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27.10.15

Mulher-a-dias

A mulher-a-dias faz dias
Que não vem
Perdeu conta às horas
E meses que um dia tem
E o tempo que passou,
Passou a ferro
E a roupa que lavou
Tingiu de negro
Viu o dia perecer
A dançar num vendaval
Como um pano amarrotado
Que se esquece
No estendal

Linda Martini

13.10.15

Zé Gato

A cidade é para fazer dinheiro
E se tu és um tipo inteiro
Vais passar um mau bocado
Vais ver o que custa não ser ouvido
No meio de tanto homem vendido
Em silêncio comprado

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos, desta terra?
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra
Quem és tu Zé Gato?

Mas tu és teimoso como um burro
Venha luva ou venha murro
Nada te faz desistir
A luta é de vida ou de morte
Mas a consciência é mais forte
E não te deixa fugir

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos desta terra,
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra
Quem és tu Zé Gato?

És mais um caso de solidão
Porque afinal poucos são
Os que se entendem contigo
E às vezes é num marginal
Que vais encontrar, encontrar a tal
Compreensão de amigo

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos desta terra,
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra

Quem és tu Zé Gato?

28.8.13

Banda Sonora de Verão (VI)

Santa's Summer Fest é um festival de Verão dos pequeninos, organizado em Santa Cruz, para não ficar atrás da arqui-rival Ericeira que também organiza, há já uns anos, um dos muitos festivais da época.
O cartaz tinha um quê de iniciação. Para além da electrónica, pelas mãos dos DJ e das noites na discoteca Faraó, consagrava um dia ao rock puro e duro, e outro ao reggae e correntes mais descontraídas, tentando abarcar o mais variado público num universo que se sabe, à partida, não ser abundante. Depois, foi misturar nomes novos com relíquias do passado e assegurar que os pais também entravam no recinto acompanhando a criançada pré-adolescente que se misturava e sentia no seu primeiro festival, um assomo de liberdade ainda que em meio controlado e sob o olhar confiante dos pais que bebiam um copo, conversavam e esperavam para ouvir nomes que já tocavam quando eles próprios eram adolescentes.

Só fui a um dos dias e apenas para ouvir uma banda.
Linda Martini.
À beira de lançar novo disco (sai a 30 de Setembro e espera-se o concerto de Lisboa no dia 9 seguinte), a banda mostrou ser um sábio animal de palco. As suas músicas prestam-se ao desempenho gutural que nos agita as entranhas. As malhas das guitarras, a sólida linha de baixo ou a fantástica bateria sovam-nos o corpo acompanhando as letras gritadas que nos agitam as ideias.
E louve-se a fidelidade à língua portuguesa que tão bem tratada é por estes quatro.
Os Linda Martini estão bem e recomendam-se. Em concerto são melhores que em disco, pois perdem a limpeza da gravação e sujam as mãos no pó e suor do palco, onde dominam com à-vontade e a boa disposição.

A seguir vieram os cabeças de cartaz, os Peste e Sida. 28 anos depois e tudo está na mesma. São básicos (no pior sentido) mas cumprem o que lhes pedem. Eu saí à segunda música. Não há pachorra.

14.8.13

Banda Sonora de Verão (V)



A Gulbenkian anunciava assim o concerto: "Imaginada e concretizada por Rob Mazurek, líder bicéfalo de Chicago Underground e São Paulo Underground, esta recente formação junta os dois trios e o histórico do jazz contemporâneo Pharoah Sanders, companheiro de John Coltrane . Pharoah & the Underground opõe à muralha de som dos dois trios a memória viva e renovada de um nome incontornável da história contemporânea do jazz."
Numa apresentação contínua de mais de uma hora, os seis músicos enfrentaram um anfiteatro totalmente cheio entre solos, harmonias, ambientes, mostrando uma técnica e paixão apreciáveis. Por vezes, porém, ficou a ideia de falta de entrosamento, de cada qual seguir o seu caminho independentemente dos outros. Responderam ao público e tocaram mais temas, mais curtos, mantendo as hostes interessadas no seu telento
Cumpriram com a expectativa criada, e foi muito marcante ver o saxofonista Pharoah Sanders, com 72 anos, já se movendo com dificuldade, revelar um sopro jovem, poderoso e muito criativo. São muitos anos de carreira e onde o corpo começa a falhar vai valendo a experiência.
Bom concerto a fechar esta edição de 2013 do Jazz em Agosto. 
Para o ano, espero, haverá mais.

10.8.13

Banda Sonora de Verão (IV)


Ontem foi a vez de Anthony Braxton Falling River Music Quartet no Jazz em Agosto. Uma apresentação conceptual, com uma hora contínua de interpretação num universo que me surpreendeu pela densidade e dificuldade de escuta.
Sou mais virado para as harmonias, e esta história do free jazz e da composição livre pelas quais o músico agora afina não entram muito bem no meu espírito.
Não é que não tenha gostado, pois a espaços havia detalhes que me surpreendiam e captavam a atenção mas, no geral, o concerto de ontem esteve muito longe das minhas preferências. Pode ser incapacidade pessoal para este tipo de música. Pode ser apenas uma questão de gosto, o certo é que, ontem, a hora de concerto sem qualquer margem para encores, deixou-me insatisfeito.
Além do mais, da sinopse com a qual a Gulbenkian anunciou o concerto, e com aquilo que vi/ouvi na net do artista, estava alinhado por outro diapasão. Ao que parece, com o correr dos anos, Antonhy Braxton passou a achar que o jazz é coisa muito do século XX e ultrapassada, passando a trilhar um caminho que se afasta da minha onda.

5.8.13

Banda Sonora de Verão (III)



O programa deste ano do Jazz em Agosto da Gulbenkian é apetecível. Na primeira ronda fui ver Drumming GP Plays Max Roach M'Boom e o espectáculo foi memorável. Faltam-me adjectivos para uma noite perfeita. Nove músicos em palco batendo em dezenas de instrumentos duma forma incrível, inesquecível.
Seguem-se mais dois "rounds" neste palco. A fasquia está alta.

4.8.13

Banda sonora de Verão (II)

Ontem, CCB.
Sala à pinha para ouvir Devendra Banhart. Ambiente propício com público ávido e conhecedor.
Uma primeira parte assegurada pelo resto da banda, com o brasileiro Rodrigo Amarante a assumir a liderança. Boas músicas, boa onda. Grande comunicação entre artistas e audiência. 
A sala já estava na onda certa quando a estrela da noite entrou. Devendra falou português enquanto conseguiu, atacou as músicas com garra, mostrou um agrupamento muito competente, hábil, bem disposto, e trouxe uma prestação de alto nível com um som irrepreensível.
Mas foi muito pouco tempo de concerto.
Ao fim de uma hora disse adeus. Voltou para o encore, mas apenas tocou mais uma música.
Soube a pouco. Muito pouco.
E o público que se juntou no CCB merecia mais, disposto que já estava a saltar das cadeiras e dançar. Mais meia hora e este concerto teria sido memorável. Assim... 

26.7.13

Banda sonora de Verão (I)


Ontem, em Oeiras.
Numa noite fresca, mas agradável, Rufus Wainwright deu um concerto fantástico. Alegre, bem disposto, comunicativo, mostrou a sua extraordinária voz, ao melhor nível. É, sem dúvida, um artista impressionante. E, sozinho, com um piano e duas guitarras, mostrou como é capaz de encher um palco.

Não sou apreciador da banda que fez a primeira parte (Ala dos Namorados) e dispensava-a por não a conseguir encaixar. Apesar dos bons músicos presentes - Alexandre Frazão, Zé Nabo, Mário Delgado -o produto é frio e roda à volta de um Nuno Guerreiro que é sobrevalorizado, pois não passa da mediania. Ainda bem que foram interrompidos e não continuaram a tortura à qual me sujeitaram enquanto esperava pela verdadeira estrela. 

Rufus Wainwright. Quem não conhece ainda, está na hora de ir ouvir.

29.10.12

Ornatos de todas as cores

(foto de José Sena Goulão/LUSA - porque as minhas, de iPhone e à distância, não se aproveitam)


Felizmente arranjei bilhetes para o concerto dos Ornatos Violeta de sábado. Tive o prazer de ver um espectáculo completo de uma banda mítica que na curta duração de dois álbuns nos mostrou como se pode fazer excelente música em português. Música que, passados estes anos todos, ainda está nos lábios daquela enorme gente que encheu o Coliseu. Cheio. Mesmo muito cheio.
No momento final em que Manuel Cruz chamou ao palco umas dezenas de espectadores, foi evidente que os miúdos escolhidos nem sequer andariam na escola quando a banda acabou. Nem  mesmo seriam nascidos quando os discos saíram... E ainda assim estavam ali, vibrantes ao som da banda.
Durante mais de duas horas e meia o quinteto revisitou todos os seus temas. Editados ou não. Era este o terceiro concerto consecutivo em Lisboa e a  entrega de Manuel Cruz revelou-se logo nos primeiros temas, desde logo evidente na sua voz já cansada. Nem por isso deu menos àqueles milhares de espectadores. Entregou-se de corpo e alma sem reserva, assim como o fizeram os restantes membros da banda. Deram tudo o que tinham e mais ainda. Puseram todos a cantar em uníssono. Provocaram contínuos pedidos por mais música, mais Ornatos, mais. Ninguém queria que se fossem embora, já sabendo que desta será de vez. Que não haverá mais. Que agora os Ornatos chegam ao seu fim, um fim como deve ser, sem dramas nem surpresas.
Um fim que, em palco, se revelou com "a moedinha n.º 1 do Tio Patinhas".
Foram grandes. Continuarão a ser grandes. E "Cão!" e "O Monstro Precisa de Amigos", dois dos meus álbuns favoritos.
Obrigado.

5.5.12

Mais uma vez, Senhoras e Senhores, Dead Combo

Na quinta-feira os Dead Combo, acompanhados da Real Orquestra das Caveiras, das Víboras do Chiado e do convidado  Camané, brindaram a assistência das Aula Magna com duas horas e meia memoráveis. Passando por temas de toda a carreira, estiveram ao seu melhor, demonstrando como maltratar guitarras não é crime, mas sim uma forma brilhante de produzir música de primeira água.
Que continuem por muitos anos, e que eu tenha a oportunidade de voltar às filas da frente para ver aquelas mãos mágicas a dominar instrumentos gritantes.

26.6.11

Não fujas bandido

Ontem assisti a um dos concertos de despedida do projecto Foge Foge Bandido.
Está a acabar esta deliciosa aventura de Manuel Cruz e amigos, e foi um prazer ver como se constrói este som tão único. Eles tocam violas, bateria, as mais variadas percussões, assobios, megafone, serrote, flauta e inúmeras electrónicas, com uma cumplicidade própria de quem se conhece bem e está à-vontade. Como uma boa banda de jazz, apesar do seu som não encaixar nessa etiqueta.
Quem os não puder ver nos últimos concertos, tente arranjar o disco/livro, por encomenda no site da banda.
Garanto que vale a pena.

27.5.11

Let England Shake


Ontem, P.J. Harvey exibiu-se na Aula Magna. Irrepreensível na prestação, apenas pecou por estar pouco tempo em palco. Distante, pouco faladora, mas disso já estávamos à espera. O último disco foi tocado de fio a pavio, com alguns, poucos, temas antigos.

A Aula Magna está igual a si própria, acumulando pó e aquele cheiro que faz lembrar os autocarros antigos que nos levavam nas visitas de estudo do secundário.

Guardo na memória a voz, ao vivo, de uma fantástica artista.

23.5.11

CCBeat

Entre quinta e sábado fui por três vezes ao CCB para assistir ao conjunto de concertos apelidado de CCBeat. E foi uma experiência muito boa, com um cartaz quase 100% perfeito.



Começámos com L.U.M.E., acrónimo de Lisbon Underground Music Ensemble, que numa fantástica abordagem ao jazz encanta com a qualidade dos intérpretes e o entrosamento alegre com que actuam.



Seguiram-se os Dead Combo. Vi-os agora pela primeira vez em palco e não fiquei desiludido. Pelo Contrário. Intensos, vigorosos, virtuosos e criativos fizeram-me pedir por mais e mais. São incríveis, e continuam a sê-lo ao fim de tantos anos. No segundo dia conheci Kaki King. Vê-la tocar e ouvir os sons que consegue fazer, em simultâneo, a partir de uma guitarra é uma experiência sem igual. Agora procuro os discos, porque tenho que a ouvir, mais e mais vezes, imaginando as imagens da sua prestação.
A segunda parte foi um monumental erro de casting, apesar de ser o concerto que mais gente chamou ao Grande Auditório do CCB. Áurea, que na rádio passa duas músicas que soam muito bem, é um hamburguer plastificado, sem qualquer chama. A banda é um conjunto de "contratados", não se sentindo a mínima empatia em palco. Tudo parece coreografado (apesar de mal interpretado) para parecer grandioso. Mas a música não liga, a imagem assusta, as falhas de afinação arrepiam, e mesmo os sorrisos, os saltos, os gritinhos da cantora são tudo menos espontâneos.
Ao fim de quatro músicas estava de saída. O ruído estava a estragar a experiência prévia da guitarrista virtuosa.





Sábado foi uma noite a abrir. Plateia cheia de "miúdos" - falo de universitários, o que já mostra como estou a ficar velho :o) - que às primeiras notas levantaram os rabos das cadeiras obrigando quem queria ver os concertos a ficar de pé. Saudável prática numa sala formal como o Grande Auditório que, assim, se transformou em vibrante alegria.


Os Diabo na Cruz mostraram a sua energia vinda da rodagem das festas académicas e do circuito nacional de concertos locais. O seu estilo "heavy vira" está encorpado por rigor técnico e criatividade musical, num registo de espontaneidade em palco e alegre empatia entre os artistas. É praticamente impossível ficar quieto a ouvi-los, tal a energia que nos transmitem.
Foi com chave de ouro que o festival terminou. Linda Martini são esmagadores, estão em palco perfeitamente à vontade, entregando um desempenho a 110%. Do lado de cá, pulamos, abanamos, e entregamo-nos ao headbanging enquanto as guitarras são puxadas ao extremo por um baixo vibrante uma bateria incansável. Mesmo no fim, um apelo da banda levou para o palco muitos e muitos dos que assistiam, permitindo assim fechar as hostilidades com uma pacífica invasão de palco que deixou muita gente contar uma nova história nas conversas dos dias seguintes.



Espero, sinceramente, que voltem a repetir-se iniciativas semelhantes. Muito bom!






8.3.11

Gary Moore

Apenas ontem soube que no dia 06 de Fevereiro deste ano Gary Moore, 58 anos, faleceu.
A primeira vez que ouvi falar dele foi quando veio a Portugal, nos anos oitenta, em digressão pelo disco "Wild Frontier" e o cartaz com a sua fotografia estava por todo o lado. Um colega de escola era já conhecedor e deu-me a ouvir algumas coisas de Gary Moore.
Pouco tempo depois os seus discos perdiam a sonoridade mais pesada do início de carreira para um reencontro com os blues. Os novos álbuns, cheios de virtuosas guitarradas, eram literalmente música para os meus ouvidos.
É com pena que sei que nos deixou. Estava a envelhecer muito bem, musicalmente falando.
O guitarrista deixa saudades.

5.2.11

Corações de Atum

Estou a ouvir este disco... e estou encantado. Manuel João Vieira, igual a si próprio, com uma extraordinária qualidade de som, um cuidado extremo nas músicas, e letras inconfundíveis.
Comprem, que é um artista português!