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20.2.12

Carnaval nos anos '80

Ontem, quando saía do Metro na Avenida, vi um ovo esmagado no chão, e num segundo recordei como eram nojentos os dias de Carnaval nos anos '80.


Na dia que antecedia a interrupção das aulas pelo Carnaval viviam-se horas de tensão, à espera da anarquia. Um dia, na Escola Secundária de Carcavelos, começámos a ouvir as notícias de encerramento do Liceu de S. João, do Liceu de Oeiras e sabíamos que dentro em breve seria a nossa vez. As hordas de "foliões" concentrar-se-iam onde ainda houvesse aulas. Decidi faltar à última aula (oh, audácia!) e fugir para casa, onde cheguei intacto. Na semana seguinte os relatos falavam de rodos de farinha, açúcar, ovos, bombas de mau cheiro e mil e uma maldades perpetradas nos mais novos daquela escola. Eu, que andava no 7.º ano, congratulei-me pela decisão que tomara. Escapara ileso a tamanha "batalha".
Histórias míticas relatavam tempos em que tinta-da-china, lixívia e ácido eram lançados sobre casacos de professoras. Falava-se igualmente de automóveis cheios de lixo, ou aos quais eram atiradas bombas de Carnaval e coisas bem piores... este era o Carnaval nos anos oitenta para um jovem tenrinho: um período de pânico.

Poucos anos depois, com três amigos, comprámos uma dúzia de ovos pois era altura de sermos nós a lançar o projéctil galináceo.  Andámos, e andámos, e andámos, cheios de poder, sabendo que cada um tinha três munições nos bolsos prontos para serem lançadas sobre alguém. A questão era: quem?
As discussões atingiam o filosófico, especialmente porque ninguém assumia o ónus de enfrentar uma vítima, por mais frágil que fosse. Assim, o primeiro alvo foi uma janela aberta e o atirador desafiado fui eu.
Ficou para a história o momento em que lancei o ovo e este subiu mais dois andares do que deveria e, ao invés de entrar pela janela, passou por cima do telhado do prédio, quase matando de riso o grupo que já estava pronto para fugir.
Um dos nossos artistas mais ousado lançou um ovo de cima de um viaduto para um "careca" que por baixo passava. Ninguém gozou o momento, pois a fuga desenfreada começou no preciso momento em que o ovo largou a mão do  lançador. Acreditei nas suas palavras descrevendo como rebentara e sujara o pobre transeunte.
Após mais uns quilómetros de deambulação à procura de vítimas ou alvos, acabámos por esgotar as munições com lançamentos de longa distância sobre um autocarro de uma campanha política para as eleições que se avizinhavam.
Mais de vinte cinco anos depois, só consigo pensar em como éramos tontos e merecedores duns tabefes!

20.7.08

Anos '80 - 80 memórias (43)

Andei por aqui durante 42 posts a falar dos Anos '80 - 80 memórias, e acabei por cansar-me e deixar incompleta a missão. Hoje, à laia de remissão, venho acabar a tarefa com três sites/blogs que encontrei e cujos criadores se dão ao extenso trabalho de pesquisa e compilação de inúmeros vídeos, fotografias e quejandos para reavivar memórias que já vêm desde os anos '70 e passam por publicidade, televisão, brinquedos, alimentos entre outros. 
Para ver, com calma as Viagens ao Passado, os Verdes Anos, e o  Mistério Juvenil 
Têm muito tempo de recordação por aqui. Eu que o diga... que já perdi umas horitas a relembrar coisas tão datadas.

10.3.06

"Anos '80 - 80 Memórias" (42)

Numa altura em que algumas mentalidades economicistas apontam a instalação de uma central nuclear como o futuro energético para Portugal, não posso deixar de recordar uma luta vivida em força nos anos '80.
Quem é que não teve um um emblema ou autocolante para pôr ao peito com o sol sorridente, à vezes de óculos escuros ou a piscar um olho, e a dizer «Nuclear? Não obrigado».
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Havia quem os colecionasse nas diversas línguas mundiais, e estavam à vista por todo o lado.
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E os mais antigos, ainda a pensar atómico e não nuclear
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Depois...
Depois veio Chernobyl e durante uns tempos a energia nuclear ficou na gaveta. Nada de projectos novos, argumentando-se ser necessário desenvolver novas tecnologias, novos mecanismos de segurança.
E enquanto se discute o fim do petróleo continuam a funcionar centrais construídas há quarenta anos. Os países mais pobres tentam desenvolver os seus programas nucleares, sempre com o estigma do potencial bélico que pode ser criado em simultâneo. E em Portugal fala-se numa central nuclear.
Acho que já era tempo de compreender que a energia nuclear a que devemos recorrer é aquela que emana do Sol que nos alumia. Que há mais energia neste planeta para aproveitar e com menos risco. Eólica. Geotérmica. Das marés.
Nuclear? Não obrigado.

2.2.06

Anos '80 - 80 memmórias (41)

Um dos ícones cinematográficos dos anos 80, no campo do cinema de humor, é uma série de 5 filmes, hoje indescritível. Com piadas boçais, infantis, escatológicas, de cariz sexual insípido e violência asséptica, estes filmes lograram um êxito assustador. Devo confessá-lo: acho que os vi todos no cinema.
Falo, naturalmente, da Academia de Polícia.
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Vinte e dois anos depois do primeiro filme, vejo os canais de televisão repetirem constantemente as "aventuras" daquela gente. Hoje nem consigo sorrir com o humor. Os filmes envelheceram muito mal, ao contrário das obras dos ZAZ (Top Secret, Onde pára a polícia, Aeroplano) e estão tão datados que surpreende como, na minha adolescência gostava daquelas alarvidades.
Contudo, há que dizê-lo: Academia de polícia foi um marco do humor dos anos 80. Para o melhor e para o pior.

26.1.06

Anos '80 - 80 Memórias (40)

O primeiro álbum que alguma vez comprei foi este.
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Em cassete, porque apenas tinha um daqueles gravadores "portáteis", com o som em mono, tipo caixa de sapatos. Lembro-me perfeitamente. Foi comprado através do Círculo dos Leitores, do qual o meu pai era subscritor. Tinha algum dinheiro poupado, e decidi comprar uma cassete. Peguei na revista e, de entre as poucas escolhas disponíveis, encontrei um compromisso entre o preço e um disco de um grupo que apenas conhecia de nome. À data não era conhecedor da realidade musical e o nome Fischer-Z ficara-me na mente depois de algum programa de rádio, ou alguém me ter falado no grupo.
Quando o senhor do Círculo dos Leitores regressou com a encomenda foi com avidez incontrolada que me lancei sobre a cassete e a desembrulhei. E ouvi-a vezes sem conta. Basta salientar que a outra cassete que tinha era dos ABBA e fora prenda de Natal (a minha irmã, mais velha, é que a adorou).
O disco "Red Skies Over Paradise" era algo de "rebelde" para mim. E gostei tanto dele que outro dia me lembrei dele e me pus à procura do álbum em CD, para substituir a cassete, já defunta há mais de 15 anos.
Músicas como o Marliese, Luton to Lisbon, Cruise Missiles ou You'll Never Find Brian Here alimentaram o meu imaginário infanto-juvenil naqueles anos 80 em que a Guerra Fria, o nuclear e o desenraizamento marcavam a história.
O alinhamento do disco é este:

1.Berlin
2.Marliese
3.Red Skies Over Paradise
4.In England
5.You'll Never Find Brian Here
6.Battalions Of Strangers
7.Song And Dance Brigade
8.Writer
9.Bathroom Scenario
10.Wristcutters Lullaby
11.Cruise Missiles
12.Luton To Lisbon
13.Multinationals Bite
Recordo ouvir o disco nas festas da centésima lição. E ouvi dizer que eles vêm cá a Portugal tocar no espectáculo do Júlio Isidro deste sábado, o Febre de Sábado de Manhã. Vou tentar vê-los na televisão (dá em directo). Nem sabiam que aindam tocavam...

4.11.05

Anos '80 - 80 memórias (39)

Botas caneleiras
Ficaram algures pelos anos 80 aquelas botas caneleiras que toda a gente tinha. De preferência com protectores para fazer mais barulho. Para deslizar nos corredores da escola, para trotar por todo o lado, para enfiar um valente pontapé em alguém inconveniente.
Depois..., depois perdeu-se o cano das botas, aparecerem novos materiais, modelos leves e verdadeiramente impermeáveis, e foi o adeus às caneleiras.
Mas associo-as, sempre, àquele período entre o 1º ano do Ciclo Preparatório e o 9º ano, e aos corredores das duas escolas onde andei.

2.11.05

Anos '80 - 80 memórias (38)

Quando era miúdo havia uns rebuçados em forma de limão, que se vendiam avulso, a peso ou à unidade. Eram bombas de açucar, duros, que se deixavam desfazer na boca. Muito amarelos (provavelmente cheios de corantes) e aliavam o doce do açucar com a acidez do limão.
Era viciado naquilo.
A dada altura deixei de os ver. Será que ainda existem?
A memória da goluseima confunde o prazer que davam com a qualidade que tinham. Em bom rigor nem posso afirmar que eram bons.
Sabiam bem. Isso sim. E sempre que podia ia comprá-los na mercearia do "Sr. Ernesto".

11.10.05

Anos '80 - 80 Memórias (37)

Regresso a esta rubrica quatro meses depois do último post. Digamos que as memórias foram de férias alargadas.
Regresso com um nome que fez furor na minha infância, durante os anos '70, tendo a década seguinte presenciado o seu ocaso televisivo. Com a SIC Radical apareceu uma singela referência a este ícone. Falo do "koniec" no fim das séries.
Já sabem de quem falo, não é? De Vasco Granja, aquele tipo estranho que nos fazia gramar com desenhos animados polacos, checos e canadianos antes de nos oferecer os clássicos da Warner Brothers.
Ainda hoje tenho uma vaga memória das animações de Normam Maclaren (repetidas amíude nos primeiros anos do Onda Curta, no canal 2), das animações de desenho rudimentar com personagens que não falavam, mas gemiam. De desenhos com neve, tempestade, guerra, e uma mensagem política no fim, quantas vezes a favor de uma autoridade forte.
Vasco Granja falava, explicava, e vibrava, enquanto nos chamava de "meus pequeninos", ou "meus amiguinhos", numa postura típica que se esgotou em plenos anos '80. A animação passou a aparecer a seco, sem prévia apresentação, ou então inseridas em programas coloridos, vibrantes e histéricos, com jovens e crianças como apresentadores.
A animação em muito se alterou. Não sei o que nos traria Vasco Granja hoje se tivesse tempo de antena. Sei que, daqueles tempos, ficou um gosto especial pela animação, a BD e o cartoon.

16.6.05

Anos ’80 – 80 Memórias (36)


Apartheid

É, sem dúvida, uma memória da década de 80. Para mim, claro, posto que para quem viveu na pele os efeitos da segregação racial sul-africana, tal regime vem de décadas anteriores.
Aqui em Portugal, nos meus anos de adolescente, descobri que havia um país africano em que os negros, a esmagadora maioria da população, vivia sob a pressão de uma minoria branca, dirigente e sem escrúpulos. Findo o auge do período colonialista, estando África pejada de novas nações que se auto-determinaram, existia um país que, sem estar dominado por outro, nomeadamente europeu, cultivava os instintos mais básicos e violentos para espezinhar uma raça.
Descobri o apartheid através da informação passada por filmes como “Cry Freedom”, ou mesmo “Arma Mortífera 2” (!), pela música de Paul Simon e Santana, e pela palavra que se fazia correr:Mandela.
Era, então, politicamente correcto mostrar oposição à Africa do Sul e, aos poucos, documentários, reportagens, histórias chegavam aos meus ouvidos. Foi uma luta breve, para quem tarde se apercebeu daquele alfinete espetado na humanidade. Felizmente, o apartheid caíu, com a dignidade possível e necessária para a transição não ser um banho de sangue.
Hoje é uma memória.

14.6.05

Anos '80 - 80 Memórias (35)

Quem, como eu, nasceu na década de 70, e viveu ainda criança nos anos 80, na zona da Parede, Cascais, certamente não terá esquecido a carrinha do Toni. Toni's Gelados, e a sua música que se ouvia ao longe, anunciando gratos momentos de prazer guloso.
Toni, já há muito falecido (ainda fui colega de escola do seu filho mais novo ), era naquela altura uma luz no calor do Verão. Estávamos na rua a brincar, a jogar à bola, a correr sob o impiedoso sol, quando ouvíamos o tinir da música de realejo. Era altura de correr para casa e pedir dinheiro. Vinham lá os gelados.
Infelizmente, eram mais as vezes aquelas em que o gelado prazer me era negado do queaquelas em que era concedido. Por vezes a minha mãe pegava numa caixa de plástico e ia enchê-la ao Toni, comprando gelado que a família comia ao fim do almoço. O gelado, cremoso, saía da ruidosa máquina de três torneiras: dois sabores e a mistura de ambos. Pouco havia para escolher. Mas pouco interessava. Porque eram tão bons aqueles prazeres em baunilha.

Junto à escola preparatória, onde hoje impera um posto de combustível, havia a "casinha branca", uma estrutura minúscula explorada pela mulher do Toni. E lá havia os mesmos gelados.
Quando andava no Ciclo preparatório, o mais barato custava 12$50. Depois havia o de 25$00, e o duplo, de 37$50.
O fantástico Toni (reparem que não faço ideia do seu nome, e apenas recordo o nome que se lia na carrinha) por vezes tinha momentos de prodigalidade e quando entregava o gelado este era da categoria acima daquela que tínhamos pago. Esses sabiam melhor. Sabiam a prémio.

Hoje não há carrinhas como a do Toni. Com a sua morte, ficou na memória a presença daquele veículo doce e musical.

19.4.05

Anos '80 - 80 memórias (34)

Estávamos na praia e o primeiro passo era ir à zona do bar procurar uma ou duas caricas, o mais direitas possível.
Depois, escolhido o local apropriado, um voluntário sentava-se na areia e levantava as pernas que os outros agarravam. Com cuidado, para ficar o mais certinho que conseguíssemos, rebocávamos o voluntário deixando que as suas nádegas desenhassem o circuito. Curvas, contra-curvas, rectas.
Finalmente, desenhada a meta, alinhavam-se as caricas, e iniciava-se a corrida. Com um piparote, cada um na sua vez, empurrávamos as caricas ao longo do circuito em temerárias corridas de encher a imaginação.
A dada altura levávamos as caricas para casa para as encher de cera. Derretia-se uma vela para cobrir o interior da carica e argumentávamos que assim cheia tinha mais estabilidde, deslizava mais, e conseguíamos ser mais rápidos. As corridas de caricas viraram Grandes Prémios. Até que alguém, um dia, descontente com o resultado, terá iniciado uma discussão, feroz como de costume, e abandonámos as vidas de corredores.
Belos Verões, em que a minúscula praia da Parede era um mundo a pedir para ser explorado. E assim fazíamos, a pé até Carcavelos, até S. Pedro, deixando as caricas no início da puberdade, ali, em meados dos anos '80.

13.4.05

Anos '80 - 80 Memórias (33)

Os anos '80 foram o auge do jipe português, o UMM, as iniciais de União de Metalo-Mecânica. Quem não se lembra daquele monstro de linhas quadradas, conforto reduzido, barulho acentuado e uma garra inimitável?
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Naqueles anos o conceito de jipe era muito distinto do de hoje. Um jipe não era um veículo de luxo, com o qual as pessoas gostavam de andar só para se mostrar. O jipe era um carro de trabalho, e de paixão. Ninguém hesitaria em meter um ÛMM na lama, nas pedras, no ribeiro. Estão a ver os actuais proprietários de Mercedes ML, Porsches Cayenne, ou BMW X5 a fazê-lo? Claro que não. Agora um jipe não é para fazer essas coisas. Isso era então.
A grande, grande vantagem do UMM era o preço. Lembram-se dos jipes não pagarem Imposto Automóvel? E depois apenas 50% do IA? Tudo isso foi por causa do UMM. Como a quota de mercado dos jipes era reduzida, concedeu-se o benefício fiscal para incentivar a venda de UMM's. Quando o nicho de mercado foi descoberto e explorado pela generalidade das marcas, evoluindo o conceito de jipes, já a UMM deixara de produzir. Foi tempo de acabar com tal redução do IA.
Se quiserem espreitar a história da marca, cliquem aqui.
Desportivamente, o UMM teve coroas de glória.
Desde cedo, os UMM provaram ser os mais resistentes, tendo conseguido um feito ainda hoje notável: chegar a Dakar nos três anos de participação com todos os carros que saíram de Paris.
Em 1982, participaram 3 UMM e chegaram ao final os mesmos 3!Em 1983, à partida eram 4 UMM e à chegada também 4! Em 1984, à partida eram 2 UMM e à chegada também 2!
De destacar também a excelente temporada internacional do piloto Pedro Cortês em 1984, com três terceiros lugares conseguidos no Rali do Atlas, 24 horas de Mauleon e Baja Aragon
(esta informação foi retirada do site da UMM).
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Ao fazer uma pesquisa para este 'post' descobri na internet uma comunidade de aficcionados do UMM como nunca tinha imaginado. É bom saber que estes veículos despertam paixões como os Land-Rover...

8.4.05

Anos '80 - 80 memórias (32)

Porque ainda estamos longe da memória nº 80, e porque há já algum tempo que a esta série não voltava, cá vai mais uma recordação. Desta vez, o tema passa pelas carcaças, especialmente, as carcaças com manteiga.
Nos idos anos '80 o pão era completamente diferente dos dias de hoje.
Por exemplo, lembro-me de não haver pão fresco ao domingo, pois nesse dia não abriam padarias. Durante o resto da semana, ao entrarmos numa padaria, podíamos escolher entre: carcaças (ou papo-secos), pão saloio (ou dito de Mafra), pão de forma e, por vezes, cacete. E mais nada.
Pelo preço e pela durabilidade, lá em casa o habitual era haver carcaças para o dia, e pão saloio para as matinais torradas.
A imagem que hoje guardo das carcaças não podia ser pior. Não sei porquê, pois que as comia com prazer apesar de apenas lhes pôr manteiga, ou marmelada. Naquela fase do início da adolescência, em que crescemos a olhos vistos, lembro-me de lanchar três carcaças para enganar o apetite insaciável que então me assaltava. E não pensava que as carcaças fossem sensaboronas.
Seriam realmente assim tão más como as de hoje?
Se calhar não.
Hoje em dia podemos escolher dezenas de tipos de pão, que se vende nas padarias, nas pastelarias, nos supermercados, no hipermercados, acabado de fazer, ou preparado para o fazermos em casa. E, meus amigos, as carcaças de hoje não podiam ter pior aspecto. Não só nunca parecem frescas, como se assemelham a esponjas gastas.
O pão saloio continua a existir. Mas hoje é preciso um curso para o comprar. Ele já não se chama assim. Agora é o de mistura, o mafrinha, o mafra, o sei lá de nomes que são dados aos diferentes tipos de pão que se acumulam em sacos ou expositores à espera da moeda que os levará.
Falando de pão deixo aqui os meus favoritos. Quando se vai para Santa Cruz, vindo de Torres Vedras, passa-se por Silveira. Logo no início há um moinho à beira do lado esquerdo da estrada. Aí encontrarão um extraordinário pão com chouriço, pão com bacon ou pão com torresmos (estes dois apenas ao fim-de-semana).
Nessa mesma Silveira, mais à frente, depois da rotunda e do frango à maneira, há uma entrada do lado esquerdo que tem uma tabuleta a dizer "pão quente". Aí está o melhor pão que conheço. O de trigo e o de milho.
Recentemente descobri uma casinha na Parede, junto à estação da CP, chamada precisamente "Pão quente a toda a hora", que tem uma bolas "de Mafra" que, quase sempre quentes, são de comer e chorar por mais.
Finalmente, mais industrial e mais acessível a todos, no Carrefour fazem um "pão rústico", enorme, que se for comprado ainda quente é muito, muito bom.
Esta conversa abriu-me o apetite... e ainda são apenas 08.00 da manhã...

16.3.05

Anos '80 - 80 Memórias (31)

Matrículas
Foi há poucos dias publicada a legislação que define o futuro modelo de matrículas. Passam a ser dois números - duas letras - dois números, no figurino actual do fundo branco, e do azul Portugal com as estrelas da União.
Porém, quem não se recorda das matrículas nos anos 80?
Para começar, as letras estavam onde deviam: no início, onde garantiam o equilíbrio estético de uma identificação sequencial. Depois... depois tínhamos as matrículas de plástico, duro, preto, com os números em alto relevo, brancos.
Certamente não reflectiam a luz como as actuais, mas eram tão nossas, tão portuguesas.
Não falo das matrículas com saudosismo, pois não é, certamente, de uma matrícula que vou sentir a falta. Mas cresci a ir para a praia jogando o jogo das matículas, aquele em que um malfadado algarismo no fim da chapa fazia alguém carregar todas as toalhas, sendo negras e brancas as matrículas que definiam o perdedor.
Por isso, o seu visual retro é uma memória daquela década, perdida com a adesão à CEE, hoje União Europeia, e a sua matrícula mais evoluída.

11.3.05

Anos '80 - 80 Memórias (31)

Neste elenco de memórias já aqui falei da Guerra Fria e da rivalidade EUA -URSS. Porém, também nesses anos se viveram encontros titânicos de rivalidade extraordinária entre representantes, apenas, da União Soviética.
Quem não se lembra dos duelos Karpov - Kasparov? Eram vividos de forma intensa, deixando transparecer igualmente uma rivalidade entre o regime vigente (Karpov) e os ventos de abertura defendidos por Kasparov. Davam direito a notícias diárias, e por vezes comentários na televisão. Aliás, recordo anos antes aparecer no telejornal, ou nalgum programa desportivo, um mestre português em xadrez, com um quadro representativo do tabuleiro em velcro, comentando as jogadas feitas entre os campeões enquanto movimentava brancas e negras para cima e para baixo.
Graças a esta dinâmica, hoje desaparecida, quis aprender a jogar xadrez, e ainda hoje gosto de fazê-lo. Por falta de parceiro, recorro à dinâmica informática, apesar de apenas ter um programa básico a correr no computador e que, ainda assim, sempre me consegue bater.

Li hoje no Público que o campeão Kasparov se vai retirar. Ao fim de 20 anos de domínio. Pena é que o faça para se dedicar à política. Parece uma despromoção.

24.2.05

Anos '80 - 80 Memórias (30)


Os anos 80 foram palco para uma aventura que se prolongou por três filmes, todos eles excitantes para miúdos e graúdos. Jovem adolescente, adorei o primeiro filme da série e devorei os demais. Falo, como a fotografia o revela, de "Regresso ao Futuro", o "Back to the Future", o filme em três actos realizado por Robert Zemeckis e brilhantemente interpretado por Michael J. Fox e Christopher Lloyd.


Michael J. Fox era já um ídolo da juventude por causa da série Family Ties, onde interpreta o irreal Alex P. Keaton e que, ainda hoja, entra nas nossas casas em sucessivas reposições. Porém, em "Back to the Future" constrói um personagem que se assume como anti-herói, impulsivo e desastrado, com propensão genética para ser um falhado mas que, ao fazer as coisas certas nas alturas indicadas consegue superar esses defeitos e imortalizar-se como o herói de uma geração. A sua imagem era uma referência, e lembro-me de, certamente ridículo, andar com um blusão de penas sem mangas por cima do blusão de ganga, pois esse era o visual de Marty McFly.
O veículo utilizado, um DeLorean, apenas obteve sucesso nessa película, mas as suas formas, alteradas para o tornar uma máquina do tempo revelam o brilhantismo do conceito do filme.

Num argumento complexo mas filmado sempre sem perder o fio à meada, encontramos uma aventura com acção e humor que de tanto viajar no tempo se torna intemporal.
Há uns meses atrás entrei na FNAC e encontrei a triologia em DVD à venda por um preço promocional imbatível. Comprei-a e vi os três filmes num fim-de-semana. Continuo a achá-los irresistíveis. O primeiro foi lançado em 1985. O segundo em 1989, enquanto o terceiro já estreou em 1990.

São, contudo, um marco para os meus anos ’80, e uma referência inultrapassável.

21.2.05

Anos '80 - 80 Memórias (29)

TOLAN

Em criança as idas a Lisboa, não obstante estar a capital tão perto, eram sempre uma ocasião especial. A viagem era feita de comboio e dentro da cidade nos autocarros da Carris. Ir a Lisboa era sinónimo, invariavelmente, de uma ida ao médico, ou visita a alguém.

Por isso, chegava pelo Cais do Sodré e, quase sempre, o autocarro levava-me ao longo do Tejo até ao Terreiro do Paço, onde virava embrenhando-me na Baixa. Ora, durante vários anos, nesse trecho do percurso, espreitava com ansiedade a aparição do Tolan, fiel amigo da navegação fluvial que ali permaneceu durante muito tempo.

O Tolan é uma memória difusa, mais ainda assim forte. Pesquisei na rede e nada de informativo encontrei sobre o navio. Impossibilitado de avivar a memória, não sei quando se afundou, ou quando foi removido do fundo do Tejo.

Sei apenas que aquele barco, conhecido como o "porta-aviões das gaivotas", tinha parte da quilha à tona, o fundo vermelho ao sol desbotava, enquanto o resto do aço desparecia nas profundezas do rio que banha Lisboa. Ali se afundou, em condições e por causas que diziam ter sido estranhas. Ali permaneceu, alimentando histórias contadas à boca pequena, de que a sua carga continha armas para tráfico, ou de que no seu interior estariam cadáveres que não interessava descobrir.

Era um marco de Lisboa, quando a visitava, naquela década de 80. O Tolan, no Tejo, alimentando intrigas.

Era um risco para a navegação. Tarde, disseram os marinheiros, foi removido. Tardou, mas o rio perdeu o seu afundado amigo, e as gaivotas perderam o seu poiso privilegiado, de onde contemplavam o tráfego dos cacilheiros e das gentes que diariamente alternavam entre as margens do Tejo.

17.2.05

Anos '80 - 80 Memórias (28)


Mira técnica

Perdeu-se a mira técnica. Lembram-se que a RTP iniciava as suas emissões às quatro da tarde? Ou pelas oito da manhã ao fim de semana? e que até iniciar a emissão exibia orgulhosamente a sua mira técnica acompanhada de música?



Quando as privadas apareceram também tinham as suas miras técnicas. Depois veio a emissão contínua, ainda que à custa do TV Shop e desapareceram as miras.

Juntamente com a mira técnica vinha o hino. Muitas vezes o ouvi naqueles anos oitenta. Porque a emissão abria, invariavelmente, com o espaço de desenhos animados que ansiosamente era esperado. A mira técnica dava lugar ao relógio, que nos últimos dez segundos fazia pi-pi-pi- piiii e dava lugar ao hino da RTP, empolgante. Normalmente seguia-se uma locutora de continuidade, antigamente em pessoa, dando a cara, depois em voz-off a anunciar a programação e, finalmente, lá tinhamos o nosso programa.

Longe vai o tempo em que a televisão não ocupava o dia todo. Agora, a qualquer altura, há imagem em movimento. E se tivermos TV Cabo, a qualquer hora podemos ver um programa minimamente interessante.

15.2.05

Anos '80 - 80 Memórias (27)


Belinhas com Tang

Se calhar não fica mal esclarecer que nasci em 1971. Quer isto dizer que os anos 80 ocuparam os meus 9 aos 19 anos de idade. Logo, as minhas memórias daquela década iniciam-se na infância e na escola primária, para terminar em plena adolescência, na Faculdade.
Porquê a introdução, perguntarão?
Porque uma das memórias que tenho daqueles primeiros anos da década de 80 é a de uma combinação que fazia o "lanche perfeito": belinhas e tang.
As belinhas, aquelas bolachas de chocolate que eu adorava, só apareciam de vez em quando, e eram um verdadeiro pitéu, com direito a presença obrigatória nas festas de anos. Juntá-las com Tang, ou Clic (outro produto idêntico), era delicioso (!!?). Como era fácil contentar um puto com dez anos. Mas mais se diga que nem um nem outro eram frequentes. Pelo que ter à disposição os dois correspondia a alegre festa.
Com o passar dos anos reconhecemos que um "sumo" composto de água e açúcar com aromatizantes e corantes a fingir que sabe a laranja não é saudável, nem sequer saboroso. Mas na altura era. E as próprias belinhas eram bolachas duras cobertas por chocolate de qualidade duvidosa.
Como digo, era fácil alegrar um puto de dez anos. Belinhas e Tang, era um lanche divinal.

10.2.05

Anos '80 - 80 Memórias (26)

Vinyl
Os anos 80 viram o fim do império do vinyl. Até então, havia duas formas de ouvir música: nas cassetes, que por muito boas que fossem, deixavam sempre algo a desejar; e os discos de vinyl. O ritual de pegar num LP, colocá-lo no prato, limpar-lhe o pó e cuidadosamente depositar a agulha nas primeiras estrias perdeu-se nos anos 80, lá pelos finais, quando o CD invadiu as discotecas. De início era apenas um expositor ali ao fundo, com os títulos mais recentes, lançados simultaneamente no sistema analógico e no digital. Depois, cedo se apropriou do espaço e relegou os discos negros para uma posição subalterna, marginal.
Os puristas sempre se quixaram que o CD não tem a mesma qualidade do vinyl. Podem ter razão. Mas nunca dei por isso. Dei apenas pela facilidade, pela segurança e pela economia de espaço.
Os anos 80 viram o declínio do império do vinyl. Nasceu o digital. Na memória ficam os discos riscados.