Mostrar mensagens com a etiqueta contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta contos. Mostrar todas as mensagens

28.12.14

Tudo pode mudar

A simples revisitação mental da lista das tarefas que assumira deixava-o inquieto, num misto de ansiedade para as concluir e de angústia por ter tanto para fazer. Ninguém iria conferir o seu desempenho. Não havia ninguém que lhe chamasse a atenção por ainda não ter reparado o candeeiro da sala, por não ter reparado o estore do quarto, por não ter enviado os papéis para a empresa gestora do condomínio, apesar de estarem pedidos há mais de três meses. Esse era o problema. Não havia ninguém.
Desde que Patrícia partira no primeiro dia das férias de Verão que deixara de ter a mesma energia, a mesma vontade para as coisas do dia-a-dia. Sozinho naquele apartamento sentia-se aprisionado a uma realidade sem sem sentido. Ao fim de tantos anos, não ter alguém a seu lado para comentar uma ideia, uma piada, uma observação deixava-o sem ânimo. Acordava depois de umas horas mal dormidas e arrastava-se de um lado para o outro, adiando tudo o que poderia fazer de útil (até escrevera a tal lista de tarefas sem qualquer resultado visível), saindo inúmeras vezes para umas voltas sem sentido até regressar a casa e vegetar em frente à televisão, perder-se nas páginas de livros que começava e não acabava, ou esgotar os minutos em jogos na consola, repetindo gestos e movimentos para os aperfeiçoar de nível para nível.
Ciente do caminho inútil no qual se enfiara, na sua cabeça constantemente procurava uma saída. E se a encontrava, não tinha o ânimo para a abraçar, antes se deixando ficar na rotina descabiada de dias sem sentido.

O Natal fora passado como um outro dia qualquer, e o Ano Novo ameaçava ter o mesmo destino. Porém, algo aconteceu naquele domingo. Quando acordou esqueceu-se de que o estore do quarto precisava de ser arranjado, que encravara havia dois meses e que era preferível não lhe mexer. Por isso, quando deu um esticão à fita para erguer a barreira que o separava da rua, esta rebentou com o esforço, deixando o plástico empilhar-se ruidosamente, aumentando agora o trabalho da sua recuperação. 
Foi então até à cozinha para ver o dia que o esperava lá fora. A luz estava rosada, enquanto o sol se erguia lá para os lados do rio e se reflectia na neve que tudo cobrira durante a noite. A neve.
Nunca vira nevar naquela cidade onde vivia já há mais de vinte anos. E a perfeição do fino manto que tudo pintava deixou-o sem fôlego durante uns segundos. Correu a trocar de roupa, pegou na máquina fotográfica e saíu para a rua animado por uma energia que o abandonara no Verão, levada por uma Patrícia que subitamente esquecera, para não mais o assombrar.
Meia-hora depois viu a perfeição na neve que cobria um banco de jardim onde alguém deixara na véspera uma rosa enfiada numa garrafa de cerveja. Aquele despojo da noite fora acariciado pela neve e pelo frio tornando-se numa escultura inimitável tanto mais que o sol ainda fraco depositava uns raios gentis no ângulo perfeito. À medida que se aproximava sentiu que mais alguém caminhava para o mesmo destino.
Ali da direita vinha uma mulher da sua idade, corada pelo frio, envolta no vapor da sua quente expiração, agarrada a uma câmara igualzinha à sua, até mesmo na objectiva, completamente concentrada naquele objecto original que repousava no banco do jardim.
Entreolharam-se, riram e falaram um com o outro de imediato ultrapassando o facto de serem completos desconhecidos. Estarem os dois ali, àquela hora madrugadora, com o mesmo material em busca das mesmas imagens era demasiado para ser uma mera coincidência.

Nos dias que se seguiram, completou a sua lista de tarefas. Chegou à noite de Ano Novo com tudo em dia, preparado para enfrentar os próximos doze meses como o glorioso início de uma nova fase na sua vida. Para começar, não iria estar só. O plano era ir à tradicional festa de rua, com muito fogo de artifício, gente e champanhe acompanhado da sua nova amiga fotógrafa. Juntos, unidos pela mesma paixão, iriam fotografar esta ilusão de que uma data tudo pode mudar. Acreditando nisso mesmo.
Que tudo pode mudar.

25.12.14

Toma lá, dá cá

Todos os anos a correria, a lista, a preocupação de ninguém esquecer, de não repetir a futilidade oferecida nos últimos anos, de não parecer desinteressado, vazio. Mas vazio era como, todos os anos, se sentia.
Reunia-se à mesa com familiares que não via desde há um ano atrás. Comia o mesmo prato de sempre, a mesma sobremesa, ouvia as mesmas piadas. Até os lugares se repetiam, ano após ano. 
Entalado entre o tio e o cunhado, com a prima e a sua filha à frente, via o tempo passar nas suas faces envelhecidas e não se cansava de pensar como ele próprio estaria velho. A adolescente loira e muito preocupada com o seu telemóvel duante toda a noite, já fora um anjinho adormecido, uma crente no Pai Natal, um poço de curiosidade. Hoje nem olhava para si, como se não existisse, evitando estabelecer contacto com o primo estranho, o que vivia sozinho, que tinha a casa cheia de livros, que fumava desalmadamente, que bebia demasiado.
O corrupio da meia-noite enchia a sala de papéis de embrulho rasgados e fitas desfeitas. As crianças, cada vez menos crentes e impressionáveis, à medida que os anos também por elas passavam, vibravam agora com sobrescritos carregados de notas e novidades electrónicas. Entre os mais velhos trocavam-se garrafas, perfumes,  peças de roupa, inutilidades domésticas. 
Para si nunca se enganavam. Várias garrafas de Jameson, algumas de vinho, uma ou outra caixa de charutos. Não arriscavam oferece-lhe livros, pois nunca saberiam o que queria ou o que ainda não tinha amontoado nas sete divisões do velho apartamento que herdara dos pais.
Como um vazio orgasmo desperdiçado numa fútil relação de uma única noite, a festa terminava rápido à volta de uma horrível chavena de chá. A sua irmã nunca soubera fazer um chá decente e insistia em apresentar bules com água fervida cheia de ervas passadas, todo o aroma perdido sabe-se lá para onde.
À saída, despedia-se com a certeza de que os veria apenas dali a um ano, excepto se a morte levasse mais alguém, houvesse um casamento, ou a família voltasse a crescer.
Entrava então no automóvel, escolhia um cd, e fazia-se à estrada. Nunca ia para casa. Por estradas secundárias, espantando o sono de Natal, conduzia até Vila Nova de Cerveira onde chegava a tempo de ver o sol nascer.
Aí chorava o casamento que nunca teve com a miúda ruiva que um emigrante bêbado ceifou no Verão de 1996 naquela mesma terra.
Entrava então na auto-estrada e acelerava de regresso a casa, violando todos os limites de velocidade e pensando se seria este ano que seria apanhado pela GNR. Ou se seria este ano que teria o acidente que poria fim àquela rotina de "toma lá, dá cá" que já não conseguia suportar.

7.12.14

Horas

Eram sete da manhã e já estava a pé. Uma comichão frenética corria os músculos e agitava as pernas que não se aguentavam debaixo do edredão. Virou-se para um lado, depois para outro, repetiu a manobra tantas vezes que se aborreceu e saltou da cama decidido.
Olhou desconsolado para o relógio. Durante a semana, todos os dias, quando o despertador tocava, sentia uma enorme tristeza por não poder dormir mais. Hoje, domingo, com o tempo todo a seu favor, não conseguia dormir.
Comeu, tomou banho, vestiu-se e foi à janela olhar o dia de sol que já estava anunciado. Céu azul, sem um farrapo de nuvem, sequer, e uma temperatura gélida. Sentiu o convite para passear, pegar na câmara e ir fotografar, ligar o automóvel e conduzir até à beira mar.

Dez minutos depois, vestido para sair para a rua, voltou para vale de lençóis. O calor do edredão rapidamente o aconchegou, relaxou e adormeceu. Recuperou as quatro horas de sono que se tinham perdido na semana de trabalho. E à tarde ainda foi lanchar numa esplanada para afugentar a angústia dos próximos cinco dias de papelada, chefias, colegas e depressão.

19.10.13

Filme francês

Manhã de sábado, sem qualquer pressão. Não preciso de ir trabalhar, não tenho planos que me obriguem a olhar para o relógio, consegui dormir nove horas seguidas e estou descansado.
Na cozinha, ao preparar o pequeno almoço, deu-me para escolher Bach, Cello Suites para me fazerem companhia. Com tais harmonias como pano de fundo, sentei-me à mesa. Torradas, brioche, sumo, capuccino, a leitura das notícias, a espreitadela às capas dos jornais, tudo através da longa mão virtual da internet.
Lá fora, depois da borrasca da noite, o sol brilha com intensidade, reflectindo o seu brilho na água que ainda se agarra às árvores, aos telhados, ao chão. A passarada está contente e faz questão de anunciá-lo com trinados que conseguem sobrepor-se à música que escolhi.
A calma é tão reconfortante, como preocupante. Parece que, a qualquer momento, o realizador vai mostrar algo de errado que não se vê no enquadramento. Que o autor escreveu umas linhas que surpreenderão o espectador colocando o personagem em dificuldades que alimentarão a trama.
Para começar, fora de cena, uma enorme nuvem negra esconde agora o sol. A imagem radiosa foi substituída por uma tenebrosa paisagem cinzenta, escura, desagradável. Os pássaros calam-se. A tensão sobe. Bach já não soa tão repousante, antes contribuindo para o desconforto crescente.
Assim de repente, tive a sensação de que a minha vida dava um filme francês.

10.10.13

O peixe está bem dentro do aquário?

Na rádio passavam recordações dos anos oitenta, quando a vida era simples e todos os problemas se resumiam ao facto de ser adolescente. Quando deu por si, já a protecção do monitor findava o ciclo programado e os discos entravam em modo de repouso. Pela configuração do computador poderia concluir-se que havia mais de quinze minutos que não tocava no teclado ou no rato. Contudo, quem o visse, poderia pensar que estava muito dedicado ao trabalho que se acumulava na secretária.
Mas a verdade é que não estava ali. Não estava naquele gabinete envidraçado, como um aquário no qual o podiam ver nadar durante o dia sem conseguir esconder-se. Ao contrário do que acontece com a maioria dos peixes, nenhuma rocha estava ao seu dispor para nela se esconder. Dia após dia a privacidade era, cada vez mais, um sonho.
Por isso desenvolvera aquela capacidade de se ausentar sem sair do mesmo sítio, sem mostrar que não estava onde o corpo se mantinha firme frente ao posto de trabalho. Bastava um impuso, um estímulo, e partia.
Hoje fora da rádio que nascera a viagem. 
"Don't, don't you want me?
You know I can't believe it when I hear that you won't see me
Don't, don't you want me?
You know I don't believe you when you say that you don't need me"
Ouvir os Human League trouxe de volta toda a angústia da paixão por Ana Rosa, a colega do 8.º e 9.º ano que se sentava à sua frente e tanto iluminava os dias com os seus cabelos loiros, como os escurecia com a indiferença com que lhe falava, ou pior, o ignorava.
Ana Rosa, a miúda que se vestia como se fosse mais velha, que usava uns pequenos saltos e saias curtas enquanto as outras andavam de sabrinas ou ténis, com as omnipresentes calças de ganga ou aquelas horríveis saias axadrezadas abaixo do joelho. Ana Rosa que já pintava as unhas e usava um baton vermelho que conseguia torná-la ainda mais gira, sem a vulgarizar como acontecia com as outras colegas quando arriscavam usar maquilhagem.
Um dia, Ana Rosa começou a namorar com um tipo do décimo ano, que tinha uma banda. Seguia-o com a firmeza de uma admiradora incondicional e ele agarrava-a e beijava-a como se fosse sua propriedade. Quando saíam da escola montados na mota barulhenta, atraíndo a atenção de todos quantos estivessem nos patios, sentia crescer em si um ódio por todos os que tinham alguma fama. E lutava com o conflito interno de desejar aquela rapariga loira que se sentava à sua frente, e o ódio por ela andar com um tipo mais velho que tinha tudo o que queria.
A rádio mudou de música. Algo com menos recordações. O secundário acabou há trinta anos, a Ana Rosa é apenas uma recordação do passado, e a sua vida está aprisionada àquele aquário.
Ao recordar que o apelido dela era Antunes, lançou-se ao Google e ao Facebook. Ajudou a memória de que a banda do outro tipo tinha por nome "Janela Indiscreta".
Ficou surpreendido com a abundância de informação disponível. Descobriu que Ana Rosa casou com o tal tipo, Marco Pimm, com ascendentes em Inglaterra, o qual cedo deixou de tocar música para a passar a produzir. Viu fotografias da Ana Rosa, sempre bela, cada vez mais impressionante com o passar dos anos, dedicada à ilustração infantil.
Viu fotografias dos seus dois filhos, a mais velha já casada e também mãe. Encontrou um vídeo de má qualidade gravado por alguém que, com o seu telemóvel, não guardou a privacidade que lhe era exigida com a presença no evento. Neste, os dois irmãos fizeram o elogio fúnebre da mãe, que no ano passado perdera uma luta de anos contra vários e sucessivos tipos de cancro.
De repente, a viagem pela estrada das memórias tornou-se amarga e sentiu um nó na garganta. Ana Rosa já não estava viva. Apercebeu-se então de que tinha quarenta e cinco anos e para muitos isso é mais do que uma vida inteira. 
Olhou em volta para as pilhas de papel acumuladas na secretária, na cadeira à sua direita, no pequeno armário junto à porta. Na barra de ferramentas contou as quatro janelas excel abertas que o atropelaram com os milhares de números que diariamente preenchiam cada minuto de trabalho.
Levantou-se, passou pelos colegas de piso que o ignoraram, tal como Ana Rosa costumava fazer na escola secundária, e enfiou-se na casa de banho.
Sentado na sanita, chorou a morte de uma colega de escola que não via havia trinta anos.

6.10.13

O caos dos outros

Acabou o sumo de laranja e comeu, mastigando meticulosamente, dois biscoitos de maçã. Abriu a máquina finamente estilizada e introduziu a cápsula. Baixou a alavanca com firmeza e pressionou o botão. A água foi sugada, aquecida, e empurrada sob intensa pressão através do café moído que se continha naquela pequena embalagem. Para a chávena pingou um expresso cremoso que recolheu  e levou aos lábios. 
O cheiro, o sabor, tudo lhe passou despercebido, mesmo quando engoliu a cafeína escaldante. Aquilo que em tempos fora um acto de prazer transformou-se numa rotina, num acto imperativo sem o qual o encadeamento diário ficaria perturbado.
Depositou a chávena no lava loiça,  encheu-a de água, despejou-a e guardou-a na máquina de lavar. Largou então para a casa de banho onde iniciou outro ritual.
Sanita, lavatório, banheira, secador, lavatório, tudo em trinta minutos contados ao segundo.
No quarto, antes de se vestir, fez a cama que deixara a respirar. Cuidadosamente vestiu um dos cinco fatos cinzentos que tinha, a camisa branca, a gravata vermelha.
Antes de sair, verificou todas as janelas, todas as luzes, todos os aparelhos.
Trancou a porta de casa, desceu os três andares a pé, ignorando o elevador ruidoso, e atravessou a porta da rua. Quando assentou os dois pés no passeio endireitou-se e respirou fundo três vezes, de olhos fechados.
Estava pronto para mais um dia. Estava pronto para enfrentar pessoas. Dali a doze horas e meia, sem falta, estaria de volta ao seu mundo organizado. Sabia-o.
Agora, era a vez do  caos dos outros.

3.10.13

Sem dramas

Apesar do vento, apesar da chuva, o mar enrolava baixinho, sem dramas, calmo como um cordeiro. Sobre as águas escuras erguia-se uma curiosa neblina, fosse dos salpicos de cada gota de chuva, fosse da temperatura fria do ar, que igualmente condensava a cada expiração.
Já sentia as pernas  dormentes, não do frio mas da posição. Estava sentado na areia ensopada havia mais de duas horas. Duas horas a contemplar o mar a subir, tentando levar cada vez mais longe a pouca espuma que as suas ondas conseguiam fazer, tão fraquinhas estavam. Duas horas de constante enrolar, marulhar, paulatinamente cumprindo o seu devir.
As gaivotas nunca estiveram longe. Ora se lançavam para apanhar qualquer coisa na água, ora aterravam na areia para a debicar procurando com que encher o papo. As mais afoitas e curiosas avançavam para si, logo recuando de cada vez que as olhava de frente. 
Graças ao poderoso blusão e calças impermeáveis, a água da chuva escorria sem o molhar. Apenas os óculos exigiam constante atenção pois as gotas que neles se juntavam eram um permanente e irritante obstáculo. Já cansado de os limpar, manteve-os entre as mãos e olhou para a frente.
Abanou a cabeça perante o cenário desfocado, borrado, que encontrou. As rochas que o mar tentava cobrir eram agora umas formas difusas nas quais umas manchas brancas apareciam irregularmente, posto que nem a espuma das ondas lhe era perceptível. O navio que tinha contemplado minutos antes, imaginando para onde se dirigia, quem ia a bordo, a carga que transportava, os cheiros e rotinas, estava agora invisível. Até as gaivotas poderiam ser galinhas que não as veria de forma diferente.
Trinta anos antes, ali mesmo, naquela praia, à borda de água antes de mais um mergulho, gabara-se da sua visão. Num dia de Verão, com os seus inseparáveis amigos de então, tinham competido pelo melhor olhar. 
Pedro, que já então usava uns pesados óculos, e que os tinha deixado junto à toalha, riu-se e disse: "Eu vejo o mar. É o mar que está à nossa frente, não é?"
Carlos, que teimava em não usar óculos pois isso estragaria o seu estilo futebolista, cedeu quando não conseguiu ver umas bóias de pesca logo para além das rochas para as quais costumavam nadar todos os dias.
André dera mais luta. Os outros dois já gozavam, insinuando que estavam já a inventar o que eles nem conseguiam imaginar que estivessem a ver. Mas André concedeu-lhe a vitória com um minúsculo bote a motor que navegava para lá da linha dos navios que saíam do porto da capital.
Trinta anos, e tanto mudara. Carlos perdeu todo o estilo com a heroína, com os roubos, com a cadeia. Vira-o no final do Verão passado. Andrajoso, comido pelo veneno, devolvido à sociedade depois de mais cinco anos de reclusão. Ficou do outro lado da rua a olhar para ele, com um aperto na boca do estômago enquanto recordava tudo o que tinham partilhado na adolescência. Fingiu não o ver e ele nem se terá apercebido da sua hesitação.
Pedro tocava numa orquestra, numa banda de jazz, e às vezes até actuava sozinho. Ele e o seu clarinete. Por vezes ia vê-lo, noutras jantavam juntos. Já não usava óculos. Foi operado pelo André, cirurgião oftalmológico, que naquele dia longínquo dissera: "Deixa estar que um dia hei-de ver melhor que tu."

2.10.13

Lembras-te da Mónica?

-Lembras-te da Mónica?
-Quem? A gorda?
- Sim. A gorda.
- Se me lembro. Gozavam todos com ela, e eu tinha vergonha de asssumir que gostava da miúda.
- Olhando para trás, devo dizer-te que foste muito parvo.
- Se fui. Ela podia ser gorda, mas era bonita e divertida. E mais esperta que todas as outras naquele grupo de Verão.
- E como não gozavas com ela, garanto-te que tinha um fraquinho por ti.
- Disparate. Tínhamos quinze anos. Como podes saber se tinha um fraquinho por mim? Aquele puto borbulhento e magricela que evitava qualquer confronto para não correr riscos...
- Ora, em conversas. Outro dia encontrei a Xana. Pusemo-nos a falar desses tempos, a recordar a malta do grupo, sabes como é, e um nome associa o outro e logo após saber da Mónica a Xana perguntou por ti. Quando lhe respondi, disse que foi uma pena que não tivesses tido a coragem de te lançares à Mónica, pois ela estava caída por ti, mas muito insegura e sem coragem para te cortejar.
- Cortejar… as palavras que te lembras para um grupo de putos de quinze anos esparramados nas areias de S. Pedro.
- Podia simplesmente ter dito “para te galar”, mas acho que já não fica bem.
- E o que é feito da Mónica?
- Isso é o mais interessante. Por isso te perguntei se te lembravas dela.
- Sim?
- A Mónica, antes dos vinte anos, já tinha perdido metade do peso. Assim como o “Gordo”, o Fernando, que hoje é um careca trinca-espinhas, sabes?, a Mónica perdeu peso e tornou-se uma estampa.
- Estás a gozar.
- Não. Já sou amigo dela no Facebook e andei a ver as fotografias… Amigo, agora que está nos quarenta, a Mónica está melhor que nunca.
- Tens que me mostrar isso.
- Faço melhor do que mostrar…
- Então?
- Quando aceitou o meu pedido de amizade, ela perguntou imediatamente se sabia alguma coisa de ti. Eu respondi que continuavas a ser diferente, e que devias ser a única pessoa que conheço que não tem Facebook. Mas que iria pôr-vos em contacto.
- Não sei… isso não vai acabar bem. Se ela está assim tão bem, porque carga de água quererá sequer falar comigo?
- Porque, meu caro, tu não está tão mal como aquilo que tens a mania de ver ao espelho. E se continuas a encolher-te, vais acabar mal.
- Esquece isso.
- É difícil. Esta conversa é só para te avisar que dei-lhe o teu número. Vai ligar-te em breve.
- O que é que foste fazer, pá? Não sei…
- “Padreco”, cala-te. Já é altura de perderes a alcunha. Ela vai ligar-te e tu vais entrar nessa batalha. Vais fazer-te à vida. Aproveita. A Mónica está divorciada, sem filhos, é professora de biologia na Universidade, está gira como tudo... Tu continuas solteiro. As tuas relações anteriores são meras anedotas. És um veterinário sólido, bem instalado. Estás em forma e não és um monstro horrível. Sabes conversar, sabes rir, lês, vês filmes, cultivas-te, sais à noite… Caramba… hoje em dia isso é mais do que suficiente… não és um bêbado, um burlão, um parasita, sei lá que mais.
- Se tu achas…

- Vais atender o telefone. E depois…, depois diz-me qualquer coisa.

1.10.13

Flecha

A luz amarelada do final da tarde emprestava reflexos mágicos aos cromados e vermelhos vivos. Com carinho, as mãos percorreram as diversas peças, sentiando-as como braile. Longas inspirações inalaram o odor a borracha dos pneus, o óleo da corrente, a frieza do metal.
Aos quarenta anos sentia-se novamente com doze. Era tal e qual a sensação de prazer que recordava daquela manhã de sábado quando o seu pai trouxera a pasteleira vermelha que pedalou durante uma década. Nova em folha, vinda da única loja da terra que vendia bicicletas e na qual várias gerações sonharam com o seu modelo favorito.
Então tivera que encostar a bicicleta ao passeio para nela conseguir montar, tão grande que era aos seus olhos de menino. Hoje, a máquina que cuidadosamente acarinhava estava montada ao rigor do seu tamanho. Mas ainda não conseguira pedalar nela, apesar de todo o seu corpo gritar para o fazer. 
Saiu da loja empurrando-a e sentara-se logo ali, no primeiro banco de jardim que encontrara, contemplando o quadro encarnado, os cromados, as finas rodas, o selim de couro, igual ao dos punhos. 
Dificilmente voltaria a ter uma sensação como aquela, a de ter uma bicicleta nova, tão perfeita que o levasse ao passado, que o fizesse sonhar com o futuro. Por isso deixou-se estar, a saborear com o olhar, com o tacto. A antecipar a curta pedalada para casa, numa ânsia infantil. Os pneus, ainda virgens, chamavam o asfalto. Mas ele resistia.
Resistiu durante uma hora. Depois, com um cuidado religioso, ergueu-se, montou a bicicleta nova e sussurrou: "Flecha. Vais chamar-te Flecha."

27.9.13

Sortido Rico

O assobio da chaleira em cima do fogão apanhou-o de surpresa. Já não se lembrava quão estridente era.
Apagou o lume e ficou a ouvir o silvo esmorecer enquanto os jorros de vapor ficavam mais curtos, espaçados e ténues. Pelos seus olhos passaram imagens de um passado longínquo, vividas como se fossem da véspera.
Rodou a cabeça para a direita, procurando a avó que se sentava à janela, naquela que ao mesmo tempo era a cadeira da cabeceira da mesa. Não estava lá. Havia mais de trinta anos que não estava lá. Quase sem olhar esticou o braço e agarrou a sua caneca azul, aquela pela qual bebia desde que se lembrava. O vidrado estalado desenhava rugas negras cruzando o azul marinho e as letras brancas que anunciavam o conteúdo: C H A. Assim mesmo, sem acento. Durante quarenta anos repetia sempre a mesma pergunta quando pegava na chávena. Ainda hoje não sabia a resposta. Para onde foi o acento?
Pendurada no cabide de madeira de onde pendiam o pano das mãos e o pano da loiça estava a pequena bola de chá, em metal de qualidade, mas envelhecido. Nela guardou uma colher de folhas verdes e acastanhadas, depositando-a então na chávena que encheu com a água fervente.
Nos quatro minutos seguintes contemplou a chama da vela. Ouviu a chuva nas telhas antigas, a água nos algerozes recentes, o vento embalando as paredes da casa centenária onde os avós viveram, onde em criança passou horas e horas. Muito antes dos ATL e das extensões de horário nas escolas. 
Os pais trabalhavam. As aulas começavam às oito da manhã e acabavam logo depois da uma. Saía correndo com os colegas e animadamente caminhava vinte minutos até casa dos avós. Não havia trânsito, gente má na rua ou qualquer perigo para o qual não estivesse alertado. Conhecia quase todas as caras com as quais se cruzava e fora educado a cumprimentá-las. "Boa tarde, Sr. Augusto!", "Olá, D. Flora", "Adeus, Menina Alice", "Olá, vizinho".
Assim que abria o portão da casa a avó aparecia à porta recebendo a mochila, o casaco, beijando-o e dizendo, fiel como um relógio: "Olá, querido. Lava as mãos e vai para a mesa para não arrefecer."
Depois de almoço, os tpc, a brincadeira, a leitura dos antigos livros de banda desenhada do avô, aqueles Condor, Mundo de Aventuras, F.B.I, Guerra e Espionagem, a imaginação sempre a correr. Não havia televisão para ver constantemente, computador para jogar, net para navegar. Apenas tempo para queimar. E fantasia a rodos.
A hora do lanche era anunciada por aquela chaleira. A avó não precisava de chamar. Quando o silvo ecoava pela casa pequena, vinha logo a correr. Encontrava a carcaça com manteiga, ou as torradas feitas naquela torradeira que se punha em cima do bico do fogão, as bolachas Maria com doce ou então bolachas-baunilha que comia separando as camadas e lambendo o creme, e muito de vez em quando, para grande satisfação, bolachas com chocolate de um Sortido Rico.
Sempre com chá. Preto ou de lúcia-lima, consoante a tensão arterial da avó.
Comia com gosto enquanto ouvia a avó a falar com uma ou outra amiga que se lhe juntava à hora do lanche, falando daquelas coisas de adultos enquanto faziam crochet ou malha. E zarpava de novo para as corridas de carrinhos nos desenhos da carpete do corredor e do tapete da sala, para as guerras de berlinde entre bonequinhos de plástico (verde escuro - americanos; verde claro - ingleses; cinzentos - nazis; castanho claro - japoneses), para as mais criteriosas investigações policiais que levava a cabo com o rigor do detective que encarnava. E o mundo era a preto e branco. Como a televisão, que lhe oferecia meia-hora de bonecos quando iniciava a emissão, logo o devolvendo à brincadeira deixada em suspenso.

Hoje, a viver na casa que foi dos seus avós depois de ter vendido a dos pais para pagar as dívidas do empréstimo da casa que comprou mas que ficou com a ex-mulher, foi preciso um apagão para recordar o tempo em que tudo era simples. Foi preciso ficar sem a sua inseparável chaleira eléctrica para ir à procura da velha assobiadeira que ainda se escondia no fundo do armário. 
Sentou-se à mesa, de lado como sempre, naquele que era o "seu" lugar e olhou para a cadeira da avó. Percebeu porque é que, estando ali a viver há mais de dois anos, ainda não renovara a mobília ou os utensílios. Tudo o que ali encontrava recordava-lhe o tempo em que fora verdadeiramente feliz. E isso deixava-o sereno.

A electricidade voltou mas não acendeu a luz. Deixou-se ficar à luz da vela a ler uma bd que conhecia de trás para a frente, dando golinhos no chá e registando mentalmente que, amanhã sem falta, iria comprar uma caixa de Sortido Rico. E a chaleira que assobiava não mais veria a escuridão do fundo do armário.

15.7.13

Pernas e bronzeado

Subia cansado as escadas quando reparou nas pernas bronzeadas que pulavam os degraus à sua frente.
Apesar do interesse subitamente desperto não conseguiu acompanhar o ritmo e perdeu-a antes do patamar seguinte. Quando penetrou no terceiro piso desconhecia se ela estaria por ali, se ficara lá em baixo, ou se chega ao nível da administração.
Focou o olhar em todas as distâncias, sem sucesso. A atenção há pouco focada nas pernas dispersara-se quanto aos demais pormenores. Tinha a ideia de que haveria um vestido com flores, mas não conseguia descrevê-lo, recordá-lo. 
Caminhou por entre os biombos do open space até ao seu cubículo sem prestar atenção em algo mais que a sua busca. Sentou-se e olhou para os dois monitores negros. Demorara muito e o computador já se encontrava a economizar energia. Seria bom se dispensasse alguma, pois sentia-se tão cansado.
Viu o seu reflexo distorcido no vidro negro e recordou-se o quanto era feio. Nunca aquelas pernas, ou outras quaisquer seriam suas.
Não enquanto fosse assim, pálido, balofo, meio careca.

Dois dias depois entrou em férias. Numa arriscada decisão cortou o cabelo com máquina "1", vendo brilhar o escalpe branco. Cortou a barba e nunca mais a deixou crescer de um dia para o outro. Inscreveu-se num ginásio que passou a frequentar com afinco e foi à praia durante três semanas seguidas.

Quando regressou ao trabalho parecia outro. Face escanhoada, pele acastanhada, menos seis quilos, alguns músculos mais desenhados.
Sentia-se bem, sentia-se melhor.
Estava pronto para conhecer aquelas pernas que, estava seguro, reencontraria.

7.5.13

O meu coração

A ponta rebelde do cabelo preto insistia em cair para a frente cobrindo o olhar e forçando-a a afastá-la com um gesto curto e rápido ou com um explosivo agitar da cabeça. 
Os lábios, bem pintados de vermelho vivo, movimentavam-se com uma frequência assustadora, à medida que freneticamente descrevia o que lhe acontecera repetindo-se amíude. Todo o episódio a deixara enervada, as palavras atropelando-se umas às outras, o corpo suado e com arrepios, a mente repetindo vezes sem conta a cena. Gesticulando, pontuou pela segunda vez a frase que era um mistério para todos os que a escutavam: "E quando ele me disse isso, o meu coração já nem parava!"
O polícia que a ouvia acenava ocasionalmente com a cabeça e fingia tirar notas para um pequeno bloco de apontamentos. O certo é que não o fazia, nem se importava. Não iria perseguir o ladrão, posto que ali chegara já muito tarde. Não iria investigar os factos pois isso incumbiria à brigada anti-crime, sobrando-lhe apenas o patrulhamento. Sabia que ali a sua função era mais de ouvir e assegurar à senhora que a Polícia iria reagir. E no seu íntimo acrescentaria a palavra "tarde".
De nada valeria a pena tomar notas, pois dqui a pouco, quando a senhora tudo tivesse desabafado e retornado a um estádio de maior serenidade, acompanhá-la-ia à esquadra e deixá-la-ia para tudo repetir ao Figueiras que preencheria o devido expediente.
Com um olhar vazio continou a escutar, concentrado na madeixa rebelde e no coração que não parara.

4.5.13

Lá vem o Cabrão

Todos os dias, pelas seis e meia da manhã, passava por ali com a máquina de lavar a rua que chiava horrivelmente. 
Era, por isso, a pessoa mais odiada do bairro, a quem chamavam todo o tipo de nomes, desde o acordar mal-disposto entre almofadas e lençóis, até ao deitar, antecipando o horror da madrugada seguinte. Tal sentimento generalizado, deixava-o infeliz.
Desgraçadamente não havia óleo que parasse a chiadeira da máquina e a Câmara não tinha dinheiro para a substituir. Por mais que os mecânicos dos serviços mexessem na sua ferramenta de trabalho, acabavam sempre por alvitrar que a cura para o mal passava pela reforma e abate do equipamento, para o qual já nem sequer se faziam peças.
E assim, secretamente, continuava a rezar para que a máquina "desse o berro", estoirasse, se finasse, "fosse com os porcos", ainda que isso implicasse uma alteração nas suas funções. Desde que deixassem de o chamar de cabrão e filho da puta logo às seis e meia da manhã.

29.4.13

Antigamente

"O Salazar, a mim, nunca me fez mal nenhum!" , anunciou em tons de autoridade para justificar o seu descontentamento com o actual estado da nação.
Pois não, pensei. A ti não te fez mal algum, mas fê-lo a muitos outros que por cá andavam. Destruiu muitas vidas e reduziu a existência de milhões a um dia-a-dia de trabalho, pobreza, medo, temor reverencial e subserviência. Mas como tu eras dos que estava bem, estás a cagar-te para todos os demais. Apesar de pensar tudo isto, nem uma palavra disse. A viagem continuou e tive que gramar mais uns minutos de ideias feitas, disparates, parvoíces fascistas e fascizóides que  velho continuou a partilhar em voz alta para que o outro velho que o acompanhava no autocarro pudesse ouvir, entender, e acenar com a cabeça dando a sua concordância a tamanhos dislates.
Porém, a dado passo, o autocarro encostou a uma paragem sem que alguém tivesse premido o sinal para tal efeito ou alguém pedisse para entrar. A porta de trás abriu-se com um sonoro suspiro pneumático e o condutor levantou-se avançando pelo corredor. puxando pelo braço do velho exclamou: "Faça favor de sair do veículo!".
"Mas..."- hesitou o velho - "Eu quero continuar até Moscavide."
"Queria, não queria?" - o tom de voz do condutor era severo e inflexível - "Mas vai ficar aqui, que eu não o quero a bordo."
"Mas com que direito...?"
"Com o meu direito. E se quiser, vá queixar-se ao Salazar"

25.4.13

O "Montanha"

Sabe-se agora que nunca foi conhecido pelo seu nome próprio. Num momento de infeliz falta de inspiração, os pais baptizaram-no de Plácido Sebastião Pequeno Casal.
Assim que começou a frequentar a escola, as outras crianças, com a sua cruel frontalidade, encontraram formas de deturpar os seus nomes e apelidos irritando-o com alcunhas depressivas. Nomes que se propagavam como fogo em mato seco e, de um dia para o outro, tinha a escola em uníssono a usar a última e ofensiva moda.
Contudo, teve sorte nos genes. Cresceu rapidamente, sempre à frente dos colegas, sempre maior, sempre mais forte. Vai daí, começou a cobrar o fim dessas alcunhas, oferecendo uns sopapos como garantia. Apesar de não poder combater a escola toda, tinha a inteligência de escolher os confrontos mais frutuosos. Os gozões, aqueles que arrastavam o peso da popularidade, eram as suas vítimas de eleição. Nada melhor que pôr um deles a chorar para transmitir a mensagem no recreio. 
Enfrentava, porém, um problema. Tanto esforço não seria compensado, ou credível, se começassem a tratá-lo por qualquer um dos seus nomes. Foi então que ele próprio escolheu a alcunha pela qual queria ser conhecido. E ainda não chegara à quarta classe já toda a gente sabia quem era o "Montanha". 
"Montanha".
De início estranhou, mas rapidamente viu a lógica e o poder do nome. Plácido estava sempre uns centímetros e uns quilos acima da média. Era grande. Era forte. Assustava. Nada melhor que "Montanha" para ser conhecido. E o único que se lembrou de o tratar por "Montanha de merda" foi ao dentista de urgência para reparar a perda de três dentes, dois deles definitivos.
O "Montanha" teve um percurso difícil. Tanto crescimento físico, tanto empenho no emprego da força, trouxeram-lhe limitações escolares lá pelo oitavo e nono anos durante os quais andou a marcar passo. Tinha dezasseis quando abandonou a escola sem sequer completar o nono ano. Mas o seu pai achou que estava mais do que na altura de por a trabalhar aquele corpo que já passava por vinte. O "Montanha" foi para a empresa de mudanças do tio e começou a dar-se com novos amigos, todos mais velhos e experientes. Amigos que o apresentaram ao haxixe e, mais tarde, à sua companheira cocaína.
Foi por essa altura que num círculo mais restrito o "Montanha" passou a ser conhecido pelo "Dedos". Tinha o irritante hábito de estalar os dedos constantemente. Tinha também o dom de, durante as mudanças, com subtis passes de mágica, fazer desaparecer este ou aquele bem que, depois, era rapidamente convertido em vício. Juntas as duas habilidades, a alcunha surgiu com naturalidade. 
Depois da tropa, onde o tratavam pelo apelido propiciando piadas às quais reagia a quente, ganhando com isso alguns dias de prisão disciplinar, "Montanha" regressou com uma nova paixão: as armas. Recusou voltar a trabalhar com o tio e juntou-se a um grupo com o qual ocupou uma casa desabitada. Os pais passaram a vê-lo apenas uma ou duas vezes por mês e, para seu desgosto, sempre que dele tinham notícias as mesmas estavam longe de ser boas.
A polícia tomou-o debaixo de olho e aos vinte e quatro o Juiz, apesar de ser a primeira condenação, não hesitou em dar-lhe três anos de prisão efectiva, impressionado que ficou com as fotografias da cara amassada da vítima e dos tiros disparados contra três polícias.
Cumpriu dois anos e regressou ao activo, permitindo-se  um novo nome. A montanha fumegava agora a duas mãos, graças ao par de pistolas Smith&Wesson de 9mm que encontrou ao assaltar a casa de um militar. Nunca mais as largou, assim como à nova alcunha. Por todo o lado se passou a ouvir falar do "Pistolas".
O "Pistolas" ganhou fama e a Polícia empenhou-se em fazer-lhe a folha. Acumulavam-se zaragatas, espancamentos, tiroteios... Ele e o seu grupo estavam cada vez mais eficazes a entrar em casas e limpar o recheio mais valioso. Se alguém aparecia pela frente não hesitavam em bater ou disparar.
Contudo, o "Pistolas" aprendera mais em dois anos de prisão que em onze anos de escola e trouxera um "mestrado" em artes de rua, estratégia e técnicas para não deixar provas. Tinha uma linha de escoamento dos bens adquiridos e nunca lidava directamente com os receptadores. O seu tamanho, força, fama e as duas pistolas desencorajavam os delatores.
Ainda assim, sabemos todos muito bem que não há nada que dure para sempre. A sorte do "Pistolas" acabou no dia em que pisou os calos ao Comandante Carriço, oficial da GNR que toda a gente chamava de "Carraça".
Longe de ser um exemplo de integridade, "Carraça" estava uns degraus acima na cadeia alimentar. E jogava tanto pelo lado da lei como pelo campo da clandestinidade. Por isso, no dia em que o "Pistolas" e o seu grupo foram à sua casa, limparam um ror de dinheiro e valores, e abateram o cão de guarda, fiel amigo de sete anos, "Carraça" decidiu acabar de vez com aquela rês. E, jurou-o, não iria dar trabalho aos Tribunais. Não iria ficar à espera que um Juiz aplicasse a lei e permitisse que, em poucos anos, aquele meliante retornasse às ruas.
Vai daí, "Carraça" pôs os seus homens da GNR em campo para investigar, acossar, encurralar o "Pistolas". E encarregou os seus outros homens para, no final, não deixarem o "Pistolas" ser apanhado pela Guarda. Pelo menos em condições de ser julgado.
Aconteceu tudo numa madrugada quente de Verão. "Pistolas" e seu grupo entraram numa vivenda lá para os lados de Azeitão, em plena Serra da Arrábida. À saída, nas estreitas estradas de terra, a GNR esperava o grupo. Houve tiros e perseguições e foram todos capturados. Todos excepto o "Pistolas" que conseguiu acelerar de encontro à barreira que lhe cortava o caminho e passar incólume aos vários tiros que contra si foram disparados. 
Seguindo pelas estradas costeiras, esclareceram as notícias que perdeu o controlo do veículo e caiu por uma falésia. Pelo menos essa foi a versão do Cabo e do Soldado da GNR que primeiro chegaram ao local.
Sem meios nem perícia para acompanhar o ritmo do fugitivo, tinham ficado para trás no velho jipe temendo mesmo perder definitivamente o rasto do "Pistolas". Mas à luz de apenas um farol de um Mitsubishi Pajero estava um homem que lhes fez sinal e se limitou a dizer: "Ia a passar e vi um carro a voar pela falésia abaixo".
Nenhuma das perguntas que o Soldado queria fazer, nomeadamente o porquê daquelas marcas de colisão no Mitsubishi, teve oportunidade de ser respondida pois o Cabo foi rápido a agradecer e dispensar a "testemunha". Nem sequer dela fez constar no relatório.  
Nos últimos momentos, quando as rodas giravam livres pelo ar, as pistolas calaram-se, os dedos partiram-se, a montanha ruiu. E Plácido Sebastião Pequeno Casal encontrou o seu fim no fundo de uma falésia, enquanto fugia da polícia, ganhando a imortalidade nas histórias que ainda hoje se contam sobre si.

19.4.13

Carol

Abriu pesadamente os olhos, ainda o despertador não tinha ligado o rádio. O corpo antecipava a rotina e, minutos antes da hora marcada, devolvia-o à vida. Ainda não conseguira focar com rigor na luz azulada que entrava pela janela, anunciando mais um dia frio, e já na sua mente se faziam ouvir as palavras que o iriam acompanhar durante a jornada. "Oh, Carol, I am but a fool / Darling, I love you tho' you treat me cruel"
Não sabia de onde vinha tal música, nem se lembrava da última vez que a escutara verdadeiramente. O certo é que ali estavam elas, aquelas palavras que iria repetir até à exaustão, coladas ao consciente, rasgando a sua presença e impondo-se pela força.
"Oh, Carol...", continuou a ouvir quando a rádio começou a emitir as notícias das sete da manhã.
"Oh, Carol...", trauteou no chuveiro, aproveitando a ressonância dos azulejos..
"Oh, Carol...", mastigou a torrada e sorveu o café.
Todo o dia, a toda a hora, lá estava Carol. Ouviu rádio, onde passaram mil e uma músicas, mas nenhuma superou os acordes que vibravam repetidamente e em silêncio. Mesmo sem querer, por vezes, deixava fugir em voz alta um "Oh, Carol...", tentando logo perceber se alguém dera por de tamanho deslize, logo tentando disfarçar.

No regresso a casa, já no autocarro, reparou na mulher magra, de sapatos vermelhos, que se sentava num dos bancos protegidos por um vidro, junto à porta da saída. Conseguiu perceber as suas pernas compridas, sensuais e demorou o olhar nos ombros expostos, de tez leitosa. Ruiva, amplos olhos cinzentos, sardas modestas. O cabelo comprido, apanhado, não escondia o estreito pescoço que inclinou quando os seus olhares se cruzaram. Embaraçado, desviou os olhos. Quando de novo focou nela, viu-a olhá-lo abertamente, sem reservas ou pudor.
Ao aproximar-se da saída, sentiu aquela impressionante mulher levantar-se e avançar até estar a seu lado, inundando-o com um perfume doce e frutado. Cedeu a passagem para que caminhasse à sua frente, aproveitando que os seus passos navegavam na mesma direcção para continuar a contemplar a forma ligeira, quase dançante, como se equilibrava nos saltos altos e progredia no passeio de calçada portuguesa.
"Oh, Carol..."
Mantendo o ritmo, seguiu-a. Ficou, contudo, embaraçado quando ela rodou a cabeça para trás e, entre duas passadas, o olhou directamente. Por não querer passar por seguidor obcecado, parou momentaneamente à porta da florista que antecedia o seu prédio, como se se concentrasse nas plantas expostas na rua. Quando arrancou de novo, já não a viu em lado algum.
Quatro passos depois abriu a porta do prédio e, de imediato, a do correio. Sem nada para recolher avançou para o elevador reencontrando aí a ruiva de pele branca à espera da cabina do ascensor. 
Olharam-se e sorriram, retribuindo mutuamente da simpatia espontânea.
Não  resistiu e meteu conversa.
- Boa noite... Mora por aqui?
- Foi. Me mudei faz uma semana. Estou no 4.º C. E você?
- 5.º C. Já cá estou vai para dez anos. Bem-vinda!
- 'Brigada.
- José Farinha.
- Carol. - cantou com o seu sotaque brasileiro. - Muito prazer.

17.4.13

O Rosa

O silêncio transpirava insegurança, à medida que as horas corriam sem qualquer novidade e os três contemplavam as paredes esverdeadas da sala de espera. Chegaram quase em simultâneo apesar de virem de diferentes direcções. A mesma mensagem os trouxera, ansiosos, temerosos, angustiados. "O Rosa teve um acidente e está na urgência do hospital!"
É curioso como certas pessoas ficam conhecidas pelo apelido. O Rosa. Poucos saberão que o seu primeiro nome é Rodrigo, tão pouco usado é tal nome. Tirando a mãe e a irmã, ou o todos o conhecem pelo apelido ou pela longínqua alcunha de "Rato". O Rato Rosa. Ao que consta, desta feita terá roído a corda, acelerando demais, travando de menos e enfiando-se por um muro adentro desfazendo o pequeno carro que o levava para todo o lado.
Era um tipo curioso, o Rosa. Em miúdo, magrinho, com dentes grandes e orelhas largas, ganhou a alcunha à saída da primária. E manteve-a ao longo de toda a vida assim como manteve muitos dos amigos de então. Caso raro, o Rosa. Uma vez amigo, conseguia manter-se por perto, disponível, sempre disposto a dar.
Na Faculdade, numa das muitas noites de copos, começaram a gozar com o seu apelido, trocando-o pelo nome próprio feminino que representa. O certo é que rapidamente o apelido ganhou asas e, sem segundas intenções, passou a reinar. Era o Rosa, como outros eram o Costa, o Sousa, o Botelho. 
O Rosa.
Sempre calmo, seguro e sem problemas. O Rosa. Nas alturas de incerteza, insegurança, chegava lá e era o rochedo que punha tudo em ordem, tranquilizava as hostes e traçava o caminho. Nem valia a pena questionar. Era evidente que aquilo que o Rosa propunha estava correcto. Logo todos se perguntavam como não tinham visto tal solução, de tão evidente que era. O Rosa é que sabia. 
O Rosa não tinha problemas, não sofria, não hesitava. Ou se tal acontecia, ninguém dava por nada. O Rosa era mesmo um rochedo.
E agora estavam ali, os três, perdidos, ansiosos, temerosos, sem notícias do Rosa. Do Rato. Do seu rochedo. Ninguém poderia vir ali acalmá-los, pois a única pessoa capaz de o fazer jazia nos cuidados intensivos às mãos de médicos e enfermeiros que se desejavam competentes.

5.4.13

"Boa Noite"

Pousou a caixa e procurou as chaves no bolso das calças. Encontrou o telemóvel. Encontrou moedas. Encontrou uma pendisk. Encontrou ainda uma caneta com a tampa roída.
Procurou pelos bolsos do blusão. A chave do carro estava lá. Também a carteira, e a bolsa com os óculos escuros. Um pacote de lenços e mais uma caneta, esta quase nova.
Ali à porta, na rua, com a chuva a cair à volta da curta protecção que a pala do prédio oferecia, blasfemou contra todos os deuses por não encontrar as chaves. Abriu a caixa, não fosse dar-se o caso de ter posto lá dentro o porta-chaves com o mosquetão azul que lhe franquearia a entrada no lar, doce lar.
Nada à vista. Tinha que tirar alguns objectos para ver mais fundo. Começou pela caneca, pela moldura, pela agenda. Um a um depositou-os na soleira da porta. A escassa luz dos candeeiros da rua não o ajudavam na busca, agora que a noite caía mais cedo. Tirou para o lado o copo de barro torto e mal cozido que o filho mais velho lhe dera pelo dia do Pai, havia três anos. Também sacou a bola anti-stress que sempre que fora esmagada lhe dera mais tensão que aquela que deveria tirar. Quando puxou o Moleskine onde costumava escrever os ditos parvos que ouvia aos colegas de trabalho, ouviu o tilintar inconfundível das chaves que procurava. 
Franziu os olhos para ver melhor no escuro que cobria a caixa e pescou o mosquetão que tinha agarradas as desejadas chaves. Foi então que soou um sonoro estalido, quando a vizinha do andar de cima, provavelmente a mulher mais bonita do prédio, abriu a porta para sair e o encontrou ali, acocorado, com os seus magros pertences espalhados pelo chão, no final do dia em que perdera o emprego para o ver ocupado por um puto de 23 anos que todos julgavam ser melhor do que ele na arte de vender apólices. 
Ergueu os olhos e sorriu embaraçado, na esperança de receber um carinhoso apoio, mas a vizinha quase nem o viu. Soprou um sumido "boa noite" e avançou em cima dos saltos altos, que lhe prolongavam as esculpidas pernas, até ao Audi A5 que esperava por ela do outro lado da rua.

4.4.13

Ficas bem?

- Não levas mais nada?
- Não. O que não cabe nesta mala não é mais meu.
- Custa-me ver-te deixar para trás tanto de ti.
- Nada disto é parte de mim. Nós não somos as coisas que acumulamos.
- Mas podemos ser definidos por elas, não?
- É por isso que não quero levar mais nada. As resmas de livros, a música, os filmes, a roupa, os sapatos... objectos correntes, máquinas aparelhos, móveis. Procuramos uma casa para viver e a seguir enchêmo-la de coisas que apenas dificultam a nossa vida.
- Dificultam, não! Facilitam-na.
- Uma ilusão. Não quero levar mais nada. A minha existência passa a ser portátil. Caberá numa mala e mais nada. Para comprar um novo par de sapatos terei que deitar fora um dos que agora tenho. Reduzi ao mundo do virtual a leitura e a música. Os filmes, vê-los-ei e guardá-los-ei na memória. O resto são coisas que poderemos dispensar, pedir emprestado, alugar...
- E as tuas coisas que aqui ficam?
- São agora tuas.
- Serão sempre tuas. Eu ficarei mero depositário.
- Não, não contes com o meu regresso. Trata-as como tuas. Sê livre de as usar, estragar, dar, deitar fora. Não pretendo reclamá-las nunca mais.
- Vais dando notícias?
- Sim, parvalhão. Irei dando notícias. E quem sabe se daqui a uns anos não terei condições para te receber numas férias do outro lado do mundo...
- Se eu tiver dinheiro para ir até lá.
- Podes sempre vender umas coisas destas para comprar o bilhete.
- Tinha muito que vender e a preços abusivos.
- ...
- ...
- Ficas bem, maninho?
- Que remédio... Seguramente ficarei só.
- Não ficamos todos, alguma vez na vida?
- Desde que os pais se foram que só te tenho a ti. E agora partes para tão longe.
- Porque agora sei que posso partir e que te safarás. Estás lançado, maninho. E rapidamente encontrarás quem te faça companhia.
- E tu? 
- Do outro lado do mundo também há mulheres. Também haverá amigos. E posso sempre voltar.
- Podes, não podes?

3.4.13

Pertences

A mala estava junto à porta da rua, gorda e pesada. A seu lado repousava a velha mochila de campista, cheia de livros até mal fechar. Nas mãos tinha um saco com alguns CD e DVD.
Com uma enorme sensação de vazio percorreu as quatro divisões do pequeno apartamento, em busca do que pudesse ter esquecido.
No quarto despediu-se do  velho e psicadélico candeeiro da mesa de cabeceira que comprara na feira da ladra logo após a mudança para aquela casa. Fora comprado para ali, não fazia sentido levá-lo para qualquer outra paragem.
No corredor para a sala viu-se ao espelho e recordou o dia em que o encontraram na defunta Habitat, exposto com aquela marca na moldura, e negociaram a sua compra com um desconto de 40%.
Passou pela sala e percebeu que nunca mais ouviria música pela aparelhagem que já tinha desde os tempos de faculdade. Não era um som muito bom, mas o equalizador que se mexia no visor digital marcara os últimos vinte anos. Precisava esquecê-la, deixá-la para trás. Hoje a sua música cabia toda no iPod que tinha no bolso e se levava alguns CD era só porque tinham  uma história para contar ou uma dedicatória pessoal.
No pequeno espaço reservado à função de escritório passou os dedos pelo teclado do iMac e antecipou a compra do seu novo computador, a anos luz daquela máquina branca de agradável desenho.
Encaminhando-se para a saída passou ainda pela cozinha onde pegou na caneca lascada que o alimentava ao pequeno-almoço havia mais de uma década. Enfiou-a no saco, engoliu em seco e partiu.
Tanto tempo reunido em tão poucos pertences. 
Enquanto trancava a porta imaginava-se a comprar novas mobílias, novos aparelhos, a encher uma nova casa e suspirou de enfado.
Enfiou a chave na caixa do correio e partiu.
Será que ela conseguiria manter tudo o resto à sua volta?