje comparada com outra de há dez anos atrás não teria diferenças. Tudo no mesmo sítio. Tudo limpo.

No dia 11 de Novembro cumpriu a sua rotina diária sem um único desvio. Às cinco da tarde entrou em casa. Como se deslocava a pé para o emprego, nunca corria o risco de se atrasar. O percurso era feito a um ritmo, a um passo certo. Demorava sempre o mesmo tempo.

Entrou. Despiu o casaco que, com rigor, depositou no guarda-fatos. Sentou-se no sofá da sala, frente a um tabuleiro de xadrez, e jogou uma partida contra si mesmo. Quando terminou, repôs as peças nas casas iniciais e sorriu.

Sorriu.

Toda a casa pareceu iluminar-se com um gesto que era desconhecido. Desde que lá morava que aquelas paredes não viam as extremidades de um par de lábios esticarem-se e tentarem chegar às orelhas.

Levantou-se. Foi à casa-de-banho. Olhou-se ao espelho.

*

Nunca se apurou porque saltou da janela da sala, vinte e três andares acima do solo.

5.4.05

"Vidas" (8)


LONGE DE MAIS

Tinha ido longe de mais. Quase de certeza que tinha ido longe de mais. Desta vez ultrapassara os limites.

Havia muito que Natalino tinha esta fixação por pernas e collants. Todo ele tremia quando uma mulher de saia curta cruzava as pernas envolvidas em meias de lycra, de nylon¸ do que quer que seja que os collants são feitos. A textura lisa, a doce carícia de uma fibra...

Gostava tanto daquilo que em casa, acompanhado pela sua solidão, vestia collants e com eles passeava em cima dos sapatos amarelos de salto alto que um dia subtraíra numa sapataria cheia de gente.

Aqui há tempos já tinha feito uma de artista da qual se safara por pouco. De uma loja, através da montra partida à pedrada, retirou cinco pernas de manequim, todas com meias e uma, imagine-se, com liga. Porém, o barulho e o alarme obrigaram-no a fugir através do escuro das ruas apertadas, com as pernas debaixo do braço.

Ahhhh... mas em casa, Oh!, deleite! Deitado na cama com aqueles cinco pés, pernas, a tocarem-lhe enquanto nu as afagava. O frio do plástico aquecido pela imaginação doente levaram-no ao êxtase, à dolorosa exaustão de uma fantasia.

Por isso, agora fora longe de mais.

Quando as pernas sintéticas perderam o brio de outrora, começou a sentir uma atracção cada vez mais forte pelas suas irmãs de carne e osso. Andava o mais possível de transportes públicos, onde sempre se sentava estrategicamente, de modo a ver um pedacinho mais ousado de carne. Na rua, torcia o pescoço enquanto mulheres por si passavam. Em casa babava-se frente à televisão, ansiando por imagens que fossem mais além.

No quarto, as pernas de plástico jaziam a um canto sobre as revistas de moda e os catálogos de lingerie. Não queria pornografia!, queria pernas, um pouquinho para além da imaginação.

Por isso agora achava que tinha ido longe de mais.

"Mas agora é tarde de mais para recuar", pensou, enquanto corria novamente na escuridão das ruas estreitas. Debaixo do braço mais um par de pernas, cujas meias destruíra, rasgando-as com o serrote que igualmente carregava. Tudo gotejava sangue.

A sua vítima ficara para trás, tombada ao abandono junto aos contentores do lixo, exangue, mutilada.

1.4.05

"Vidas" (7)


PONTOS

Na sala de interrogatórios o ambiente estava pesado. A luz disparada pelo poderoso foco aquecia o ar e denunciava os fumos que se erguiam dos vários cigarros acesos. No chão irregular, alguma água, restos de baldes lançados à cara de quem já desfalecera. Um inspector, um chefe de brigada e dois agentes, perfilavam-se na penumbra atrás do foco.

Exposto às agruras dos 500 watts, algemado a uma cadeira, suado, encharcado, vermelhão, ensanguentado, encontrava-se o interrogado. Havia já cinco horas que o espremiam. Nada saía cá para fora. Cinco horas a espremer um ponto negro e nada. Nada!

O inspector, cansado, deixara as perguntas ao chefe de brigada o qual exigia dos agentes aquilo que de melhor tinham: os músculos. Músculos. Força. Era preciso muita força para espremer um ponto negro daquele tamanho.

Por fim, exausta, a vítima daqueles quatro acabou por ceder. Então deitou tudo cá para fora. Quilos e quilos de sebo e pus. No fim, o sangue. Os agentes, por estarem mais perto, sentiram-se enjoados, engasgaram-se. Um nó na garganta. Acabaram por vomitar.

O inspector ordenou: "Comportem-se, meninas! Limpem esta merda e tragam o ponto final. Temos de o espremer ainda hoje."

31.3.05

"Vidas" (6)


SEM IRS

A rotina de mais um dia a pesquisar no lixo iniciou-se com a calma religiosidade de um rito. Abriu o pequeno portão de ferro carcomido pelo tempo e transpôs em três passos bem medidos o pátio ao sol exposto. Junto à porta introduziu nesta a chave que rodou três vezes.

CLACK! CLACK! Click! Penetrou na penumbra que iluminou rapidamente, e trepou o lanço de escadas que o separava do primeiro andar. Uma vez no gabinete, sentou-se à secretária contemplando as pessoas que na rua formigavam.

Tanta gente normal, com empregos normais, com vidas normais e ele ali, pronto para mais um dia de "trabalho" se assim o entendesse o patrão. Havia já cinco dias que não era chamado. Cinco dias a ler jornais, ouvir música e sim, admitia, a jogar cartas no computador, que longe vai o tempo de baralhar os rectângulos plastificados para a seguir os estender sobre a mesa.

Porém, hoje não lhe apetecia fazer nada disso. Quase como punição, não comprara os quilos de linhas recém-impressas que diariamente lia ao arrepio e depois lançava no lixo. A pantalha virtual mantinha-se sem energia, os jogos perdidos numa memória inoperante. O silêncio do gabinete permitia ouvir a gente normal que lá fora vivia.

Olhou a secretária. Desejou que nela estivesse um documento, um processo, um desenho, uma factura... Naquele escritório o papel não era trabalho. Aliás, naquele escritório não se trabalhava. Esperava-se.

Concentrou-se nas sombras que se deslocavam, lentamente, ao ritmo da rotação terrestre, pelas paredes amareladas. Muito tempo depois levantou-se e pontapeou o caixote do lixo.

Depois, nele pegou indo colocá-lo, na extremidade da sala, em cima do armário onde pessoas viam livros mas que mais não era que um bar camuflado. Despiu o casaco, desapertou o colarinho, afrouxou a gravata sóbria e tirou um bloco de papel de uma das inúmeras gavetas fechadas. Da outra ponta da sala foi fazendo bolas de papel que lançou para o cesto. Imitou Magic, Kareem, Jordan, Shaquille...

Foi então que o telefone vibrou. Cortou-lhe o lançamento, "que belo contra ao gancho de Larry Bird". Atendeu.

- Sim?

- Vem. Há cá dois.

- O. K.

Apertou o colarinho. Ajustou a gravata. Vestiu o casaco. Saiu até ao armazém onde mais lixo lhe viria parar às mãos. Mais dois imbecis que deviam ser devidamente apertados até cantarem o que quer que fosse preciso.

Por saber esperar, por saber torturar, por saber estar calado e por não ter consciência, ganhava mil contos certos todos os meses. Sem IRS.

30.3.05

"Vidas" (5)


CASTIGO

Lá fora chovia. O dia, negro como a minha alma, arrastava os trovões que de longe ecoavam. Lentamente, respondi à chamada e caminhei para o cadafalso envolto num manto de dor que me oprimia a existência terminal.

Vi a corda a balançar lá fora, através de uma janela gradeada. Crime e Castigo.

O corredor era largo. Velhos candeeiros em forma de prato da sopa iluminavam a espaços os meus passos inseguros. O silêncio era apenas violado pelo patear de um condenado e de dois guardas maiores do que ele, bem como pela água da chuva a cair e a correr pelas telhas negras do edifício urbanóide. De tempos a tempos, um trovão.

Recordei o meu último desejo: o Requiem de Mozart.

Agora não havia mais palavras. Cada um sabia o que fazer, gestos treinados por milhares de execuções pretéritas. Todos nós sabíamos exactamente o que ia acontecer. Subi para o cadafalso, a corda foi ajustada ao pescoço, o nó junto à orelha esquerda. Recusei a venda.

Sem delongas, o carrasco puxou a alavanca. Num momento, o alçapão abriu um vazio sob os meus pés. Senti a injecção e simultaneamente ouvi o tiro. A descarga eléctrica penetrou o corpo incendiando a fogueira inquisitória. O gás de cianeto subiu às narinas enquanto a lâmina desceu célere sobre o meu pescoço. O apedrejamento continuou enquanto asfixiava pregado à cruz. Submerso, esquartejado, gritei.

O Requiem terminou.

Lá fora chovia. O dia, negro como a minha alma, arrastava os trovões que de longe ecoavam. Lentamente, respondi à chamada e caminhei para o cadafalso envolto num manto de dor que me oprimia a existência terminal.

Vi a corda a balançar lá fora, através de uma janela gradeada. Crime e Castigo.

18.3.05

"Vidas" (4)


BOLA

O estádio encontrava-se cheio que nem um ovo. Não havia memória de tanta gente alguma vez ter assistido a uma partida assim. Provavelmente o clube anfitrião viria a ser sancionado posto que, era uma certeza, entrara mais gente do que a permitida para estes jogos internacionais.

Sob o olhar daqueles milhares de pessoas os artistas empregavam o seu suor, uns mais serenamente que outros, tentando fazer aquilo para que eram pagos. O futebol que se jogava dava espectáculo, e nem um ou outro lance mais polémico chegava para manchar a festa.

Quase no fim da partida, sentindo uma inspiração pouco natural, o jogador de futebol recolheu a bola à saída da grande área, logo após um pontapé de canto mal marcado pelos adversários, e iniciou o contra-ataque. Disparou que nem uma flecha sentindo-se empurrado pelo coro eufórico da multidão. Junto ao relvado distinguiu a voz rouca do Mister, já cansado de tanto gritar, incitando-o para a baliza contrária.

Com um magnífico golpe de rins ultrapassou o primeiro que se lhe atravessou no caminho. Com um salto espantoso evitou o "carrinho" que o quis derrubar. E continuou a perseguir o esférico. Levantando a cabeça viu aproximar-se com um ar determinadíssimo o defesa central mais conceituado de sempre. Tinha fogo no olhos. Os longos cabelos que saltavam enquanto corria tornavam-no ainda mais ameaçador.

Apesar de seguir muito depressa, ainda conseguiu mais uma mudança de velocidade e, lançando a bola pela esquerda, correu pela direita do adversário e chegou lá primeiro. Nesta altura só enorme o guarda-redes se encontrava entre ele e o golo. Por entre a respiração pesada que o esforço lhe impunha, ouviu os gritos de glória daquela multidão. Sentiu o rumor que, jurava, fizera tremer até o relvado. Apesar das queixas dos músculos foi clarividente, e num passe de magia deixou o gigante enluvado estendido no verde tapete, prosseguindo, imparável, a corrida para as redes.

A cinco metros da baliza, vindo ligeiramente da direita, chutou violentamente, com a alegria de quem seria eleito o homem do jogo. Já se via nos jornais. Imaginava as vezes que as imagens daquele sprint iriam passar na televisão.

A bola partiu, célere, e atingiu com um estrondo a base do poste, sendo rechaçada exactamente para o sítio de onde partira, embatendo nos pés do jogador que a chutara. Lançado que vinha na corrida, o jogador tropeçou, caiu para a frente e bateu com a cabeça no poste. Sangue encontrou o caminho do ar, vindo assistir ao resto da partida.

O jogador de futebol morreu quase de imediato, com um forte traumatismo craniano.

A sua equipa perdeu 1 - 0.

O empate bastava para passar a eliminatória.

Os fans nunca lhe perdoaram.

17.3.05

"Vidas" (3)


ESTUQUE

Sentiu um tremor no íntimo das suas entranhas, um sinal que percorreu todo o corpo, ascendeu ao cérebro e fez vibrar os olhos. Estes humedeceram-se, ganharam brilho. Contraiu os seus cantos, onde rugas nasceram e se aprofundaram.

O tremor repetiu-se, mais intenso, forçando o eco na caixa torácica. Conhecia bem demais os sinais. Contraiu-se. A língua contra o palato.

A visão fugiu-lhe, a sala desfocou-se, o mundo ficou turvo, enquanto os músculos abdominais tinham um espasmo. O diafragma oscilou e empurrou o ar para o esófago. A massa aeriforme subiu. Fez vibrar as cordas vocais e toda a garganta, toda a boca entretanto escancarada, todo o corpo, participaram na produção, realização e apresentação de um monumental arroto. O som, prolongado, ressoou na sala vazia, ampliado.

Grotesco!

As finas paredes internas do imóvel estremeceram e transmitiram à estrutura do prédio o som da agressão social.

No andar de cima, Felisberto, calmo funcionário público das Finanças, caçador aos fins-de-semana, pegou na caçadeira, carregou-a e bateu à porta do vizinho.

Quando este, a arrotar, a abriu, disparou sem hesitar, desfazendo o peito da besta.

*
Em Tribunal foi absolvido.

Ninguém recorreu.

Dias depois, o presidente do Colectivo de Juizes, que morava do outro lado da rua, assobiava enquanto tapava de vez, finalmente!, as rachas no estuque.

16.3.05

"Vidas" (2)


NAVEGAR

Cada vez que entrava num barco, que navegava, sentia o mesmo tremor nas entranhas. Não!, não era enjoo. Era como se quinhentos mil marinheiros que o mar já tragou voltassem ao mundo pulsando no seu sangue.

A vibração dos motores na planta dos pés, o silêncio do vento na vela enfunada, o chapinhar do remo na água parada. Como todos estes sons catalisam o regresso de um passado ao mar devoto, e recordam uma nação feita à medida de um oceano, de dois oceanos, mares, rios, toda a água do planeta.

Se o Espaço fosse água, seria ele e os seus quinhentos mil marinheiros mortos quem o explorariam. Não o sendo, por cá fica, pelos cacilheiros, pelos fora-de-bordo. Pode sonhar com um veleiro. Pode sonhar com o que quiser.

Poder..., pode!

Quinhentos mil e um marinheiros...

15.3.05

"Vidas" - (1)

A compilação que se segue tem o título "Vidas". Vão suceder-se vidas, surreais. Não se espantem, pois, pela falta de verosimilhança. No inexistente mundo da ficção podemos ir onde a realidade não nos deixa.Acho que foi por aí que andei.
Por vezes fazem-se segundas leituras, à procura de mensagens subliminares. Não o aconselho. Porque posso dizer que apenas escrevi imagens, que por alguma razão me despertaram a mente.



Vivia debaixo da terra. Não era uma toupeira mas, no fundo, podia sê-lo. Debaixo da terra é escuro, mais escuro que a noite. Mais escuro que o negro. Mais escuro que a cegueira.

No entanto, não era cego. Sabia-o. Sabia que tinha olhos. E que estas preciosas obras da engenharia óptica funcionavam. Apesar de tudo.

Os olhos operam com a luz que absorvem, cativam, analisam, filtram... e só assim, segundo consta. Porém, debaixo da terra não havia luz. Nenhuma. Nem um reflexo, nem um cintilar, nem um pirilampo. E ainda assim os seus olhos funcionavam. Sentiam o relevo da terra húmida. Terra húmida que exalava um odor sem o qual decerto seria incapaz de viver. Terra húmida, minhocas, vermes raízes...

Também ouvia as raízes a crescer, a sorver os nutrientes que escorriam pelos túneis. Raízes que chegavam a vedar túneis.

Não sabia como fora ali parar. Não se lembrava de qualquer outra experiência anterior a este estar debaixo da terra. Não sabia quem, ou como, fizera os túneis. Não sabia como passava o tempo do qual apenas tinha a noção que o estômago lhe dava. Sabia apenas que vivia só, debaixo da terra... E que lá em cima havia gente.

Gente.

Que bom era estar ali em baixo, onde gente não há.