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8.12.08

Desertos (XXI)

(epílogo)
20
DESERTOS

- O Luis sempre teve um pressentimento qualquer com o Jorge. Achava-o desequilibrado, impulsivo, perigoso. Por isso era tão relutante em dar-lhe uma arma. Mais facilmente confiava no Nuno.
- Está bem, pai, mas pelo que contaste o tiro foi acidental, e mesmo estúpido.
- Estúpido ou não, eu sempre fui contra a forma como vocês falavam e usavam as armas. E tinha razão. Vejam bem no que deu. – Luisa interveio. Estavam todos apinhados na cozinha partilhando chá quente. Ninguém queria ir para a sala onde se sentia a morte.
- Sim, mãe... mas se não fosse aquela mesma pistola eras tu a viúva. Caso não te lembres, pouco antes aquela arma salvou o pai.
- As armas não salvam nem matam. As pessoas que as empunham é que salvam ou matam. – Patrícia acreditava a fundo no que dizia, não obstante ser um lugar-comum. – Por isso nunca me preocupei com caçadeiras ou pistolas neste monte. Confiava em vocês e no uso que lhes dariam. O que aconteceu foi um estúpido acidente.
- Se o Jorge não tem querido agarrar a arma... – começou Vasco.
- Se o Luis tivesse sido claro com as armas desde que cá chegámos... – contrapôs Patrícia.
- Se, se... o que importa é que Luis morreu.
Ouviram a porta abrir-se e todos olharam para a entrada. Já o céu trocava o manto negro pelo azul quando Pedro reentrou. A chuva desistira pelas três da manhã levando consigo as nuvens e dera lugar ao frio que agora gelava os campos. Pedro estava seco, quente e não denotava ter passado a noite ao relento.
- Pedro, por onde tens andado.
- O Jorge já voltou?
- Não. E tu, onde estiveste?
- No barracão, entre os animais. Não me perguntem porquê, mas reconfortou-me. – Entrou na cozinha, avançou para o bule e serviu-se de chá fumegante. – Por onde andará o Jorge?
- Já me perguntei isso, mas achei melhor deixá-lo ir. – todos olharam para Susana. – Neste momento deve andar por aí que nem um doido.
- Mas está frio. Muito frio.
- Ele aguenta. Se não voltar pela manhã, então deveremos procurá-lo. Não antes.
- Se tu o dizes...
- Certamente que o Jorge se culpa pela morte do Luis.
- Que diabo!, eu também o culpo! – reagiu Pedro.
- Mas não podemos ir por aí. – atalhou Vasco.
- Porquê? Deixamos isto ficar assim, sem consequências?
- Que consequências, Pedro? Vamos julgá-lo? Puni-lo? Inventar o nosso tribunal privado?
- Não sei... mas não me parece bem...
- Estamos todos a falar a quente. Depois pensamos nisso. – serenou Patrícia.
- Como será que a Inês vai reagir ao Jorge? – a dúvida era de Luisa.
- Quanto tempo ainda dormirá?
- Com a dose que lhe dei? Aí até ao meio-dia.
- Temos que enterrá-lo já hoje.
- Onde é que ...
O som da porta da rua interrompeu a pergunta. De novo todos se chegaram à porta da cozinha e olharam para a entrada. Jorge, todo encharcado, tiritando de frio, roxo, olhava para a lareira à frente da qual tudo acontecera. A luz acesa e porta aberta do quarto de Vasco e Luisa foram claros para si e ali encontrou a mortalha de Luis.
Na cozinha Pedro foi detido por Vasco, que entendeu deixar a iniciativa a Jorge. Amontoados viram-no entrar no quarto. Aguardaram em silêncio.
Jorge sentou-se no chão ao lado da cama onde repousava o cadáver. Com um braço estendido tocou com a ponta dos dedos nos pés do defunto envolto em lençóis. Deixou-se ficar assim.
Lá fora o galo cantou, anunciando a aurora. Logo após, como se tivesse sido acordado pelo madrugador despertador, Mário saiu do quarto deixando mulher e filhas enroladas nos sonhos. Viu todos juntos à porta da cozinha e sentiu Jorge no quarto à sua esquerda. Foi até aí e disse:
- Então, Jorge... em que pensas tu?
Jorge ergueu-se pesadamente e reentrou na sala, olhos presos à biqueira das botas.
- Desculpem todos. Matei o Luis porque sou estúpido.
- Disso não restam dúvidas. – um toque de Vasco calou Pedro, inconformado.
- E agora, Jorge? – Vasco procurou o seu olhar mas não conseguia apanhá-lo, fugido que estava.
- A Inês está onde?
- A dormir.
- Melhor. Não sou capaz da enfrentar.
- Mas vais ter que o fazer.
- Não vou, não. Chamem-lhe cobardia ou simplesmente insensibilidade, mas eu não conseguirei nunca olhá-la de frente. Como também não vos consigo encarar. – elevou os olhos por um instante mas de novo os escondeu olhando o chão. A voz fugia-lhe. Ninguém se mexeu. – A minha atitude foi estúpida, impensada e ninguém com dois palmos de testa agarra uma arma com as duas mãos como eu fiz. Num mundo normal provavelmente iria preso.
“Mas nós não vivemos num mundo normal. Eu sinto em mim uma culpa tão grande que não consigo fazer isto, ficar convosco, avançar deixando para trás este infortúnio. Nunca algum de nós conseguirá esquecer o que se passou aqui hoje.
“Andei toda a noite a correr os montes e a cada passo que me afastava sentia mais difícil o retorno. Só voltei para não desaparecer sem vos mostrar o meu arrependimento. Mas vou pegar agora mesmo na minha tralha e sair daqui.
Jorge não esperava que o tentassem demover, e nisso acertou nas previsões. O silêncio continuou. Deu três passos em direcção a Susana.
- Vou para Sul, para a costa algarvia. Pelo menos sempre haverá peixe para comer. – ergueu olhar e focou-a nos olhos. Procurou segurar-lhe uma mão mas sentiu-a fugir, retrair-se. – Por favor, Susana, vem comigo.
Ela abanou lentamente a cabeça, baixando os olhos.
- Não consigo, Jorge. Não consigo.
- Não me deixes ir sozinho. - o tom de voz de Jorge revelava que o choro estava ali, num nó na garganta. – Vem comigo.
- Não. Agora então é que já não faz sentido algum. – Susana deu dois passos atrás, refugiando-se junto do resto do grupo. Jorge avançou para ela insistindo, mas Nuno pôs-se de permeio.
- Ela já disse que fica. – o tom determinado e grave da sua voz interrompeu a lamúria pedinte de Jorge. Ficaram cara a cara.
- Percebo. – terminou Jorge, virando-se para entrar no quarto. – Percebo. – repetiu.
Nuno tomou Susana nos braços confortando-a com um forte aperto ao qual ela se entregou. Nesse preciso momento Luisa sentiu que o filho não era mais o seu menino e que completara o processo que nos últimos tempos o transformara num homem adulto.
O desconforto que se fazia sentir enquanto Jorge arrumava uma mochila revelava-se no silêncio e na forma como cada um evitava o olhar do próximo. A lareira, que poucas horas antes rugira com a lenha em chamas era agora um quente e silencioso braseiro. Patrícia rompeu a pausa.
- Não me levem a mal... – foi apenas o que disse. Passou por Susana a quem fez uma festa, e entrou no quarto onde estava Jorge. Ouviram-na dizer em tom de ordem.
- Espera por mim. Vou contigo.

É curioso como as pessoas sabem coisas que se lhes perguntassem jurariam desconhecer. Quando Nuno abraçou Susana os seus pais e Pedro de imediato souberam que estava ali um elo mais forte do que fora revelado até então.
Quando Patrícia mostrou que ia partir acompanhando Jorge, também todos souberam que ela não estava satisfeita com a vida no monte e esta era a última oportunidade, possivelmente a única, de o abandonar.
Já o sol se via no céu, mas ainda a geada pintava de branco os campos quando os dois partiram. Sem uma palavra de despedida arrancaram lado a lado descendo o caminho enlameado. Para os dois uma nova aventura nascia segundo os passos do caminho. Para os que ficavam era preciso lutar contra a dor que todo o monte iria lembrar.
A todo o momento um local, um objecto, uma acção lembrariam Luis. Ele estava em todo o lado, naquele que fora o grande projecto da sua vida. Havia, contudo, que erguer o queixo, secar as lágrimas e manter o monte a funcionar. Manter aquele grupo a funcionar. Porque ali isolados, rodeados de cidades, aldeias e campos desertos, apenas se tinham uns aos outros para lutar pelo futuro.
Futuro que poderia ter mil e um desfechos, e tinha que ser vivido dia-a-dia.
(fim da publicação)

Desertos (XX)

(continuação)
19
ADEUS

Depois da hora de almoço a chuva reapareceu, primeiro pouco mais que humidade condensada no ar, mas depois engrossando com o correr da tarde. Quando chegaram ao Monte das Murtas, pelas cinco da tarde, já a noite procurava o seu poiso, vinham todos encharcados, com um ar miserável.
Foram recebidos com excitação pelos companheiros que se acoitavam do mau tempo na casa aquecida pela bem alimentada lareira. Pedro e Patrícia logo se ofereceram para ir tratar do boi, enquanto calor e roupa seca eram oferecidos aos caminhantes. Entre beijos e abraços de boas-vindas Vasco conseguiu anunciar.
- Levem o boi mas deixem o porco.
- Qual porco?
- Na carroça está um javali que se cruzou connosco. Se calhar já vem tarde para o jantar, mas temos caça grossa para cozinhar.
Falava e caminhava para junto da lareira que lançava na casa um aroma a azinho.
- O sacana atacou-me, mas o Nuno acabou com ele. Graças a Deus.
As exclamações aumentaram enquanto Nuno e Mário carregavam com esforço o bicho para a cozinha.
- Mas o que pensam que estão a fazer? – gritou Inês – Tirem-me isso daqui. É tão grande e malcheiroso que não conseguimos estar cá dentro com ele.
- Então o que lhe fazemos?
- Levem-no para a rua, para o barracão, para onde quiserem, mas essa coisa não cabe dentro de casa.
As expressões de desânimo dos dois carregadores contrariados sentiram-se na confusão frenética dos que apenas seguiam o animal e revelaram o esforço necessário para transportar tanta carne. Rita e Susana deram uma ajuda e os quatro, cada um pegando por uma pata, levaram o javali dependurado. Mesmo sob a chuva fria Filipa e Sandra seguiam, saltitando, o primeiro javali que alguma vez tinham visto. Inês ainda disse:
- Hoje não há carne. Vegetais no forno é o jantar. E já vai atrasado. – conclui virando-se para a bancada onde se espalhavam os ingredientes. Luisa entrou para a ajudar.
- Então como aconteceu isso? – perguntou Luis a Vasco que tentava aquecer as mãos na lareira.
- O Jorge topou qualquer movimento à frente. Depois fez o Javali sair do esconderijo à pedrada. Só que o sacana do animal em vez de fugir, decidiu vir atrás de mim. Como é duro que nem pedra os tiros de caçadeira que lhe acertei não o fizeram parar. Já me tinha derrubado quando o Nuno o abateu com dois tiros. Havias de ter visto. Foi fantástico. Com o javali em movimento o miúdo disparou duas vezes, certeiro, em cheio na cabeça.
- Aprendeu bem.
- Aliás, deixa-me devolver-te a pistola. Tem menos três balas. Ainda foi preciso um tiro de misericórdia.
Enquanto se afastava para ir pegar na mochila do filho que restava caída junto à porta da entrada, Jorge aproximou-se de Luis.
- Desculpa lá, Luis, mas porque não sabia eu que o puto levava uma pistola?
- Desculpa, devia tê-lo dito.
- Pois devias. Já para não discutir se não deveria ter sido eu a levá-la.
- Isso já não era discutível. Como se viu. O Nuno soube como usá-la.
- Também eu saberia. Porque raio não me dás uma pistola?
- Jorge, ... primeiro tenho que saber como a usas... eu não gosto de distribuir armas, não me sinto à vontade com isso.
Vasco reaproximou-se com a Glock na mão.
- Eu ataquei um javali com um machado de cortiça que à última da hora decidi meter na mochila. Achas que se soubesse que tínhamos uma nove milímetros eu tinha cometido tal loucura?
- Está aqui a arma. – entregou Vasco.
- Eu posso ficar com essa pistola.
- Nem pensar, Jorge.
- Neste momento, se não confias em mim, eu também não confio que a tua estratégia defensiva seja a melhor para este grupo.
- Como?
- Se houver qualquer problema tenho que te ir pedir uma arma e ficar à espera que nesse dia sejas simpático? Não me parece.
- Não te ponhas com merdas. A caçadeira está sempre à disposição de todos, ali por cima da porta da entrada. É mais do que suficiente. As pistolas e as G-3 ficam à minha guarda, em local seguro.
- G-3?!
Só então Luis se apercebeu que revelara a existência das metralhadoras numa das piores alturas.
- Sim. Tenho duas G-3 cá em casa.
- Com duas pistolas, duas G-3 e uma caçadeira mandaste-me para Estremoz de mãos a abanar?
- Ouve... vocês não...
- Não é “vocês”, - interrompeu Jorge elevando o tom de voz, - sou eu. Eu fui de mãos a abanar. Que me interessa se o puto tinha a pistola. Eu tinha um machado porque o levei à última da hora.
- E pelos vistos ias muito bem. – culminou Luis com o seu tom mais autoritário.
Levantando as mãos com um gesto rápido, Jorge agarrou a pistola que Luis segurava à sua frente também com ambas as mãos. Por reflexo puxou-a para si, para impedir Jorge de se apoderar da arma, mas o insucesso de tal acção fez com que ficassem cada um a puxá-la para o seu lado.
- Eu fico com essa...
- Nem penses...
- Mas vocês estão doidos? – gritou Vasco, - Cuidado que isso pode disparar.
No preciso momento em que Vasco gritava esta última palavra uma detonação tudo abafou.
As pistolas Glock têm uma característica curiosa. Não têm uma patilha de segurança clássica que funcione como travão, que numa determinada posição fixe o percutor e impeça o disparo acidental. Assim, estão sempre prontas a disparar, caso tenham uma munição na câmara, desde que para tanto seja posto um dedo no gatilho. É na própria face do gatilho que se encontra uma patilha que tem que ser pressionada para haver disparo. Necessariamente, quando se carrega no gatilho, destrava-se a arma. Desta forma ela pode cair, levar uma pancada ou sofrer qualquer outro acidente de percurso que não se disparará por acidente. Em contrapartida, é extremamente rápido, instantâneo mesmo, ultrapassar a segurança e disparar.
Precisamente, naquela insensata disputa pela pistola, um dedo de Luis ou de Jorge encostou-se ao gatilho e no puxa para cá, empurra para lá a arma libertou uma das suas letais descargas.
Enquanto ecoava a detonação Jorge, Luis e Vasco pararam, os três olhando para a Glock disputada a quatro mãos.
- Foda-se! – gemeu Luis. A pistola foi largada precipitando-se para o chão, inofensiva. Luis levou as mãos à virilha e caiu. Jorge olhou, mas foi Vasco quem primeiro viu o sangue.
- Luisa! – gritou, - Depressa, o Luis foi ferido. Luisa já estava ao seu lado. O tiro ouvira-se por todo o monte e as duas mulheres que estavam na cozinha chegaram em duas passadas. Inês gritou e caiu de joelhos para agarrar a cabeça de Luis que depositou no colo. Luisa lançou-se à perna esquerda cujas calças eram já uma poça de sangue.
- Depressa, traz-me a tesoura da cozinha. E panos da gaveta. – disse para Vasco que corria para a cozinha de onde regressou em segundos.
- Eu não... Eu não... Eu não... – gemia Jorge, de pé, mãos entrelaçadas à sua frente, como se cada uma segurasse a outra para não a deixar fazer qualquer asneira.
Luisa cortou as calças de Luis e com os panos tentou limpar o sangue, procurando a ferida.
- Merda, merda. – ia dizendo à medida que se apercebia dos esguichos de sangue que se elevavam da parte interna da coxa.
A porta abriu-se de rompante, entrando o resto do grupo que acorrera desde o barracão assim que ouviu o tiro.
- O que se passa?
- O que foi isto?
- O que é que aconteceu? – as perguntas sobrepuseram-se respondidas apenas pelo caótico cenário que se desenvolvia no chão em frente da lareira.
- Aqui, Vasco, a ferida é aqui. Põe aqui a tua mão e faz força. Toda a força que puderes.
“Alguém me traga a mala dos primeiros-socorros. E água, muita água, uma panela, um garrafão. Preciso de água.
“Luis! – gritou – Fica comigo, Luis, não te deixes desmaiar...
- Ele já não reage – chorou Inês. E gritou, - Luis! Reage, Luis! Sou eu, Luis! Luis!
- Eu não… Eu não… Eu não...
- Como aconteceu isto? – insistiu Rita, como se perceber o que se passara fosse a coisa mais importante do momento.
Mário entregou a mala de primeiros-socorros. Nuno um garrafão com água, logo seguido se Susana que carregava um tacho. Luisa despejou este sobre a perna ensanguentada.
- Mário, liga o aparelho de medir a tensão ao braço dele e põe-no a funcionar. – com o estetoscópio que pescou na mala procurou ouvir o coração, – E por favor, não gritem! - pediu
Segundos depois ordenou ao marido.
- Tira a mão, Vasco.
Assim que aliviou a pressão e desviou a mão um esguicho de sangue elevou-se vários centímetros. Para logo ser seguido de outro. E de outro. A cada batida do coração Luis esvaía-se em sangue. A um gesto de Luisa, Vasco voltou a pressionar a ferida. A sua mulher, desconsolada, ia dizendo.
- Apanhou a artéria femoral. Não sei se consigo fazer isto. Não sei se consigo fazer isto.
- Eu não... – Jorge saiu da sala a correr.
Com as mãos ensanguentadas Luisa rasgou o invólucro de um bisturi e outro de uma pinça. Anos antes enviara a Luis a lista com o material que deveria comprar para pôr naquela mala se queria algo melhor que pensos, compressas e adesivo.
Inês sussurrava palavras ao ouvido do marido, imperceptíveis no meio dos soluços.
A máquina apitou três vezes dizendo que não conseguia fazer uma leitura de tensão arterial. Mário desligou-a, voltou a ligá-la e carregou novamente no botão para reiniciar a medição. A braçadeira insuflável começou a crescer.
Luisa afastou o braço do marido e com uma rapidez incrível inseriu o bisturi na ferida de bala e cortou a carne. Rita sentiu-se mal ao ver tal corte, e só então se lembrou das suas filhas que num misto de curiosidade e agonia tentavam ver o que se passava. Pegou nelas pela mão e saiu para o frio do alpendre.
Luisa expôs a artéria femoral e com a pinça apertou-a e fechou-a numa dobra. A máquina apitou de novo.
- Não consigo apanhar a tensão.
- A hemorragia é muito grande. – as lágrimas apareceram pela primeira vez nos olhos de Luisa, enquanto usava de novo o estetoscópio. – Apesar de ter prendido a artéria... Nem sei se conseguiria reparar os danos. - ergueu os olhos para Inês. – Querida... o coração parou.
Inês gritou um “não” chorado, enquanto Luisa, vermelha de tanto sangue, a agarrou num abraço que queria abafar as convulsões de choro de ambas.
Mário, que estava ajoelhado junto ao corpo no pequeno espaço entre lareira e sofá, rodou o corpo e sentou-se com a cabeça entre os joelhos. Vasco deixou-se cair num cadeirão, chorando. Pedro saiu disparado correndo para a chuva. Nuno correu para a casa-de-banho, ajoelhando-se sobre a sanita com vómitos em seco. Susana entrou logo atrás, segurando-lhe a testa mas incapaz de suster as lágrimas que corriam dos seus olhos. Patrícia juntou-se a Rita e ambas abraçaram as raparigas incomodadas com o som do choro que preenchia todo o ambiente.
Os minutos correram enquanto cada um, à sua maneira, interiorizou a perda e lidou com a dor. Lá fora a chuva caía agora com maior intensidade.

Inês foi dormir à força com um forte calmante que Luisa lhe injectou.
Mário e Rita recolheram ao quarto deitando-se com as suas filhas de permeio procurando acalmá-las.
Luisa e Patrícia entregaram-se ao cadáver, limpando-o, preparando-o e amortalhando-o com dois lençóis brancos.
Os outros começaram a limpar o sangue que se espalhara vertiginosamente pelo chão atingindo os sítios mais inatingíveis.
Pedro e Jorge continuavam na rua, perdidos na noite chuvosa.
Mais ninguém dormiu. Não falavam. A breve descrição dos factos que Vasco fizera fora conversa suficiente.
(continua)

7.12.08

Desertos (XIX)

(continuação)
18
REGRESSO

- Tivemos sorte.
- Sem dúvida.
- Nunca pensei que nos despachássemos tão depressa.
- Foi boa a ideia do quartel. Era, efectivamente, o local mais adequado para encontrarmos o que tínhamos em mente.
Num canto do quartel militar de Estremoz o boi ruminava umas ervas. A seu lado a carroça empilhava uma larga carga encimada por janelas que cobriam portas, tábuas e barrotes.
Um pavilhão pré-fabricado evidenciava a pilhagem das peças criteriosamente escolhidas por Mário que agora conversava com Jorge. Ainda havia um monte muito grande de material cuidadosamente empilhado junto ao muro defendido com arame farpado.
- Ainda assim temos aqui material para mais duas ou três viagens.
- Como seria bom ter uma carrinha a funcionar...
- Como seria bom ter um cigarro para o fumar. Quando andava nas obras qualquer paragem me dava um pretexto para acender um.
- Nunca fizeste uma cura?
- A minha cura foi deixar de ter dinheiro para comprar o tabaco cada vez mais raro. Foi guardar um maço para o futuro, para uma ocasião especial, e fumá-lo todo dois dias depois.
- Quando ainda trabalhava para a televisão andava o dia todo de um lado para o outro com a câmara numa mão e o cigarro na outra. Fumava que nem um desalmado. No dia em que me despediram deixei de fumar. Deixei de ter vontade de o fazer. De um dia para o outro, sem esforço. Acho que foi a tristeza.
- Triste é ainda hoje, anos passados, procurar o maço nos bolsos. Nunca consegui substituir o hábito. Tal como o café. As saudades que tenho da nicotina e da cafeína.
- Essa já não partilho. Nunca gostei de café. Nunca bebi café. A malta ia toda ao café e eu apenas acompanhava. Para mim o conceito da bica está associado ao vómito.
- Eu bebia cerca de seis bicas por dia. E de um momento para o outro o café desapareceu... deixou de se ver.
- Por deixar de ver... onde andam o pai e o filho?
- Foram dar uma volta pelos arredores, a ver se há alguma coisa a relatar.
- Mas já é noite.
- Não te preocupes. Vamos para dentro acender a lareira. O frio vai rachar à noite.
Entraram no edifício que escolheram para se acoitarem até ao dia seguinte. Era uma casa pequena, ideal para aquecer e se manter quente, que nos seus tempos áureos provavelmente albergara um ou dois oficiais. Pouco depois recolheram o boi para uma casa ao lado, resguardando-o também.
Quando Nuno e Vasco regressaram, correndo para junto do fogo que ardia seguro, Jorge questionou-os de imediato.
- Então, o que é que viram?
- Nada. Incrivelmente, nada.
- Estremoz é uma cidade fantasma, - completou Vasco, - pois não vimos ninguém na volta que demos. Diria que toda a gente partiu, seja para outra terra seja para outro mundo.
Rindo em altas gargalhadas Mário concluiu.
- Essa foi boa. Para o outro mundo. Será que os deixaram emigrar?
Os outros entreolharam-se sorrindo, sem perceber onde estava a piada que justificasse aquelas gargalhadas soltas.

- Sabes, pai, cada vez mais tenho a sensação que estamos sozinhos. Que já ninguém vive por estas bandas e que aquele grupo que vimos há dois meses foram os últimos habitantes de Portugal que alguma vez veremos.
- Estás a exagerar.
- Estou? Da última vez que vim a Estremoz com o Luis ainda vimos gente na cidade. Uns velhotes davam sinais de vida à terra, ao contrário de ontem. É um pouco assustador passear à noite como fizemos e não ver uma única luz em qualquer casa. Uma que fosse, duma vela ou duma lareira. Nada. A escuridão e o silêncio que presenciámos são aterradores.
“E aqui no caminho... Para além de não nos cruzarmos com ninguém, todas as estradas têm vegetação e terra a invadi-las. Ninguém passa por estes caminhos há muito tempo.
Tinham partido à primeira luz da madrugada para o regresso ao monte. A geada repousava por todo o lado criando manchas brancas como a neve. O boi reclamava do fardo e do frio, bufando grandes nuvens de vapor com a sua respiração, mas sentindo que regressava ao seu domínio, ao seu canto quente e seco, lá se lançou a passo lento mas firme, arrastando os materiais de construção recuperados no quartel. Vasco e o filho caminhavam ao lado do possante animal, conduzindo-o conversando para afastar a mente do frio.
- Não sejas tão negativo. Haverá, certamente, mais gente por aí. Lembra-te é que mesmo os velhotes da cidade tiveram que procurar um bocadinho de terra para cultivar as suas couves e batatas, senão morreriam à fome. Aqui para o Alentejo, longe da capital, se não produzires alimento estás feito ao bife. Nem é uma zona onde encontres alimento à disposição para o colher...
- Mas nós já agimos de forma tão estranha com medo dos outros que não conhecemos, ou sequer sabemos se existem. Andamos armados e tememos... sei lá o que tememos.
“Por exemplo, pai, se agora víssemos outro grupo a caminhar na nossa direcção o que é que fazias?
Depois de uma pausa reflexiva, Vasco respondeu.
- Pegava na arma e assegurava-me que a podia disparar rapidamente se fosse preciso.
- Exactamente. É isso que estou a dizer. Eu também iria procurar a pistola. Porque receio os desconhecidos. Como poderemos sobreviver assim? Como poderemos progredir, melhorar?
- Sabes, Nuno, acho que tens tido pouco trabalho.
- Como assim?
- Pensas demais. Caramba, agora até a mim deixas preocupado. Nunca pensara nisso assim. Mas faz sentido que sejas tu a colocar a questão. Com a tua idade deves ser tu a questionar o futuro, a questionar como poderás tu encontrar uma mulher, constituir uma família e assim contribuir para salvar a vida em sociedade.
- Mas não é nisso que penso agora, - respondeu Nuno de imediato recordando com saudade o corpo de Susana, - mas sim em saber se temos futuro, ou se regressaremos aos tempos do selvagem, que nem sempre será “bom”.
- Gostava de saber como não pensas nisso. Com a tua idade só pensava nas miúdas e na altura em que iria para a cama com uma.
- Não te preocupes com isso.
- Só deixei de pensar nisso depois... nem foi depois da primeira vez, mas sim depois da minha primeira namorada a sério e de ter sexo com regularidade.
- Pai, - apelou com ar arrepiado, - se não te importas deixamos essa conversa de lado, está bem? Há certas coisas que não estou com vontade de partilhar...
“Por agora tenho andado muito ocupado a tentar perceber a nossa situação, a dar-lhe um sentido, e encontrar-lhe um futuro. Sim, o meu futuro. Quanto às mulheres, contigo era mais difícil de as esquecer pois que seguramente te cruzavas com elas a toda a hora. Eu não vejo um par de pernas desconhecidas há dois anos, não é?
- Está bem. Tens razão. Mas para mim acho que temos mesmo que pensar nas coisas aos poucos, fazer projectos um a um e ver em que pé vão andando as coisas. Agora concentramo-nos nas obras. Amanhã logo se vê.
- Não é chamar-te velho... mas esse conformismo não encai...
- Parem todos! – foi a voz de comando que Jorge, que seguia mais à frente, lançou a todo o grupo, interrompendo a conversa.
Obedecendo de imediato, Mário deteve o boi e quedou-se imóvel. Vasco fez saltar a caçadeira do ombro para as duas mãos, agarrando-a com firmeza. Jorge, lentamente, foi baixando a mão direita que levantara para dar mais força à sua ordem. Mostrava-se concentrado, focando o olhar num ponto adiante.
- Ouvi qualquer coisa. – sussurrou para trás enquanto se acocorou. Vasco, devagar, avançou juntando-se-lhe. A estrada em que seguiam estava agora mais estreita à medida que os arbustos que cresciam na berma se espraiavam para o alcatrão. À sua frente desenhava-se uma curva à direita cuja visibilidade era roubada pelos eucaliptos que a rodeavam.
- Tens a certeza?
- Absoluta.
- E o que era?
- Vegetação. Naquelas canas junto aos eucaliptos... está lá alguém.
- Não vejo nada.
- Duvidas?
- Não. Mas não vejo nem oiço nada. E não podemos ficar assim, neste impasse. Temos que avançar. – Vasco sentiu a respiração ofegante e a tensão muscular de Jorge. Alguma sugestão?
- E se é uma emboscada?
- E se não é?
- És doido, Vasco? Garanto-te que não quero ser emboscado.
- Vamos preparados. – disse afagando a caçadeira.
- Pois garanto-te que também estarei preparado. – Jorge afundou a mão dentro da sua mochila e daí tirou um pequeno machado corticeiro que guardava embrulhado em tela.
- Onde arranjaste tu isso?
- Que pergunta. Tu andas armado e eu vinha de mãos a abanar? Tirei-o do barracão.
Vasco encolheu os ombros e disse:
- Antes de avançar vou avisar o Nuno e o Mário.
Em segundos voltou para junto de Jorge e com um olhar decidiram avançar em direcção à curva, pausadamente, afastando-se um do outro. Ainda não tinham progredido sequer cinquenta metros quando as canas se agitaram de novo. Vasco ergueu a caçadeira ao ombro, apertando a bochecha na mesma. Apontando, gritou.
- Quem está aí?
Silêncio.
- Quem está aí? – repetiu. – Está aí alguém? – insistiu.
Sentiu-se um novo restolhar e mais silêncio. Jorge, ansioso, e porque estava mais próximo, junto à berma, pegou num calhau e lançou-o em arco para as canas agitadas.
Um grunhido assustou-os. De imediato um javali escuro, grande, com ar feroz, saltou para o alcatrão e começou a correr na direcção de Vasco. Grunhia ameaçador e avançava determinado.
A caçadeira troou três vezes numa rápida sequência, mas os cartuchos carregavam chumbo pouco grosso para caça tão pesada. Incapazes de parar a besta corredora, resvalaram na pele dura fazendo apenas ferimentos superficiais que ainda a enfureceram mais. Vasco começou a correr para o lado tentando esquivar-se ao animal que, não contente por ter afugentado quem o ameaçava, decidiu levar até ao fim a sua investida, apontando às pernas do homem da caçadeira. Jorge e Nuno avançaram em seu auxílio, gritando na tentativa de distrair a fera.
Perante a proximidade dos dentes trituradores, Vasco virou-se para os enfrentar, tentando pôr a coronha de permeio entre eles e as suas pernas. Mas o impacto do focinho foi tão violento que a caçadeira voou das suas mãos e se sentiu projectado para o chão.
O javali estacou e voltou atrás atacando de novo a presa agora caída com os joelhos por terra. Jorge lançou o seu pequeno mas cortante machado à cabeça do bicho mas, caprichosamente, o instrumento ao rodar pelo ar acabou por embater com o cabo sem causar qualquer ferimento. Largou um palavrão ao ver que não o detivera e avaliava o que mais fazer quando ouviu duas detonações.
Bang! Bang!
O javali foi lançado para o lado caindo. Junto aos olhos uma massa sangrenta revelava os impactos. A uma dúzia de metros Nuno segurava a Glock, braço direito estendido, mão esquerda apoiando o tiro e firmado o ombro direito, na perfeita posição que Luis lhe ensinara.
Os tiros ainda ecoavam, abafados pelos aflitivos grunhidos do animal em mortal sofrimento. Perante o olhar do seu pai, ofegante, de Jorge, boquiaberto, e de Mário, estático, empunhando um barrote que puxara da carroça como se fosse um taco de basebol, Nuno deu cinco passos e apontou a pistola. Disparou uma única vez, calando definitivamente o animal.
Enquanto devolvia a arma à mochila virou-se para o pai e perguntou, sem conseguir esconder que todo ele tremia de excitação com aquele pico de adrenalina.
- Estás bem?
- Sim... obrigado.
- Não te feriu?
- ... Não, não me atingiu. Que belos tiros... – comentou em tom baixo, ainda incrédulo e sem sequer completar a frase que lhe morreu nos lábios.
- Mas afinal tu tens uma pistola?
- Sim.
- E porque não mo disseste?
- Nunca perguntaste.
Jorge ficou sem saber o que dizer.
- Fico satisfeito por saber que o Luis fez bem em confiar em ti. Acabaste de salvar a vida ao teu pai. – disse Vasco abraçando o filho.
Jorge afastou-se falando sozinho palavras imperceptíveis. Mário aproximou-se do javali, ainda com o barrote na mão.
- E agora o que fazemos?
- Febras. – respondeu Vasco rindo de alívio – Carregamos esse javardo e vamos tentar chegar a casa ainda hoje para jantar. – depois, encaminhando-se para Jorge, agradeceu – Obrigado pela ajuda. Se não o tens visto a tempo... E por pouco não lhe espetaste o machado. - Teria sido mais fácil acabar com ele a tiro. – foi a resposta do antigo operador de câmara.
(continua)

6.12.08

Desertos (XVIII)

(continuação)
17
EM VIAGEM

Durante semanas a chuva irregular e o frio gélido desencorajaram qualquer aventura fora de portas. Porém, a animação no interior da casa espelhava a motivação que os novos projectos tinham inspirado.
Todos participavam, ou queriam participar, como arquitectos, engenheiros e mestres de obra das novas habitações. Na casa principal ficariam apenas a viver Luis e Inês num quarto, Vasco e Luisa noutro, Pedro e Nuno, cada um, num dos pequenos quartos, ficando o restante a servir como escritório. Mário, Rita e as suas filhas ganhariam um novo abrigo, o maior, com dois quartos e uma zona comum de permeio. Mais dois seriam construídos, um para Patrícia e outro para Susana e Jorge.
Como bungalows de um parque de campismo nasceriam assim três novas casas, pouco mais que espaços para dormir e estar com privacidade.
Com ansiedade esperaram que o barómetro subisse e, com uma temperatura menos agreste, os convidasse a sair para o céu azul. Já estavam no final de Janeiro quando isso aconteceu, dois meses tinham passado desde o ataque dos cães selvagens.

- Será sensato saírem todos ao mesmo tempo? – era Rita quem expressava o seu receio.
- Não creio que haja problemas. O Vasco e o Luis vão apenas ali ao Monte Branco num instante. De bicicleta é meia-hora de viagem para ir e vir, pedalando devagarinho. Se lá estiverem os tipos que vimos em Outubro será só o tempo de uma conversa. – sossegou o seu marido.
- A divisão de tarefas é segura? Vais bem a Estremoz?
- Já discutimos isso. O Luis e o Vasco vão ao Monte Branco porque são os mais velhos e experientes para poder avaliar a situação e fazer diplomacia se necessário. O Pedro fica convosco, para não ficarem apenas as mulheres em casa, sem quem as proteja. – riu.
- Sexista! – apelidou Rita com ar de gozo.
- Sim, mas é preferível isso e sentir-vos seguras. A todas vós, em particular a ti e às miúdas. E aqui entre nós, só estou a ver o Pedro ou a Inês a guerrear. Tu não tens fibra bélica.
- Lutarei como for possível, se precisar. Mas não me estou a ver a disparar armas... isso ainda não.
- Vês?... Enquanto isso eu vou com o Jorge e o Nuno a Estremoz. Somos os mais jovens e fortes, - disse fazendo o gesto de quem está a fazer músculo, - para poder carregar a carroça que o boi puxará. Além do mais, eu sou o único com a experiência para reconhecer o que valerá a pena trazer e o que será lixo. Não te preocupes. Em três dias estarei de volta.
- Tenham cuidado. – disse abraçando o marido.

Nos preparativos para a partida um grupo reuniu-se a aparelhar o boi à carroça. Um pouco afastados, Vasco e o seu filho falavam com Luis e Pedro.
- Uma vez que ficas cá, já sabes, Pedro... nunca acontece nada mas se for preciso as duas G-3 estão debaixo da minha cama. Tu e a Inês podem, e devem, usá-las se for preciso.
- Não vai ser. Passaram-se muitos anos desde que usei um canhão daqueles e garanto-te que não vai ser agora que vou voltar a disparar uma G-3. – passou a mão ossuda pelo cabelo branco que cobria, farto, a sua cabeça. Tinha, como de costume, a barba por fazer, também ela espreitando grisalha à volta da boca pequena. Os olhos brilhantes, escuros, refugiavam-se encovados, mas sorriam tanto como os lábios sempre esticados. Pedro era o mais baixo de todos os homens do grupo, e exibia uma magreza confrangedora, resultado do esforço físico a que estava a ser sujeito e ao qual ainda não se habituara.
- Mas se for preciso...
- Claro, Luis, se for preciso sabes que podes contar comigo. Espero.
- Gostava que fosses mais seguro.
- Desculpa lá, mas não está no meu sangue esse teu espírito bélico. Mas fica descansado, porque ainda recordo o que aprendi há quase trinta anos. E o meu sentido de auto-preservação é grande e estende-se a todos os que comigo estão. Em todo o caso vocês estarão de volta à hora de almoço.
- Nuno, - apelou o seu pai, - eu e o Luis decidimos que tu levarás uma das Glock.
- Porquê?
- Porque vocês podem precisar.
- Sim, mas porquê eu? Sou o mais novo do grupo...
- Mas o mais calmo e determinado, - explicou Luis – o que é fundamental. O Jorge é demasiado exaltado, instável, pelo que me custa confiar-lhe uma arma. E duvido que o Mário consiga disparar qualquer arma ou acertar no que quer que seja.
“Confio em ti, que apenas a usarás se for mesmo preciso e que, nesse caso, a usarás bem.
- Guarda-a na tua mochila e não digas que a tens.
- Bolas, pai, não consigo compreender essa desconfiança. De onde vem tal coisa?
- Quanto menor for o acesso às armas, mais segura será a nossa vida. Aprende isso.
- Vocês levam a caçadeira? – perguntou Pedro.
- E a outra pistola. Aquele grupo estava armado, pelo que não custa nada ir com cautela.
- Tenham cuidado.
- Vamos todos ter cuidado, o.k.? – finalizou Vasco.

No dia em que o grupo de Horácio Sousa abordou o Monte das Murtas, Jorge mostrou toda a surpresa ao saber da existência das duas pistolas. Quando os ânimos acalmaram, reclamou a sua ignorância e exigiu saber que armas havia e onde estavam interpelando Luis. Este, quase instintivamente, omitiu as G-3. Quem delas conhecia logo se apercebeu disso, mas respeitou a sua decisão e alinhou no seu segredo. Só mais tarde Luis confidenciou a Pedro ter aquelas duas armas em seu poder.
Quando naquela manhã se preparavam para partir, Jorge abordou Luis para lhe pedir uma pistola.
- Vejo que levam a caçadeira convosco. Eu deveria levar uma das pistolas.
- Porquê?
- Porque somos três, vamos para longe, e seguramente dormiremos fora.
- Não concordo. As armas fazem mais falta aqui, no monte, para se for preciso defender os que cá ficam. Lá fora serão mais um factor de risco.
- Então porque vai o Vasco de caçadeira ao ombro?
- Porque aqueles tipos que vamos à procura estão armados, isso já nós sabemos.
- E se formos assaltados? Eu quero uma pistola, Luis. – o tom era cada vez mais insistente, mostrando-se Jorge preparado para argumentar contra qualquer fundamentação.
- Não levarás a pistola.
- E quem és tu para decidir isso?
- Da última vez que reparei era o dono da casa, do monte, das armas... Vocês não vão precisar de qualquer arma.
- E se nos aparecer alguém pela frente?
- Não aparecerá. Não vais encontrar ninguém com menos de sessenta anos. E se vieste de Lisboa para aqui desarmado decerto sabes como viajar assim.
Jorge ainda abriu a boca, mas não deixou sair qualquer som. Ficou em suspenso por uns instantes mas acabou por virar costas e afastar-se em direcção ao barracão dos animais.
Pouco depois partiam, em passo lento acompanhando a besta de carga.

- Relembra-me lá como é que um tipo como o Jorge apareceu neste nosso grupo. – pediu Luis a Vasco enquanto deslizavam nas bicicletas sobre o estradão de terra, agora muito esburacado com as chuvas desse ano.
- Foi a Luisa quem o conheceu. E lembra-te que aquele episódio na Rússia decerto lhe deixou marcas que o tornam assim excitável. Mas o tipo ainda não fez nada de extraordinário. Estás a exagerar, não? Tu com a idade dele também eras mais impulsivo.
- Talvez... mas não me sinto à vontade com ele... há qualquer coisa no meu íntimo que de diz para não lhe dar armas... até me arrepio com isso, brrr!
- O Jorge quer acesso às armas. Nos dias de hoje isso é perfeitamente legítimo. Já viu muita coisa em Lisboa que justifica os seus receios, já sentiu na pele o que é estar desprotegido. Tens que o compreender. Na posição dele farias o mesmo.
“Justificava-se que falasses com ele a sério sobre as armas, lhe mostrasses as G-3 e o ensinasses a disparar como fizeste com o Nuno. Só tínhamos a ganhar com isso. Precisamos de gente nova e forte para partilhar estas ingratas missões.
Após uns segundos de pedaladas em silêncio, Luis respondeu.
- Talvez tenhas razão.
Continuaram com o ruído característico dos pneus a rolar na terra ainda húmida.

O boi caminhava seguro em passo leve, vazia que estava a carroça que arrastava atrás de si. Para não o sobrecarregar os três homens caminhavam a seu lado, incentivando a besta a avançar sem parar.
Agasalhados com gorros, luvas e cachecóis acompanharam com o olhar os dois ciclistas que desapareciam. Mário mostrou-se determinado.
- Bom, meus amigos, vamos a ver se conseguimos dormir apenas uma noite fora.
- Será possível? – questionou Jorge.
- Se conseguirmos chegar a Estremoz em cerca de seis horas como espero, agora que vamos leves, ainda temos tempo para fazer o levantamento do material, procurá-lo e até recolher algum. Amanhã seria só carregar o resto e partir. Com carga a viagem poderá demorar-nos umas dez horas.
- Eh lá, tanto?
- Sim, Nuno. O boi não fará mais rápido que isso. E é porque quase não temos subidas que se vejam.
- Quanto a irmos leves agora, todos sabemos que isso não se aplica a ti. – riu Jorge.
- Ah, Ah, que piadinha... – Mário exibia uma barriga proeminente, resultado de muitos anos de cerveja, carne e batatas fritas. Apesar da nova dieta vegetariana e dos esforços físicos o terem ajudado a emagrecer um pouco, a falta do stress com que vivera durante anos convidava-o a comer para compensar, e por isso era o mais gordo de todo o grupo. Ainda assim, exibia força como se constatava quando deitava as mãos a qualquer peso para o deslocar. Apesar dos seus trinta e oito anos, apresentava uma careca no alto da cabeça que tentava compensar deixando crescer o resto do cabelo fino. As suas bochechas frequentemente rosavam, como agora, expostas ao frio do caminho.
- Já sabes onde procurar a madeira que precisamos?
- Em Estremoz há dois sítios que creio poderão servir. No início ainda pensei na serração mas aí deverá ter sido o primeiro lugar onde foram buscar madeira para se aquecerem. Resta-nos a velha estação de comboios, que tem uns pavilhões antigos, em madeira boa. E o regimento de cavalaria onde em tempos havia uns pré-fabricados. Aposto seriamente aqui, porque se ainda lá estiverem em condições, poderemos desmontá-los para remontar aqui no monte. Com a vantagem de estarem já preparados com portas e janelas.
- Tenho dúvidas sobre se conseguiremos transportar tudo aqui.
- E tens bem. Não penso conseguir trazer mais do que suficiente para uma das construções. Ao todo teremos que ir a Estremoz numas quatro viagens.
Caminharam em silêncio em direcção ao alcatrão da velha Estrada Nacional nº 245. Ainda antes de sair da terra batida Nuno olhou para trás e notou o monte desaparecido na paisagem. Comentou.
- Como raio aqueles viajantes deram com o monte? Daqui já não se vê nem a casa, nem o barracão... nada.
Olhando para trás Jorge ensaiou uma resposta.
- Devem ter visto o fumo da lareira... só pode ser isso. Ou então aventuraram-se muito fora dos trilhos.
Mais adiante, onde a faixa de terra batida encontrava o alcatrão envelhecido Nuno insistiu.
- Vejam como os arbustos já ameaçam fechar o estradão. Aqui da estrada nacional começa a ser difícil perceber o caminho de terra... Já cá não passava desde a última vez que fui a Estremoz.
“Se calhar devíamos investir nisso.
- Em quê?
- Em dar uma ajuda à natureza e fazer as plantas esconder o estradão. Assim mais dificilmente alguém se lançaria por aqui acima até ao monte.
- Posso até estar a ser paranóico, mas a tua sugestão é muito boa. Toda aquela gente a chegar há dois meses deixou-me inquieto.
- A ti e a toda a gente, Jorge. Depois do que vimos em Lisboa.
- Sim, mas toda a gente sabe que eu já vivi tempos difíceis nos sítios por onde andei em trabalho. Fiz reportagens em clima de guerra, em cidades vítimas de cataclismos naturais, em zonas de terrorismo, e nunca senti isto, tirando naturalmente no meu rapto... mas isso está para lá do concebível.
- Talvez porque, excepto nesse episódio, sabias sempre que tinhas um avião ao alcance de um pedido que te tiraria dali e te devolveria ao conforto e segurança da tua casa.
- Sábias palavras disse o mais novo de nós os três. - concordou Mário, - E hoje apenas podemos chamar casa a este monte que nem nosso é. Se o Monte das Murtas deixar de ser seguro, deixamos de ter porto de abrigo onde encontrar refúgio.
- Talvez essa seja a explicação mais correcta de tão simples que é. – arrematou Jorge espreitando por cima do ombro.

- Avança agora com cuidado. – avisou Vasco em baixa voz, entrecortada pelo ofegar provocado pelo esforço feito no frio.
- Está tudo muito calmo. É melhor não parecer furtivo.
- Tens razão. Mas ir a peito descoberto pode ser tonto.
Estavam já nas imediações do Monte Branco, o qual aparecera no horizonte ainda distante. O silêncio à sua volta coincidia com a imobilidade visível. Nada nem ninguém se mostrava aos olhos dos ciclistas.
Conforme avançaram pedalando aperceberam-se que se acumulavam os indícios de abandono daquele monte. A vegetação invadia os caminhos, não se viam zonas cultivadas, animais ou vestígios de água, tanto mais que o moinho de vento estava travado na ferrugem. À casa faltavam algumas telhas, tinha as portadas todas encerradas e a sardinheira crescia para a entrada.
Parando as bicicletas em frente à construção Vasco concluiu.
- Nem vale a pena chamar por alguém. Aqui não mora ninguém.
- Aqui viviam dois velhotes. O homem morreu vai para quatro anos, depois de levar um coice de uma mula. A mulher, furiosa, deu dois tiros no animal e morreu três semanas depois, dizem que de desgosto.
- Mas depois disso acho que mais ninguém para cá veio. O grupelho de Horácio Santos nem meteu aqui os pés.
- Deveriam preferir ficar connosco. Tinham um monte melhor, já preparado e com muita comida. Aqui tinham trabalho demais. Por onde andarão?
- Não sei... mas de repente fiquei mais incerto quanto à segurança do meu filho.
- Achas?
- Não sei porque razão não vieram para aqui, depois dos termos despachado...
- Se não voltaram ao nosso monte é porque não são perigosos nem mal-intencionados. - interrompeu Luis.
- Passou-se mais de um mês, dois meses, de chuva e frio. Se não estão aqui onde estarão? Não sei se foram para longe se ainda andam por aí.
- Como andam por aí? Tu próprio o disseste, com esta chuva e este frio, ficaram por perto à espera de quê? E em que condições?
- À espera... – começou Vasco como se tivesse sido iluminado, - à espera que saíssemos de casa, que fragilizássemos as nossas defesas. Tu mesmo o referiste, o nosso monte tem recursos muito apetecíveis, e ao darmos aqueles sacos de comida revelámo-los.
- Achas que eles aguentariam dois meses em vigilância?
- Se tivessem ido para outro monte diferente... teriam a certeza que não os encontraríamos aqui.
- Oh, Diabo! E hoje desmobilizámos e separámo-nos.
Com um olhar, arrancaram pedalando forte.
- Como pudemos ser tão estúpidos. - gritou Luis.
- Tem calma. Vais ver que não é nada disso.

Ofegantes, suados e notoriamente cansados chegaram ao Monte das Murtas para o encontrar preguiçando sob o sol que rompia a neblina matinal e estendia uma calma capa sobre o verde fundo. Marvão e Beja estavam pouco activos, e pela sua atitude tinham reconhecido os ciclistas havia muito, pelo que se mantinham deitados à espera de aquecer a humidade da noite. Pedro e Susana, que se dedicavam à diária tarefa de cuidar dos animais viram-nos chegar e, surpreendidos pela rapidez do retorno, foram ao seu encontro.
Uma vez esclarecidos dos receios de Luis e Vasco esclareceram.
- Não creio que isto pudesse estar mais calmo. Nós aqui, a Rita com as miúdas a dar-lhes a aula do dia, a Patrícia e a Luísa lá mais abaixo apanhando umas frutas e a Inês na cozinha. Creio que estão enganados.
- E ainda bem. – completou Susana.
Ainda assim deram uma cuidadosa volta aos arredores, mas não viram vestígios de alguém que fosse. Reunidos todos junto ao alpendre, conferenciaram.
- Ainda não me sinto descansado... já nem é por nós, mas pelos outros três, pelo meu filho.
- Porque não vais com eles? – opinou Luisa para o marido.
O olhar deste encontrou o de Luis e depois o de Inês.
- Vai, - respondeu o primeiro, - vai e leva contigo a caçadeira. Sentir-te-ás mais seguro. E nós também.
- E vocês?
- Nós ficamos bem, não te preocupes connosco.
E assim, dez minutos depois, Vasco partia numa bicicleta, certo que conseguiria apanhá-los rapidamente. Esperava que nada lhes acontecesse, a caminhar como iam ao lado daquele boi, apetitoso naco para barrigas há muito vazias.

No céu, onde a neblina das primeiras horas do dia dera lugar ao azul sem nuvens, um traço branco riscava a perfeição, como se o pintor se tivesse cansado de usar a tinta azul e cortado a tela que se expunha na sua crua cor original.
Foi Mário quem nele primeiro reparou.
- Caramba!, olhem para ali! Um avião. Nem sabia que ainda havia combustível para os fazer voar.
- Incrível. Há já tanto tempo que não via sinais de aviões. – Nuno cobriu os olhos com a sombra da sua mão. – Será que descobriram algum combustível alternativo?
- Não me parece. Claramente que os governos, em especial os mais ricos, têm reservas de gasolina para as suas armas mais mortíferas. Estou certo que aquilo é um avião de guerra. – afirmou Jorge, convicto.
- O que andará por aqui a fazer?
Enquanto partilhavam interrogações de nariz no ar não se aperceberam da bicicleta que rapidamente se aproximou galgando o alcatrão. Apenas o som dos travões chiando os fez regressar à terra, surpresos com a presença de Vasco. À surpresa juntaram apreensão quando este partilhou as notícias que trazia.
Continuaram os quatro, agora mais calados e mais alerta.

-Vamos passar a viver no medo?
A pergunta de Luisa caiu na mesa sem qualquer aviso prévio, interrompendo a sopa que todos partilhavam. O seu olhar ansioso fixou o de Luis que não soube o que responder.
- Pergunto se vamos passar a viver no medo?
- Viveremos como decidirmos viver. – Inês soou optimista e segura.
- Neste momento o meu marido e o meu filho estão longe, caminham armados e eu tenho medo. Tenho que viver assim?
- Há dez anos atrás terias medo que tivessem um acidente na estrada e morressem. Que viesse um tipo fora de mão, ou rebentasse um pneu a alta velocidade. E aprendeste a viver com esse medo. Hoje apenas estás perante um medo diferente. Aprende a viver com ele!
O tom ríspido soou igualmente intolerante. Luis olhou surpreso para a sua mulher. Não estava habituado a ouvi-la falar assim.
Mas os olhos húmidos de Luisa prosseguiram.
- Que raio de vida é esta? Cresci num mundo muito melhor e não fui talhada para estes tempos. Estou farta de ter medo. Tive medo em Lisboa. Corrijo. Estive aterrorizada em Lisboa. Foi aterrorizada que vim para aqui. E neste sítio encontrei calma e paz entre plantas e bichos. Até que toda esta dinâmica e conversas de armas me devolveram o medo
“Tenho medo pelo Nuno, pelo Vasco, que andam por aí em busca de madeira. Tenho medo por nós, - continuou olhando em redor, e reconhecendo nos olhos de Susana uma perfeita empatia com aquilo que dizia, - aqui confinados num monte onde poderemos ser uma fonte de cobiça. Tenho medo por ser a única pessoa a falar nisto.
- Tem calma, Luisa. – o tom de Luis foi igualmente firme. – Durante anos houve gente a morar em montes alentejanos. Velhos e novos, depois da venda da cortiça, ou às vezes mesmo sem qualquer dinheiro, foram roubados, violados, maltratados.
“Durante anos gente morreu na cidade. Ao arrepio de polícias e vizinhos próximos, os jornais noticiavam homicídios, violações, roubos, incêndios, derrocadas.
“Que consolo tinhas então? Saber que se os criminosos fossem apanhados iam malhar com os ossos na prisão? Triste consolo para a vítima. Mas era assim a sociedade. Era assim o mundo melhor em que cresceste. Hoje já não há tribunais. Nem cadeia. Nem polícias. Só podes contar contigo e com os teus. Ser justa mas implacável. Amiga mas cautelosa. E se necessário lutar e defenderes-te. Defenderes o que é teu. – a emoção cresceu na voz de Luis e as palavras ficaram mais contundentes.
“O que resta da nação é um território anarca. Cada grupo, cada gang, organiza-se como entende. Certamente terás democracias, ditaduras, oligarquias, tiranias, matriarcados, triunviratos ou simplesmente hordas selvagens que se submetem ao macho dominante, sempre a ter que resistir ao ataque de pretendentes àquele estatuto.
“Por isso, Luisa, pega no teu medo e faz qualquer coisa com ele, em vez de te lamentares do que tens. Estás inserida num grupo, numa comunidade que vive segundo as regras de convivência de um grupo de amigos com interesses comuns a viver na mesma casa. Entre nós tens que estar segura. Connosco tens que te sentir segura. Porque isto é o melhor que tens, que poderás ter nos dias de hoje.
“Ao invés de partilhares a tua insegurança, com ela contaminando o grupo, acredita nele e a todos nós vem buscar forças para vencer os teus medos.
“O teu filho e o teu marido estão acompanhados por outros dois homens. Estão armados... e o Vasco é o melhor atirador com caçadeira que alguma vez vi. O Nuno sabe disparar uma pistola com segurança e tem um claro discernimento e ponderação. Que mais poderei dizer-te?
“Algo poderá correr mal com eles? Sim. Poderá. Poderá sempre. Até aqui em casa. Mas se me perguntares se lhe vai acontecer algo, a resposta afina pelo diapasão das possibilidades, que são muito pequenas.
O silêncio que se seguiu registou o eco das últimas palavras, à medida que eram rechaçadas ao longo das paredes. À mesa todas as mulheres olhavam a cabeceira onde Luis se sentava, e fixavam os seus olhos emocionados. Rapidamente, como num jogo de ténis, olharam Luisa, na outra ponta da mesa à espera da resposta que nunca aconteceu. Perderam-se então na comida todos os olhares algo embaraçados à espera que se quebrasse a tensão acumulada. Mesmo quando a colher de Luis regressou ao vaivém da tigela à boca o silêncio incómodo pediu para ser rasgado.
- Passam-me uma fatia de pão, se faz favor? – pediu Filipa. Pedro fez-lhe chegar o pão e ela disse, - Já agora, podiam tentar ser menos sérios e mais amigos?
Um riso leve contagiou toda a gente. Alguém introduziu logo um novo tema. A conversa regressou.
(continua)

5.12.08

Desertos (XVII)

(continuação)
16
DESGASTE

Durante uma semana Nuno ficou na cama por causa das feridas na perna esquerda e nas mãos, que precisaram de ser suturadas. Eram as únicas que inspiravam cuidados e graças à atenção da sua mãe não infectaram como seria de espera, provenientes que foram de dentes conspurcados de animais em estado selvagem.
Por duas vezes nesse período Susana descobriu minutos de solidão na pequena casa e visitou-o para juntos encontrarem o conforto que apenas recebiam um do outro. Aquilo que começara como uma aventura excitante e proibida tornou-se, no espaço de uma semana, numa preocupante relação.

- A nossa qualidade de vida está a enfrentar um desgaste notório. – A constatação partiu de Luisa, em conversa com os donos do Monte das Murtas. O dia estava frio, como se via pelo vapor que se condensava enquanto respiravam, e volta e meia grossas gotas precipitavam-se num aguaceiro curto mas feroz. Estavam sentados junto do que restava do alpendre original, ora nele se abrigando da chuva ora dele saindo para o sol da manhã, incapaz de aquecer mais para além de um morno aconchego.
- Não estávamos preparados para tanta gente.
- Preocupa-me essencialmente a higiene. Já não temos papel higiénico. Há dias que a fossa se queixa de tanta emissão. Temo que quando o calor voltar o cheiro dentro de casa se torne insuportável.
- Isso arranja-se. Será, literalmente, um trabalho de merda, - Luis riu, - mas poderemos aumentar a fossa. Ou fazer uma nova fossa para uma segunda casa-de-banho exterior.
- Óptimo! Isso é coisa para os homens tratarem logo que possam. Não peçam ajuda, está bem? – disse sorrindo – Mas há outras questões a assombrar o meu pensamento. Que vamos nós fazer?
- Como assim? – interrogou Inês.
- O que vamos nós fazer? – repetiu – Da nossa vida? É isto. Só isto? Trabalhamos para comer e aproveitamos uns bocadinhos de lazer? Talvez os mais velhos como nós se satisfaçam, mas e os outros? O Nuno, as miúdas da Rita... mesmo a Patrícia, ainda tão nova... Contentar-se-ão eles com isto?
- Acho que estou a chegar ao que tu queres dizer? Ficámos reduzidos a este horizonte?
- É isso mesmo, Luis. Eles não podem ter vida própria, crescer, amar, vencer, se não tiverem ao seu dispor desafios. E se assim não crescerem nunca se tornarão independentes. Ou relacionarão com outras pessoas.
- Preocupa-te o Nuno, não é?
- Sinto-o crescer. Tornar-se homem. E não há aqui ninguém da idade dele. Outro rapaz com quem partilhar as dores de crescimento. Outra mulher pela qual se possa apaixonar. O que vamos fazer? “Casá-lo” desde já com uma das miúdas e esperar que ela cresça durante dez anos? Meu Deus, seguramente não demos um passo atrás tão gritante.
- Curiosas são as dores de mãe. Há uns anos atrás as tuas preocupações seriam exactamente as contrárias. Quererias conhecer os amigos e namoradas do miúdo, e estar sempre presente, temendo o momento em que ele perderia a virgindade com “uma qualquer”. Olharias de lado as miúdas em biquini de riso largo e ar experiente com quem ele convivesse na praia e de cada vez que ele pedisse para ir acampar ou dormir em casa de outro colega aceitarias com relutância sofrendo durante a sua ausência.
“Hoje preocupas-te por ele não ter uma mulher ou sequer a hipótese da escolher.
- Pois é, Luis, os temores do meu filho adolescente são certamente diferentes daqueles que tiveste há trinta anos.
- E que riscos há nisso? – questionou Inês – Poderá o Nuno ficar psicótico?
- Pior que isso. Poderá querer sair daqui, partir em busca do desafio, de gente desconhecida, de outros horizontes.
- Os tempos são outros, mas sempre as crias abandonarão o ninho e as mães terão dificuldade em abrir mão delas. – Inês sacudiu a cabeça abanando os cabelos castanhos. Ali encostada ao pilar do alpendre, com a luz a reflectir-se na sua pele clareada pelo Inverno, revelava o lado mais sensual do seu metro e setenta. As pernas compridas, magras, escondiam-se nas calças que revelavam as ancas largas. Apesar dos agasalhos era notório o seu busto arredondado, contrastando com a magreza do pescoço e da face. A boca grande de lábios finos fugia muitas vezes num esgar para a esquerda, mesmo quando sorria. As sobrancelhas fortes acentuavam a autoridade do rosto, bonito e simpático.
- Mas para além disso há outras coisas. – continuou Luisa, -As famílias, mesmo as numerosas, têm mecanismos de sangue que lhes permitem superar os atritos. E ainda assim podem ser implacáveis, intolerantes, cruéis. Nós já começamos a abalar com a pressão. Já notaram o aumento das discussões?
- Como assim? – o olhar inquisidor de Luis mostrava pela primeira vez durante aquela conversa que estava surpreendido.
- Desde o fim do Verão, com o começo das chuvas, do pousio, temos menor actividade com que ocupar os nossos tempos e aumentado o período de permanência dentro de casa. A casa é muito pequena para tanta gente. Não há privacidade, e isso nota-se no estado de irritabilidade que cada um demonstra.
“Mesmo vocês os dois... Já vos vi a discutir duas vezes esta semana e sempre por causa de ninharias.
- Bom, não é bem assim...
- É sim, Luis, - interrompeu Inês, - por acaso até é. Discutimos por causa da identidade de uma actriz num filme, e estivemos a discutir por causa da arrumação da cozinha.
- Mas vocês superaram bem isso. Vão superando mas garanto-vos que vão acumulando também o respectivo desgaste. Já o Jorge e a Susana vão bem pior.
- Vão?
- É típico dos homens não se aperceberem. A Inês decerto já apanhou isto, não? – continuou enquanto Inês anuía com um gesto de cabeça. – Eles não gritam. Mas são bravos na argumentação. Azedos, agressivos, mesquinhos como só quem está perturbado o pode ser. É da pressão claustrofóbica. E não vejo futuro brilhante para aqueles dois.
“E depois temos o Pedro...tenho-o visto com uma daquelas neuras.
- Eh, pá... quem te ouvir julgará que estamos à beira do colapso nervoso.
- E se calhar até estamos. Ou então sou eu que me sinto presa a este reduzido universo.
- Deixa estar, Luisa, que agora fiquei com umas ideias. Tens razão quando dizes que o nosso mundo é muito pequeno. Precisamos do alargar. E precisamos de nos ocupar e expandir. Vou pensar no assunto e hoje, à hora do jantar, discutiremos algumas propostas.

Nesse dia, à volta de bifes de porco e batatas, Luis expôs delicadamente e sem personalizar as dificuldades que encaravam enquanto comunidade. Dando a todos a oportunidade de se pronunciarem, propôs objectivos para criar trabalho, ocupação e aumentar as perspectivas de intimidade.
Iriam projectar e construir novas casas, pequenas unidades habitacionais para cada núcleo familiar. Assim conseguiriam dormir fora da casa principal apesar de a esta terem que regressar para as refeições por não haver condições para construir novas cozinhas. Também a sala de estar comum manter-se-ia na casa grande, restando-se as novas habitações por um pequeno quarto com espaço para arrumos e antecâmara que permitiriam a cada um encontrar o seu espaço privado.
Para tal empreendimento seria necessário recuperar material de outras casas abandonadas, como madeira, janelas, portas, telhas, fios eléctricos e mobiliário.
Também iriam em busca de loiças para construir uma segunda casa-de-banho autónoma, para a qual seria construída nova fossa.
Todo o planeamento deveria ser exaustivo e cuidadoso, pois que teriam que sair em busca do material. Desta vez a obra era demasiado alargada para optar pela construção em adobe, pelo que teriam que pensar em madeira e muita, para erguer as novas casas.
Enquanto a ideia entusiasmava todo o grupo, foi igualmente proposto que se visitasse o Monte Branco para saber se Horácio Sousa e os seus seguidores se tinham instalado e avaliar as possibilidades de relacionamento futuro.
E já que iriam a Estremoz em busca de matéria-prima, aí tentariam recolher novas do estado do país.
A reunião prolongou-se por horas de excitação na perspectiva de construir algo de novo, de crescer e fugir ao marasmo em que tinham entrado. Ao adormecer todos, sem excepção, sonharam com um novo mundo parecido com aquele que o passado ora guardava.
(continua)

4.12.08

Desertos (XVI)

(continuação)
15
LATIDOS

A chuva caiu durante uma semana sem parar, sem tréguas. Sem tréguas também se mantiveram os habitantes do Monte das Murtas, com um rígido esquema de vigilância com turnos de duas horas, acompanhados pelos incansáveis rafeiros alentejanos. Os cães perceberam o seu papel e nunca mais se afastaram da casa. Mesmo a dormir uma orelha acompanhava todos os sons. À menor suspeita levantavam-se, concentravam-se e, por vezes, ladravam um aviso.
Durante uma semana esperaram que aparecesse alguém do grupo de Horácio Sousa. Mas ninguém subiu o estradão enlameado. Ninguém calcorreou os campos em redor. Aos poucos retomaram o ritmo das tarefas relaxando no sobressalto.
Luis, desconfiado, propôs uma ida ao Monte Branco para saber dos visitantes. Mas foi desencorajado pelo bom-senso que lhe revelaram: se eles por lá ficaram e ainda não apareceram é porque querem ficar sozinhos, disseram-lhe. O argumento era tão válido que acatou a recomendação.
Estavam em finais de Outubro e, assim que a chuva parou, o frio acomodou-se e passou a cobrir as madrugadas de branco. Num desses dias coube a Rita levar as ovelhas à procura de pasto.
O sol brilhava no imaculado céu azul, mas pouco conseguia fazer para aquecer o ar que corria montado num cortante vento gelado. Animado de boa vontade, e farto que estava de nesse dia estar parado, Nuno ofereceu-se após o almoço para a ir procurar com um termo cheio de chá quente.
Antes de sair procurou Rita pelo intercomunicador, pelo que rapidamente a descobriu após uma curta caminhada. Aproveitou como farol os balidos das ovelhas que estavam estranhamente agitadas, apercebendo-se da razão logo que encontrou o pequeno rebanho. A mulher e os animais estavam em apuros pelo que largou a correr em seu auxílio sem sequer pensar.
À volta do pequeno rebanho, oito ou nove cães de pêlo sujo e dente arreganhado apontavam aos lãzudos ovinos. Juntos destes Rita segurava o cajado com as duas mãos como se de um taco de basebol se tratasse.
Imprudentemente, na sua corrida Nuno desatou aos berros captando a atenção dos animais selvagens que por momentos se distraíram das suas presas. Num primeiro momento, inseguros, os cães recuaram ladrando e rosnando, permitindo a Nuno juntar-se a Rita.
- Estás bem?
- Por enquanto. Vamos embora daqui?
- Já pediste ajuda pelo rádio?
- Não... quando apareceram assustei-me e deixei-o cair quando o queria ligar. Nem sei onde está.
- Então vamos tentar sair daqui, mas com calma, a ver se eles nos deixam.
- Não sabia que havia lobos assim.
- Não são lobos, são cães selvagens. Ou antes, que se tornaram selvagens quando foram abandonados pelos seus donos. Quando se foram embora deixaram-nos para trás e eles juntaram-se em matilha. Vivem no mato, morrem muitos, mas sobrevivem os mais fortes. E num instante se tornam selvagens. O Marvão não estava contigo?
- Não. Hoje não trouxe nenhum dos cães. Como não ia para muito longe... Vamos voltar?
- Tentemos. Dá-me o teu cajado.
Ao primeiro chamamento as ovelhas assustadas responderam de imediato arrancando para casa. Porém, de imediato aumentaram os latidos e os cães, que se tinham reorganizado, por certo decidiram que compensaria tentar o ataque. Vinham agora todos juntos, por trás, decididos a apanhar uma vítima.
- Continua a correr e a chamar as ovelhas. – gritou Nuno.
- O que é que vais fazer?
- Vou fazê-los parar.
Ao verem Nuno parado, de cajado erguido, confrontando-os os cães voltaram a hesitar e pararam. A medo foram fazendo pequenos avanços.
Nuno quedou-se imóvel, calculando o tamanho do cajado e procurando o macho alfa da matilha. Era notório que um dos cães, um castanho de pêlo comprido, era o comandante das tropas caninas, pois avançava primeiro e mais que os outros, mostrando-se mais forte e afoito.
O cajado voou no espaço com um movimento circular rápido e preciso, atingindo o focinho do cão castanho. A pancada, forte e vibrante, rasgou um lenho na cabeça do bicho que ganiu aflito de dor e surpresa, incapaz que fora de se desviar a tempo. Todos os outros ladraram em sua defesa mas não ousaram avançar.
Nuno recuou. Sempre sem virar as costas à matilha foi caminhando às arrecuas para o monte. Por cima do ombro viu Rita ganhar um confortável avanço com as ovelhas trotando a seu lado em direcção aos curros. Porém, recuar foi visto por dois dos cães como um sinal de insegurança, pelo que logo se aproximaram.
Nuno escolheu o maior e desferiu nova pancada. Mais latidos e sangue. Mas como o cajado teve que abrandar o seu movimento, o outro cão abocanhou-o e puxou-o. Com um esticão Nuno reaveu o pau, mas então pensou que tudo aquilo tinha sido uma má ideia.
Cansados dos insucessos, mas crentes da fragilidade do oponente os cães decidiram avançar todos ao mesmo tempo. Abocanharam-lhe as calças, as pernas, e tentaram derrubá-lo enfrentando o pau que Nuno agitava vigorosamente sem cessar desferindo violentas pancadas causando dor e desorientação nos animais. Era, contudo, vã a resistência, porque o número e a determinação dos cães selvagens lograram derrubar o rapaz, avançando imparáveis de dentes arreganhados para a cabeça e o pescoço que Nuno tentou desesperadamente proteger entrelaçando as mãos na nuca e ajoelhando-se todo encolhido.
Os latidos, a saliva, a dor da carne rasgada pararam no instante em que ouviu dois disparos rápidos, um atrás do outro. Nuno ouviu junto a si o som oco do chumbo a embater em duas carcaças que se quedaram de imediato, prontas para morrer. Os cães que sobravam largaram em fuga mas mais três tiros abateram outros tantos canídeos.
Com a arma apontada Vasco não desperdiçara um único cartucho. Célere chegou ao filho que a custo se erguia. Ajudou-o a voltar.

- Lamento, Luisa.
- Mas, de certeza?
- Fizemos tudo o que podíamos, mas já não há como voltar atrás.
- Estou cá faz sete anos.
- O critério de escolha foi esse mesmo: o tempo de serviço neste Hospital. À Luisa calhou a fava. É a última das dispensadas.
- Despedidas.
- Como?
- Despedidas. Usem o raio da palavra. Deixem-se de eufemismos.
- Desculpe... Vai ver que sem dificuldade arranja trabalho noutro hospital, ou numa clínica. Só podemos dar-lhe as melhores referências.
- Que não chegam para me manter a trabalhar. Nos dias de hoje deve haver seguramente muitos hospitais à procura de enfermeiras de bloco operatório. – ironizou.
- Lamento, Luisa.
- Eu também.

- A cada dia que passa sinto que o nosso pequeno paraíso comunitário se vai desfazendo. Primeiro os estranhos. Agora os cães. A chuva e o frio.
- Quanto ao frio e à chuva vais ter que te habituar. Aqui terás sempre pouca Primavera e pouco Outono. Sem aviso, sem preparação saltarás do Verão para o Inverno e vice-versa. É o Alentejo, Mário. Agora quanto ao resto...
- Por este andar temos que construir uma paliçada à volta do monte? Viver numa fortaleza?
Luis respondeu.
- Temos é que aprender a viver com as coisas. A vida nem sempre foi fácil para os homens. Sempre tivemos ameaças naturais. Lobos, outros predadores e rivais sempre estiveram nessa lista. Por isso é que nasceram as comunidades e as armas.
“Nós temos que nos adaptar para estarmos preparados para reagir a estas adversidades. Agora que temos conhecimento de que andam aí estes cães selvagens tomaremos as devidas medidas.
- E fazemos o quê?
- Em primeiro lugar ficamos unidos e alimentamos o espírito de equipa. – Luis apercebeu-se de estar agora a defender o trabalho de grupo, e a confiança na divisão de tarefas. - E usamos as nossas célulazinhas cinzentas para nos acautelarmos, defendermos, dominarmos. Uma paliçada é uma coisa tonta, medieval. Fisicamente falando, porque não só impede o que está lá fora de entrar como dificulta a quem está no interior de sair. E fecharmos os nossos horizontes será sempre um erro. Bastar-nos-á imaginar tal paliçada, construir mentalmente o nosso forte para impedir o perigo de nele entrar. E para isso temos que esquematizar regras, procedimentos e cuidados a cumprir por todos para que, se confiarmos que cada um faz a sua parte, estaremos seguros.
- Infelizmente não fui preparado para isso. Não me sinto à altura do desafio. Já sinto que vou acumulando um desgaste que não é natural, com o qual nunca vivi. Primeiro foi a vida endurecida da cidade, com os cortes, as carências, as necessidades, o horror de não saber o que fazer às miúdas, à Rita. Como as proteger? Sabia apenas que as minhas filhas nunca iriam gozar aquilo que eu gozei quando era criança, quando cresci.
“Os pais esperam sempre poder dar aos filhos mais do que aquilo que tiveram. Deve ser um atavismo do melhoramento da espécie, por isso é duro ver que vivemos um pico e que estamos em descida, em queda livre, e que apenas o precipício temos para oferecer aos nossos filhos.
- Tens razão. – concordou Luis encolhendo os largos ombros.
- Depois foi a decisão de vir para tua casa e o horror, o desgaste, o stress, a insegurança de toda a viagem. E aqui toda uma vida de trabalho que vai para além dos limites do meu ser, pois que nas minhas obras não era quem fazia o esforço físico. Eu era o general das tropas, mandava e desmandava. Nada como aqui. Mas enquanto tinha paz de espírito e a ilusão da segurança ainda tolerava este cansaço. Neste momento sinto o desgaste acumulado como se me tivesse atingido um malho.
- Quando estive na Marinha fiz recruta e dei recruta. Se uma coisa aprendi nessas experiências foi a conhecer os limites do meu corpo e da minha mente. Estão muito, mas mesmo muito para além daquilo que imaginava. E não apenas eu. Todos os meus camaradas, todos os meus praças descobriram a mesma coisa.
“Dias a fio de marcha, de stress induzido pela incerteza, pela insegurança, pelo perigo, a fome e a sede... A dada altura pensamos que chega, que não queremos mais, que não podemos mais. Só que depois... – fez uma pausa e continuou abrindo muito os olhos cinzentos, - depois somos forçados a arrancar de novo, a socorrer o camarada que ainda está pior que nós, aquele que precisa de nós, e quando damos por isso ultrapassámos aquele cume que julgáramos inultrapassável. E continuamos. Até ao novo desânimo, ao novo cume. Que voltamos a passar. E de novo. E de novo.
“A certa altura olhamos para trás e somamos o que já fizemos. Olhamos para o nosso corpo e vemos o que lhe aconteceu, aquilo a que foi sujeito. Miramos os nossos camaradas e revemo-nos. E, caramba, é então que nos apercebemos de que já aguentámos muito, muito mais do que julgávamos possível, mesmo nas nossas estimativas mais optimistas.
- Eu já fui para além das minhas expectativas.
- Mas podes ir, e seguramente irás, muito mais. Basta-te ter a motivação certa, e tu tens. Tens as tuas filhas, a tua mulher. Por elas farás tanto, muito mais do que aquilo que farias apenas por ti. No mar, deixar-te-ias ir ao fundo. Mas por elas até com as orelhas nadavas para as poderes segurar e salvar.
“Por isso, venham cães ou bandidos, tu estarás aqui com uma caçadeira nas mãos, ou uma pistola, ou um pau, uma pedra para lutar por elas. Mesmo que não durmas há uma semana. Que não comas há uma semana. E serás um verdadeiro animal de batalha.
“Agora, por favor, não mostres esse desânimo às tuas filhas. Elas precisam de um pai rochedo para aguentar os dias maus como o de hoje. Precisam de um pai e de uma mãe que lhes dê a segurança de um porto de abrigo ao qual podem recolher para escapar às tempestades.
(continua)

3.12.08

Desertos (XV)

(continuação)
14
SOLIDARIEDADE

Debaixo da oliveira Vasco e Luis contemplavam o grupo que se aproximava pelo estradão enlameado. A chuva continuava a cair, gotas leves mas constantes num sombrio final de tarde. Jorge aproximou-se deles e Luis aproveitou para avisar todos os outros.
- Não venha mais gente para aqui. Não quero que saibam quantos somos. Nuno! – chamou.
- Sim?
- Vai buscar a outra Glock, e fica com ela dentro de casa.
- Glock? – perguntou Jorge.
- Vejo que vários deles vêm armados. Pelo menos cinco armas compridas.
- Quatro caçadeiras e uma carabina. – completou Vasco.
- Glock?
- Eles são... vinte e um.
- Nós temos Glocks?
- Sim. – respondeu Luis. – Parecem apenas um grupo a viajar para o interior ou para a cidade. Têm mulheres e crianças...
- O que diabo andam então a fazer para estes lados? Porque vieram directamente para o nosso monte? – interrogou-se Vasco sem esperar qualquer resposta.
- Oiçam lá, como é que temos pistolas?
- Temos, e pronto, Jorge. Agora isso não interessa nada.
- Mas porque entregas uma arma o Nuno que ainda é um miúdo. Devias dá-la antes a mim que sou...
- A pistola fica com o Nuno e isso não está aberto a discussão.
- Mas...
- Jorge, eu sei o que o Nuno pode fazer com a pistola. Fui eu quem o ensinou, entendido. – o tom de irritação exibido foi determinante.
- Pronto, pronto... Só queria ajudar.
- Vamos deixá-los vir cá acima?
- Tens razão, Vasco, é melhor não. Eu vou ter com eles a meio do caminho e dizer-lhes que têm que voltar para trás. Jorge...
- Sim?
- Vai lá dentro e arranja um saco com pão, leite, ovos e vegetais. Sê generoso que eles são muitos. Mas não metas carne alguma, está bem? Depois ficas preparado para descer com isso se eu te fizer um sinal, de acordo?
- Certo. – concordou abalando para casa.
- Achas seguro, Luis?
- Não sei. Pessoas cansadas, com fome e frio, com crianças para defender podem ser perigosas e insensatas. É melhor pensarmos bem no que vamos fazer.
- Eu aqui de cima não te posso ajudar. Estarei muito longe.
- Temos que nos decidir. Em cinco minutos chegam aqui.
- Se descer contigo posso parar naqueles dois chaparros além. Dali já posso fazer-te cobertura. Mas também não acho que tenhamos problemas. Eles têm as crianças com eles e não têm qualquer abrigo. E avançam a peito descoberto, sem mostrar reservas ou agressividade.
- Está bem, vamos a isso. Mas mantém-te alerta.
“Inês! – chamou.
- Diz. – a sua mulher aproximou-se rápido.
- Eu e o Vasco vamos descer. Ele dá-me apoio e eu vou tentar correr com eles. Nada correrá mal mas, pelo sim pelo não, já sabes que se houver sarilhos...
- Cala-te!, não vai...
- Cala-te tu. Se houver sarilhos vais buscar as G-3. Dá uma ao Pedro. Ele fez a tropa quando era novo e ainda deve saber disparar aquilo. A outra ao Jorge, que está desejoso de mostrar que também pode ser útil a defender o grupo.
“Que porra! – desabafou. – Eu levo um comunicador e deixo-o em via aberta para ti. Fica atenta.
Dito isto deu-lhe um leve beijo e arrancou a passo largo pela lama do caminho. Vasco seguiu-o logo atrás.

À frente do numeroso grupo seguiam dois homens barbudos. Um aparentava ser o mais velho e provavelmente o patriarca do clã. Acompanhava-o um rapaz que pelos traços fisionómicos aparentava ser o seu filho, o seu delfim.
O grupo, com ar sujo, ensopado, tinha sete mulheres e cinco crianças, uma delas de colo. Entre os homens, dois eram jovens adolescentes. Caminhavam agrupados, estando os indivíduos armados colocados em redor do grupo numa clara malha defensiva, carregando as espingardas ao ombro.
Luis avançou o mais que pôde e parou no estradão, claramente dirigido ao patriarca, homem com uns sessenta anos mas sem indícios de velhice. Todo o grupo que o acompanhava parou. Enquanto os homens armados perscrutavam tudo à volta certificando-se da segurança dos seus o velho e o filho esgotaram a distância que os separava de Luis.
- Boa tarde. O meu nome é Horácio. Horácio Sousa. – disse estendendo a mão.
- Luis. – respondeu retribuindo o cumprimento.
- Este é o meu filho, João Sousa.
Apertaram as mãos. Fez-se silêncio. A bola estava do lado de Horácio Sousa que, após breve hesitação, falou.
- Vimos de Setúbal. Desistimos da cidade. Podemos ficar por aqui uns dias?
- Não me leve a mal, mas estamos um pouco cheios demais.
- Nós acampamos num canto qualquer.
- Pois... Posso fazer uma sugestão?
- Diga.
- Voltem atrás até à estrada. Virem para Estremoz. Três quilómetros depois há um caminho igual a este, mas do lado direito. Se o seguirem vão dar ao Monte Branco. Ainda deve ter uma tabuleta junto à velha caixa do correio. Está abandonado mas em condições. Fiquem por lá o tempo que quiserem. Tem um poço, uma casa, um telhado. Tem um grande armazém.
- Obrigado pela sugestão, mas compreenda... estamos esfomeados, cansados, ensopados. É quase noite. Mais três quilómetros para chegar a um sítio desconhecido...
- Lamento..., mas repito que não cabem neste monte. Podemos dar-vos alguma da nossa comida. É o mínimo que nos é exigido. Aliás, bastava pedi-la.
Um pouco de embaraço cruzou o olhar de Horácio Sousa.
- Peço desculpa pelo Toninho. Ontem pedimos ao rapaz para ver se havia lugar para ficarmos para este lado e o sacana foi logo roubar-vos uma galinha. Garanto que levou um sopapo. Apesar de tudo aquilo por que já passámos não é por isso que nos vamos tornar ladrões.
- Esqueça lá isso. – dito isto voltou-se para trás e fez um gesto com o braço para Jorge que já o aguardava no início da descida. Depois continuou.
- Espero que compreenda. Nos dias de hoje temos que ser cautelosos. Assim como vocês o são, a ver pelos vossos homens armados. Num monte aqui próximo mataram um casal de velhotes nosso amigo. E aqui no Monte das Murtas já temos muita gente. Não temos condições para fundar uma vila.
- Compreendo.
- Mas, se porventura decidirem ficar no Monte Branco, avisem. Podemos ajudar-vos nas primeiras plantações. Dicas e sementes, percebe?
- Obrigado.
- Mas, Pai... – falou João Sousa pela primeira vez denunciando inconformar-se com a posição de Luis.
- Cala-te! – cortou brusca e secamente Horácio Sousa. Não houve resposta, apenas obediência.
Em silêncio viram Jorge aproximar-se rápido com dois sacos pesados.
- Boa tarde. Aqui têm.
- Obrigado. – agradeceu Luis pegando nos sacos. – Agora recua para junto da Inês, por favor. – sussurrou.
Enquanto Jorge regressava, ofereceu os sacos ao grupo que aparecera sem convite.
- Levem isto. Leite, ovos, vegetais, pão. Dará para alguns dias.
- Obrigado, não vos incomodaremos mais. – com um aceno de cabeça indicou ao filho para pegar nos sacos. Este assim fez, murmurando um amargo “obrigado”, e recuou.
Depois de um “até qualquer dia”, também Horácio Sousa virou costas e se encaminhou para o grupo, dando instruções para retirar. Expressões de desânimo ouviram-se entre os caminhantes. Uma ordem seca do patriarca fez todos recuar. Porém, várias vozes discutiam a sua decisão.
Luis permaneceu no caminho. A chuva engrossava. Vasco juntou-se-lhe.
-Então?
- Talvez esteja tudo bem. Talvez. - Concluiu com esperança.
(continua)

2.12.08

Desertos (XIV)

(continuação)
13
PILHA-GALINHAS

Aos poucos Susana e Patrícia desenvolveram cumplicidades que as aproximaram, sendo frequentes as situações em que se juntavam para passar os poucos tempos livres que desencantavam. Num desses dias de frio seco do final de Outubro, Susana estava estacada ao sol, afastada da casa, olhando a calma superfície de água, na qual se vislumbravam os efeitos do suave vento que soprava inconstante. Era um vento gelado que queimava o nariz e as orelhas e convidava ao movimento. Porém, quando Patrícia se aproximou, encontrou uma estátua ameaçando congelar.
- Queres ficar uma pedra de gelo?
- Gosto do frio. Gosto de estar ao sol sem que este me consiga aquecer. Gosto deste ventinho cortante. E gosto da calma que sinto aqui, a olhar para esta massa de água.
- O que é que se passa contigo?
- Nada. Porque haveria de passar alguma coisa?
- Estás muito virada para dentro. Alguma coisa se passa que te faz ficar assim.
- Nada. Gosto disto.
- O que é que se passa entre ti e o Jorge?
- Porque insistes?
- Porque sou chata. E porque sei que algo não vai bem entre vocês os dois. Vejo-o com tanta clareza.
- O que queres que te diga? Que estamos zangados? Estamos. Nem tudo está bem.
- O que foi?
- Pouco está bem. Acho que o Jorge... que eu... nós não lidámos bem com esta vinda para aqui, com a falta de privacidade, com o facto de estarmos juntos a toda a hora.
- Se é só isso.
- Não é só isso. Aos pouco vou conhecendo-o melhor, e estou a descobrir uma pessoa demasiado complexa para conseguir lidar com ela. O Jorge não é fácil e eu também não.
Patrícia absteve-se de responder, convidando ao desabafo com o olhar. A luz do meio-dia ainda era amarela e fazia brilhar os seus louros cabelos. Enrolada em roupa Susana continuou, mantendo as mãos enfiadas nos bolsos e os ombros encolhidos.
- Quando estávamos em Lisboa, estávamos sozinhos. Eu dependia totalmente do Jorge, incapaz que me sentia sequer de me aventurar fora de portas. Ele sabia-se o meu protector e desempenhava o seu papel na perfeição. Agradecida eu via nele uma luz que se esbateu aqui neste monte.
“Aqui estou rodeada de gente boa, que não me atemoriza, e que conta comigo também. Aqui tenho um papel, estou integrada em algo mais amplo e sinto-me útil. Não preciso da protecção do Jorge como em Lisboa. Ele percebeu isso e agora há um conflito entre a sua necessidade de ser o protector e o meu desejo de autonomia. Há alturas em que o Jorge me abafa.
- Seguramente que com o tempo isso pode adaptar-se.
- Pois, só que agora nem tenho a compensação física. Adorava fazer amor com o Jorge e desde que aqui chegámos que isso não acontece. O nosso quarto só tem um beliche e ele range mais que uma locomotiva velha. E o Jorge tem estado... não sei... qualquer coisa aqui retirou-lhe o desejo.
- Caramba... aqui à volta há mil e um sítios onde podem ter privacidade. Agora de Inverno é mais difícil, mas no calor do Verão...
- Acho que o Jorge perdeu o domínio. Aqui já viu que quem manda é o Luis e que o Vasco é o seu lugar-tenente. Deve ser uma coisa daquelas dos machos alfa, ou assim.
- Então ele precisa de sentir o contrário. Precisa que a fêmea solte o animal que há nele. – o sorriso de Patrícia era maroto.
- Mas esta fêmea não está com muita vontade de fazê-lo.
- Não sei porquê. O Jorge é giro e, desculpa-me que to diga, é o único homem que aqui me convenceria a fazer o que quer que fosse.
Susana riu.
- Pois isso acontece... compreendo-te. Mas para além daquilo que vês há perturbações que ficam escondidas. Já não tenho paciência para elas. Preciso de algo mais simples. Ao pé do Jorge sinto-me muitas vezes velha, acabada.
- Então não sei o que te diga. Se pões um fim na relação vai desequilibrar tudo o que está tão arrumadinho neste grupo. A única solteira aqui sou eu, tirando as menores de idade. E solteiro, maior, só um homem que não olha para nós com qualquer interesse.
Um sorriso passou nos lábios de Susana no exacto momento em que se sentiu preparada para revelar o seu segredo.
- Há ainda o Nuno.
- O rapaz tem dezassete anos.
- Está quase nos dezoito. E hás-de concordar que por força das nossas circunstâncias de vida e da responsabilidade que abraçou, o Nuno tem amadurecido depressa e bem.
- E o que vais fazer? Atirares-te a ele?
A pausa sorrida disse tudo sem palavras.
- O que é que já fizeste?
Mordendo o lábio inferior, Susana ergueu as sobrancelhas e respondeu com um sorriso.
- “O que é que nós fizemos”, seria a pergunta. Sim. Fizemo-lo. Mas por favor...isso não se pode sequer sonhar.
- Mas como? Quando?
- No dia da vindima. Sem querer entrou na casa-de-banho estava eu a secar-me. E naquele momento... nem sei. Tomei a iniciativa e tudo aconteceu ali no chão.
- Tu és doida! Como é que?... Então e depois?
- Depois nada. Nem sequer dissemos nada. Quando acabámos pus o dedo à frente dos lábios e disse “Shhh”. Voltei para o duche e quando saí já ele lá não estava. Desde então temos estado..., cúmplices no silêncio.
- E agora?
- Agora não sei. O Nuno fez-me sentir desejada e sentir bem. Gostei do que fizemos, mas não sei se alguma vez poderemos ir mais além disto. Contudo, esta noção de que o mundo não congelou, que as relações ainda estão em condições de evoluir, modificar, faz-me pensar seriamente no que estou a fazer com o Jorge.
- Olha, amiga, o que te posso dizer é que tens muito mais sorte do que eu. E também te posso dizer que nem sinto o rabo de tanto frio que está aqui em cima. E se descêssemos para um chá?
Com um aceno Susana agarrou no braço de Patrícia e começaram a descer da pequena elevação em direcção ao barracão dos animais. Ao longe o vento empurrava nuvens negras que ameaçavam estragar a hora do jantar. Já perto da edificação ambas escutaram o alvoroço das galinhas aparentemente perturbadas e mais ruidosas que o habitual. Curiosas, decidiram ir espreitar.
Ao virar a esquina para a porta principal do barracão viram o vulto semi-curvado de escuro vestido. Alguém com uma camisola com capuz, que lhe cobria a cabeça, de roupa esfarrapada e suja punha-se em fuga com uma galinha inerte na mão, morta com o pescoço torcido.
Era um rapaz novo, que as sentiu e espreitou sobre o ombro quando começou a correr, deixando entrever umas grossas sobrancelhas e brilhantes olhos negros. Antes que conseguissem reagir já ele estava distante.
- EH!, volta aqui! Essa galinha é nossa!
- Agarra o gajo! Ladrão! Ladrão! – gritaram repetidamente.
O alarme chegou à casa e Luis foi o primeiro a sair, correndo na sua direcção.
- Luis, estava um gajo a roubar galinhas. Foi para ali! – apontou Patrícia.
Luis desviou a sua rota correndo na direcção indicada. Pelo caminho agarrou numa enxada desarrumada junto de um dos bebedouros do exterior. Desapareceu na primeira descida para voltar minutos mais tarde.
- Incrível..., mas mesmo com este horizonte com pouco relevo já não vi ninguém. Ou ele era muito rápido ou desapareceu no ar.
- Que idade tinha o sacana? – perguntou Jorge.
- Era mais novo que nós.
- E estava sozinho?
- Não vi mais ninguém. - voltou a responder Susana.
Naquele dia coubera a Nuno levar as ovelhas à procura dos verdes rebentos de pasto que floresceram às primeiras chuvas. Aproveitando o dia solarengo, Nuno afastava-se o mais que podia para preservar o pasto mais próximo para dias mais difíceis.
- O melhor é chamar o Nuno. – alvitrou Luisa.
- É melhor, é... Eu vou ao rádio.
- Ele não o levou hoje, - adiantou-se Inês, - porque ontem esqueceram-se do meter a recarregar e por isso não o quis levar.
- Então vou ter com ele. – decidiu Vasco.
Quando Inês e Luis se mudaram para o monte rapidamente se aperceberam das novas dimensões da sua vida, pelo que frequentemente se chamavam por telemóvel. Como tal não fazia sentido algum, compraram uns intercomunicadores recarregáveis que ainda duravam nos dias de hoje, e eram usados por quem mais se afastava da casa.
- Pelo sim pelo não leva a caçadeira.
- Bolas, Luis, lá estás tu com a merda das armas. – Disparou Rita. – Parece que queres resolver tudo a ferro e fogo.
- Não quero resolver nada, mas prevenir tudo.
Não chegou a ter resposta porque Vasco, muito rapidamente, tinha entrado na casa e saído com a arma na mão e partido a passos largos na direcção do minúsculo rebanho.
- Se calhar era melhor contar à Rita e a todos os outros o porquê dessas tuas cautelas com a caçadeira.
O olhar de Luis para Inês transmitiu o assentimento com a ideia. Reforçou o acordo:
- Para que não pensem que sou um pistoleiro, aproveito então para vos contar a história de Ti’ Zé e Ti’ Francisca.
À sua volta apertaram-se os restantes companheiros. As folhas das árvores agitaram-se com uma súbita rajada de vento, e o sol envergonhou-se com uma nuvem.
- Vocês ainda não tinham chegado. Só a Luisa, o Vasco e o Nuno estavam cá connosco...

Vasco sentiu a coronha firmemente pressionada de encontro ao ombro, por si abraçada como se fosse uma extensão natural do seu corpo. A mão esquerda sustentava a empunhadura de madeira fina e leve. A mão direita apontava todo o instrumento, enquanto o dedo indicador dominava o gatilho.
Alheou-se de tudo o mais à sua volta. Não ouviu nada nem ninguém. Não ouviu o vento, apesar do sentir e saber no seu íntimo de onde vinha, com que força, como iria influenciar o disparo.
- Vai! – foi a curta e seca expressão de comando, um baixo grito que deu a ordem para despoletar uma sequência de tiro.
Sucessivamente duas fortes molas responderam à sua direita. O cano da caçadeira elevou-se captando imediatamente os dois discos laranja que cruzavam o horizonte. Seguiu-os por ínfimos instantes e libertou duas descargas de chumbo.
As duas nuvens de pó alaranjado eram sinónimo de sucesso. Relaxou e ouviu o entusiasmo da audiência. Naquele dia de Fevereiro, havia dezasseis anos atrás, Vasco alcançou os mínimos para a prova de fosso olímpico dos Jogos Olímpicos.
Aceitou cumprimentos à esquerda e à direita. Meses depois ninguém o iria sequer receber ao aeroporto, quando regressou eliminado logo após a primeira ronda.

Vasco e Nuno regressaram acompanhados por Beja e Marvão que ajudavam a empurrar as poucas ovelhas e encontraram toda a gente amontoada no alpendre, silenciosa e apreensiva. A tarde chegava ao fim e, com ela um tecto escuro de nuvens apagou o céu, onde as estrelas e a lua não iriam aparecer naquela noite que pintaria de negro toda a paisagem.
- Então, novidades?
- Nada.
- Porque raio demoraram tanto?
- Não demorámos assim tanto, - respondeu Vasco -, mas os animais não ajudaram. E viemos a olhar para todo o lado com medo de alguma surpresa.
- Porque está toda a gente com essa cara? – perguntou Nuno.
- Contei-lhes de Ti’ Francisca e Ti’ Zé.
- Ah!, pois...
- Luis, o melhor é nos próximos dias mantermos alguém de guarda, deixar os cães alerta e alguém sempre por perto deles, atento e armado. – ao dizer isto Vasco olhou para Rita. Desta feita a sugestão não a chocou, arrepiada que ficara com os pormenores da história que ouvira pouco antes.
- É melhor, sim.
- O seguro morreu de velho. – corroborou Inês com uma pérola da sabedoria popular.
- E o desconfiado ainda é vivo.
- Hã...?
- E o desconfiado ainda é vivo, - repetiu Jorge, - É o fim do provérbio.
Vasco voluntariou-se.
- Organizem os turnos, de preferência curtos para não serem sofridos na madrugada, que eu faço já o primeiro. – ergueu a caçadeira que apoiou no ombro e, antes de se afastar da casa chamando Marvão ainda concluiu, - Já não tenho idade para estas merdas de ficar acordado a noite toda.

Passou-se um dia de chuva constante que tudo ensopou e enlameou. Pelas cinco da tarde, avizinhando-se nova noite de água e trovoada, já todo o grupo terminara as tarefas da jornada. Os animais estavam recolhidos nos seus poisos, as portas do barracão encerradas, os materiais arrumados.
No alpendre Pedro e Mário viam Vasco debaixo da velha oliveira, olhando o horizonte. Dentro em pouco a negra noite não deixaria mais nada para ver. Beja estava enrolada aos pés deles, no seco. Marvão parecia gostar mais da chuva e mantinha-se junto a Vasco, saindo da protecção dos ramos da árvore para as gotas de chuva que caíam espaçadas, alimentando o cheiro a pelo de cão molhado. Foi ele quem primeiro os sentiu.
As orelhas ergueram-se, estacou virado para o longo caminho de acesso e ladrou uma vez, forte como um trovão. Enquanto escutava o eco Vasco perguntou, sem esperar qualquer resposta.
- O que foi?
Ladrou de novo. Desta feita duas vezes, já Beja estava a seu lado após uma breve corrida. Também ela se concentrou no caminho e ladrou duas vezes.
Reconhecendo o inconfundível latido de alerta Luis saiu de imediato de casa e encaminhou-se para junto de Vasco e dos cães. Mário e Pedro seguiram-no. Luis olhou na direcção que os animais apontavam e com um gesto pediu-lhes silêncio. Os dois rafeiros alentejanos compreenderam que o seu dono estava já alertado e mantiveram-se em sentido sem repetir os latidos.
- Acho que vem lá alguém. – traduziu para os outros três.
- Que fazemos?
- Esperamos, Mário. Esperamos. Chega-te a caçadeira? – perguntou Luis a Vasco.
- Sabes bem que sim.
- À cautela vou buscar uma pistola.
Ficaram todos de olhos fixos no caminho.
(continua)