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24.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (18) - Epílogo



Era neste. Sentia-o. Só podia ser.

A espera ia chegar ao fim.

A angústia encontraria o sossego da alma.

Poderia entregar-me àquilo porque ansiava.

Ela vinha ali.

Finalmente.

Ela vinha ali.

Continuava sem saber quem ela era. Mas quando ouvi a voz dizer que o comboio vindo de Tomar ia entrar na linha sete eu soube que...

Tinha de ser. Agora já não era a história de qualquer um, não era mais uma história. Era a minha. Era o meu momento.

Levantei-me do banco que tomara como meu nos dois últimos dias. Atravessei o átrio cruzando-me com as poucas pessoas que sob a luz amarela aguardavam por qualquer coisa.

Olhei pela última vez aqueles quadros enganadores, e passei as portas entrando na gare. Fui pela direita, em direcção à linha sete. Muita gente saía do comboio. Muita gente mesmo.

E lá vinha ela, à frente dos passos apressados que abandonavam Santa Apolónia. Lá vinha ela. Só podia ser... A luz, a luz que eu via...

Recebi-a de braços abertos e um sorriso de felicidade como nunca ostentara.

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- Notícia da LUSA -
"O conhecido escritor Vítor Cardoso faleceu ontem à noite na estação de Santa Apolónia, vítima de um fulminante aneurisma cerebral (...) - 07-01-96."

23.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (17)



Era um jovem como qualquer outro. Metódico, adivinhava-se. Pelas vezes que olhava para o relógio, para o painel das chegadas, para as linhas lá ao fundo. Por ter consultado o horário que cuidadosamente tirara da carteira.

Chegou cedo. Faltavam quinze minutos para o comboio chegar. Sentou-se no banco ali ao lado, observando tudo, tal como eu fazia. Senti-o observar-me. Tentava relaxar mas não o conseguia. Não havia naturalidade na sua postura. Parecia estar a estudar, a preparar o seu próximo movimento, as suas próximas palavras.

Com um rigor matemático, no momento em que o nome do comboio que aguardava desapareceu do quadro, sinal da sua chegada, ergueu-se e, lesto, caminhou para a gare.
Saiu muita gente. Muita gente mesmo.

No fim, depois de todos, ele regressou, Só. Olhava a toda a volta, procurando quem afinal não viera.

Rodopiou, andou, parou, voltou para trás, hesitou...

Quando, por fim, viu e confirmou a chegada do próximo comboio, bufou e veio sentar-se. A meu lado, posto que o seu pretérito lugar fora ocupado por uma família angolana.

Apercebi-me do que passava pela sua cabeça. A raiva contida, mastigada... a frustração... o medo. Estudava todas as hipóteses. Compunha o sermão... Sim, iria fazer-lhe um sermão! Mastigava. Assoprava. Tremia. E temia.

Ela veio uma hora depois.

Bastou um sorriso. Um infantil "desculpa" que nem foi pronunciado. Só olhado.

Completamente desarmado, esqueceu de imediato aqueles terríveis sessenta minutos. Olvidou totalmente o sermão.

Levantou-se e envolveram-se num enorme amplexo.

Estavam de novo juntos.

22.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (16)



Sentou-se no chão. Via a léguas que era inglesa, ou de qualquer outro país britânico. Camisola cor de vinho. Calções largos, pretos. Ténis made in Indonesia. Não era nova. A cara branca, sardenta, já ostentava algumas linhas de idade. O cabelo ruivo estava baço, cansado. Os trinta certamente que já eram passado.

Olhou à volta displicentemente. Do saco emergia o topo de uma garrafa de litro e meio de água. Enfiou lá dentro a mão e extraiu um livro: "Women writers at work", da Penguin. Sentou-se no chão.

Começou a ler. As moscas implicavam comigo, mas não a vi, uma só vez que fosse, sacudir qualquer dos irritantes insectos. Parecia que não lhes interessava e mantinham-se ao largo.

Passado um pouco, descalçou-se. Com um à-vontade de quem está em casa lançou os ténis, com as meias lá dentro enfiadas, para o canto onde o saco encaixara. E continuou a leitura.

Nada à sua volta importava.

Estava incólume no seu mundo. O resto é supérfluo.

21.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (15)



Eram três horas da tarde. O sol entrava por cima da minha cabeça. No chão, o recorte luminoso da janela só era interrompido por uma réstia da minha sombra.

Foi nesse pedacinho que uma miúda de cinco, seis anos, cabelo escuro, comprido, e muitas sardas se sentou. Ali no chão iniciou uma conversa com o seu amigo invisível. Palrou deliciosamente durante uma curta eternidade. E se eu não percebi quase nada do que dizia, devorei a atitude, a serenidade, a ilusão.

Os pais surgiram assustados. O casal com ar de perder muito tempo a discutir deixando a criança para um segundo plano, aparentava já ter andado à sua procura pela estação. Enquanto lhe ralhavam por uma falta infantil, olharam para mim com desconfiança.

Fui visto como um pederasta.

Creio que servi de exemplo:

"Cuidado com os senhores como aquele ali. São maus..."

18.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (14)




Ali estava ela. Quarenta anos, com uma criança de sete pela mão. Três malas, daquelas plásticas, com rodinhas. Vi-a chegar, decidida. O miúdo esteve calmo enquanto ela comprou os bilhetes, alguma comida de ocasião e um chocolate que o entreteve durante algum tempo.
Depois, sentaram-se ali perto. Faltava muito para o comboio.

O pequeno homem começou a ficar irrequieto e, na sua inocência, perguntou uma, duas, três, várias vezes pelo pai. A cada insistência via as lágrimas assomar àqueles olhos verdes rodeados de rugas. Vi o nó na garganta que a obrigava a engolir em seco. Vi um soluço abafado.

Acabou por se levantar e iniciar uma conversa telefónica. À distância, por entre lágrimas convulsivas, consegui ler-lhe nos lábios uns "desculpa".

Quando terminou, rasgou os bilhetes, secou as lágrimas e encaminhou-se para o filho com um sorriso. Nesse sorriso estava algum alívio.

Estava também a derrota.

17.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (13)




- Vem comigo.

- ... Não posso...

- Podes sim. Vem comigo.

- ...

- Amas-me?

- Mais que tudo.

- Então vem.

- Não posso... Deixar tudo o que tenho...

- O que importa isso? O que é isso?

- É o seguro. É o meu.

- Como podes ser tão egoísta? Se me amasses verdadeiramente não custava nada. E vinhas.

- Eu quero, mas...

- Tens medo?

- Não é medo, é...

- ... É uma pena. - com as lágrimas a correr cara abaixo ela partiu. Ombros caídos, mas decidida. Não podia perder a vida por causa de alguém que deturpa o amor.

- Mas, e o meu bairro? A minha terra? Os meus hábitos? Sim, não tenho emprego, não tenho família, não tenho... - ficou a falar sozinho, braços estendidos, palmas das mãos para fora.

Saiu da minha frente a abanar a cabeça, como se os seus argumentos facilmente contrariassem a posição dela. Como se sempre tivesse a razão do seu lado.

16.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (12)



Estava há meia hora a tentar telefonar.

Vinda directamente do meio rural, a sexagenária de cinzento e preto vestida barafustava com a máquina queixando-se de que nem conseguia marcar o número todo.

No entanto, orgulhosa como sempre fora, senhora de si desde a morte do seu marido havia mais de trinta anos, recusou-se a pedir ajuda.

Eu, só pelos comentários, percebi que o número estava incompleto, desactualizado, que o indicativo decerto mudara para três dígitos. Mas recusei-me a ajudar voluntariamente em virtude da arrogância campónia que entendi existir.

Ela também não cedeu a um pedido de auxílio.

Desapareceu a resmungar.

15.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (11)



Não pude deixar de reparar nela.

Alta, loira, mas feia. Tinha um corpo de espanto, vestido com um conjunto saia/casaco cinzento. As longas pernas eram perfeitos anúncios de collants. Fumava um cigarro comprido que mantinha descaído no canto da boca formada por dois finos lábios, traços vermelhos. Não tinha qualquer maquilhagem, mas os seus olhos azuis, frios, sobressaíam dolorosamente.

Trazia consigo uma caixa de violino que destoava tanto, tanto... Apesar das mãos finas e compridas, não a via a manejar o arco, sequer a tocar qualquer instrumento. Muito menos o nobre violino.

Dirigiu-se à cabina telefónica ao meu lado. Assim que atenderam disse:

- Deves-me cinco mil contos. - a voz, calma e pausada, era poderosa. Tal como imaginamos a voz de um psicólogo.

Desligou sem dar hipótese de resposta e desapareceu num ápice em direcção aos táxis.

"A Capital", nessa tarde, dava conta em grandes parangonas do assassínio, em Coimbra, de um juiz que tinha a seu cargo o julgamento de uma poderosa rede de narcotráfico.

Na última fotografia que lhe fora tirada, via-se ao fundo uma mulher loira, alta, com um estojo de violino.

14.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (10)





- Então?, já compraste a merda dos bilhetes?

Era um negro com patilhas brancas. As cãs venciam na sua carapinha curta coberta por uma boina castanha. Era um tipo seco, duro. E a sua voz, cuspida, soava malevolente.

- Já.

- Então vai buscar o puto.

A interlocutora era maior do que ele. Especialmente para os lados. Além da largura natural, estava estupidamente grávida. Uma mulher com uma barriga daquele tamanho só podia mesmo estar à beira do parto.

Estranhei a cena. Era notório que a mulher já tinha dificuldade em mover-se, porém ele mandava-a comprar os bilhetes, ir buscar o puto... Quando por mim passou, vi raiva, desilusão, frustração, sofrimento nos olhos grandes e profundos daquela mulher. A criança, com uns quatro anos, era um lindo rapaz, vestido qual homem em ponto pequeno. Ainda fugiu mas, apercebendo-se do sofrimento materno, capitulou, deixando-se levar pela mão.

De novo juntos, ele disse:

- Traz a mala. É para a linha três.

Não pude acreditar. Ela ainda tinha que levar a mala, decerto pesada a julgar pelas dimensões!?

Ele arrancou à frente, deixando-a para cumprir a tarefa. Ela baixou-se. E do bolso caiu um pacote que se apressou a reconduzir ao abrigo do casaco. Reconheci uma embalagem de pesticida.

Porque raio andaria uma mulher grávida com pesticida nos bolsos em plena estação de Santa Apolónia?

10.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (9)





Vinha fardado. De verde.

A única pessoa que tinha à sua espera era a mãe.

Austera. Soberana.

Ele perdeu logo o sorriso. Baixou os olhos. Os ombros. Mostrou-se submisso. Perdeu toda a dignidade.

Que alegria!, mais um fim-de-semana em casa.

9.2.05

"Um Imenso Caldeirão" - (8)




As duas formavam um par muito estranho. Não passavam despercebidas, mas faziam-no de propósito.

A mais baixa era feia. Tinha o cabelo cortado à máquina três. Era magra e curvada. Vestia um blusão de cabedal negro com algumas correntes cromadas por cima de uma t-shirt escura e manchada de lixívia. As calças de ganga eram claras e coçadas, as botas grandes e pesadas. Insistia em sorrir, mostrando os seus dentes irregulares. Tinha vários brincos nas duas orelhas. As grandes sobrancelhas, negras como os olhos e o escasso cabelo, aumentavam-lhe o ar debilóide.

A outra era um pouco mais alta, e bonita. A pele alva sobressaía do cabelo cortado "à francesinha", mas cruelmente pintado de ruivo alaranjado. Tinha dois brincos: um crucifixo e uma caveira. Vestia igualmente um blusão de cabedal preto, mas por baixo envergava um "top" branco que lhe moldava os fartos seios, em contraste com a lisura da sua companheira. Tinha ainda uns curtos calções negros e collants da mesma cor com uma longa malha na face interior da coxa direita. As suas pernas eram muito bem moldadas e não ficavam nada bem com aquelas botas de tipo militar. Também ria. Mas com um riso muito belo. E maldoso.

Entraram de mão dada. Na fila da bilheteira abraçaram-se como qualquer casal. A feia deixou a sua mão apoiar-se nos calções da outra e começou a apalpar-lhe as nádegas roliças. Pôs a mão mais por baixo, pelo meio das pernas. Pude descortinar alguns olhares chocados. Outros excitados. Muito poucos indiferentes.

Quando regressavam em direcção ao cais de embarque pararam no meio do átrio. Olharam-se muito de perto. A feia acariciou a face branca. A ruiva aproximou-se ainda mais. E beijaram-se provocantemente.

Muita gente teve uma história para contar nos dias que se seguiram.

4.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (7)




Com o último comboio fecharam as portas da estação. Vi-me cá fora, ao frio, na solidão da noite, olhado como todos aqueles mendigos que aproveitam até ao último momento o calor, a protecção daquele edifício.

Pensei em ir para casa. Era perto. Ali, na costa do castelo. Mas não podia. Não podia ir para longe. Não podia afastar-me dali. Porque, a qualquer momento, ela podia chegar. Até mesmo no primeiro comboio, logo pela madrugada. Ou..., sei lá! Não podia fugir.

Frio. Eu nem estava agasalhado. Sentia os dentes a bater, as extremidades a gelar, uma estranha dor de cabeça, cada vez mais persistente...

Sentei-me numa paragem de autocarro, protegido da luz dos candeeiros e procurei abstrair-me de tudo. Àquela hora apenas os carros que voavam baixinho na negra faixa empedrada perturbavam uma calma doentia que se estendia por todo o lado. Corpos enrolados em mantas velhas e cartões espalhavam-se junto às portas da estação. "Inter-railers" nos seus sacos-cama já não se viam. O Outono não era a sua época.

Quem eu vi que me despertou a curiosidade foi um casal jovem que tomou abrigo noutra paragem. A paragem do 9, do outro lado da rua. Não eram sem-abrigo. Não eram viajantes. Notava à distância que tinham perdido o último suburbano e que se viam na contingência de aguardar pelo primeiro.

Não podia ouvir o que diziam. E só ocasionalmente vislumbrava as suas feições. Com o correr da noite apenas senti que ficavam mais perto um do outro à medida que falavam.

Quando abriram as portas da estação, horas depois, entraram lentamente à minha frente. Estavam cansados, com frio, mas mais unidos que... que antes, porque "nunca" é muito tempo. Com eles estava tudo bem. Pior seria separarem-se. Mas isso já não era comigo. Eu, assim que entrei, olhei para os quadros electrónicos.

Ela viria.
Ela viria.

3.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (6)




Entrou numa velocidade louca por ali adentro. Um rápido olhar, um mero vislumbre, disse-lhe que era da linha um que saía o comboio com destino a Paris. O quadrado verde já acendia e apagava. Eu até já ouvira a última chamada.

Cortando veloz pelo meio das pessoas, chegou a tempo de ver a traseira do mastodonte férreo a afastar-se, inatingível. Abrandou o passo. Parou. Estático, ombros caídos, viu o seu objectivo desaparecer. Viu tudo desaparecer. Fez meia volta e caminhou devagar.

Quando por mim passou tinha um olhar decidido. Derrotado..., mas decidido. Estava de t-shirt e as marcas nas veias não enganavam.

Fora tarde demais que escolhera.

A sua heroína partira. E a esperança com ela.

A que ficara não o salvaria.

A heroína que lhe restava só o levaria até à eternidade.

2.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (5)



Estavam a despedir-se havia já largos minutos. Não muito longe de mim. Sussurravam carícias, os olhos cheios de amor. Era mais uma separação que tanto custa. Quem os visse decerto julgaria que ele ia para a guerra ou, como era ela quem ia apanhar o comboio, que já estavam a enviar as mulheres e as crianças para fora da cidade, fugindo à frente de batalha.

Só não existiam lágrimas. O adeus tinha igualmente, vá lá perceber-se, muita esperança. O reencontro era certo, e eu questionava-me sobre quando seria.

Curiosamente não foram para a gare. Talvez para evitar aquelas deprimentes e muito vistas despedidas em andamento. A poucos minutos da partida ele falou:

- ‘Té logo. - uma convenção. As suas despedidas seriam sempre assim.

- ‘Té logo. - respondeu... A voz fugiu-lhe.

- Fico à tua espera...

- Mas não muito. Garanto-te que amanhã a minha mãe tudo fará para que chegue a horas do meu casamento.

1.2.05

"Um Imenso Caldeirão" (4)



Pedro prometera ir buscá-la à estação.
Nem se lembrou, entretido que estava a jogar às cartas com os amigos.
Pedro nunca mais a viu.
Nunca nenhum deles foi feliz.

31.1.05

"Um Imenso Caldeirão" (3)


Quarenta anos. Um pouco desgastados. Cabelos compridos, claros. Óculos. Uma pintura barroca. O decote, pronunciado, revelava uns seios descaídos, afastados. A mini-saia vermelha era um chamariz para as compridas e magras pernas que se equilibravam nos finos saltos altos dos sapatos de verniz igualmente vermelhos. Só tinha um pequeno saco desportivo, bem cheio. E uma carteira preta, coçada.

Ele vestia um amarrotado fato esverdeado. A gravata era feia e o nó estava lasso, o colarinho desapertado. Também nos quarenta, ainda tinha muito cabelo, apesar da ameaça de duas entradas. Por enquanto escapava às cãs. Estava mesmo atrás dela, na fila das bilheteiras.

A nota de dez contos escapou-se da mão dela, caindo. Baixou-se devagar, sem reparar que, mantendo esticadas as longas pernas, a saia subia, subia, subia. Eu também lhe vi as cuecas de renda preta. O homem atrás dela sentiu um desejo enorme de a agarrar, apalpar, possuir. Numa fracção de segundo passaram-lhe pela cabeça mil e um cenários anti-sociais. O condicionamento a que todos nós somos sujeito evitou que se mexesse. Só os olhos devoraram a visão que o excitou.

Depois de comprar o bilhete ela virou-se pelo lado errado e embateu nele. Sentiu-lhe o cheiro, o peito largo, a mão que lhe amparou o desequilíbrio. Olhou-o rapidamente e partiu. Partiu com o desejo de ir para a cama com aquele homem. Nada de sentimentos. Só sexo. Só sentir-se desejada. Possuída. Só ultrapassar as dúvidas que a idade lhe trazia.

Quando o comboio partiu ambos ocupavam o mesmo compartimento para a longa viagem.

Sozinhos.

28.1.05

"Um Imenso Caldeirão" (2)

Não sei de onde veio. Só reparei nela quando se sentou ao meu lado. Tinha nas mãos o bilhete e o troco que se afadigava a guardar. Porém, e apesar do pouco movimento àquela hora, não a vira passar. Creio que era esse o seu problema. Ninguém a via passar.
Atentei nela com cuidado. Não era uma rapariga feia. Longe de ser deslumbrante, ou mesmo de ter uma qualquer característica chamativa, a verdade é que a suavidade do seu rosto e a luz do seu olhar transpiravam uma beleza diferente. Cuidada. Inteligente.
O guarda-roupa apagava-a. A normalidade descuidada tornava-a igual a toda a gente. A mochila devia ser um espelho do seu ser. Nada estava fora do lugar. Tudo simetricamente bem acondicionado, sem um desequilíbrio.
Assim que se sentou, depois de cuidadosamente recolher o bilhete e o dinheiro, fez aparecer um pequeno livro de bolso, preto, cartonado, onde começou a escrever. Mais uma pessoa tímida que se refugia num pedaço de papel onde congela o seu sofrimento. Para que não o esqueça. Para não perder a dor.
Passou a mão pelos compridos cabelos castanhos, rebeldes, dolorosos de pentear, e ergueu o queixo. Depositou o olhar em mim. Eu, que para aquele ser olhava fixamente, sentindo-me tão reflectido, não consegui esquivar-me. E durante segundos que pareceram horas estivemos olhos nos olhos.
Creio que ponderámos a hipótese de iniciar uma conversa. Mas como o outro não o fez, deixámos a oportunidade fugir.
Olhos nos olhos. Os dela não eram frios. Nem apaixonados. Eram olhos sofridos. Era o olhar de uma poetisa. Só podia ser. Uma mulher emotiva que sofre constantemente com os fracassos que não ousa conseguir. Alguém que desiste de começar, pois que o sonho, a expectativa, é sempre melhor que a realidade. Olhos nos olhos.
Aquele momento só findou quando duas raparigas entraram no átrio. O seu riso ouviu-se lá de longe. Nunca passariam despercebidas como aquela que se sentara à minha direita.
Pularam estridentemente até à minha companheira de banco que desviou a atenção para as recém-chegadas. Esboçou um sorriso que, sendo tão mentiroso, era tão natural. Um sorriso que ostentava de forma ligeira. O seu refúgio social.
Cumprimentaram-se. Gritaram. Guincharam. E saíram dali em direcção às bilheteiras. Três mochilas. Duas caóticas, outra uma perfeita obra de engenharia. Quando abandonaram o átrio em direcção à gare, ela olhou para trás. Mais uma hora que não demorou dois segundos. Olhos nos olhos.
Por detrás daquele sorriso havia dor.
Por detrás daquele sorriso ela chorava.
E mais ninguém o percebia.

27.1.05

"Um Imenso Caldeirão" - (1)


Não sei como cheguei ali. Só sei que quando dei por mim, estava em Santa Apolónia a olhar maravilhado para os quadros dos comboios.
Na esquerda, as partidas; à direita, as chegadas. O fundo negro, as letras amarelas e rubras.
Hora; destino; comboio; observações.
Hora; procedência; comboio; observações.
Olhei... Olhei... vi as chegadas. E soube que tinha de esperar. Esperar por alguma coisa. Alguém. Alguém viria. Alguém viria.
Senti as paredes de pedra, o tecto feio daquele átrio. Senti o cheiro. O som. As pessoas. Senti a estação. Senti os autocarros lá fora. E sentei-me à espera.
Sentei-me a ver aquelas pessoas todas. Aquelas histórias que se cruzam num átrio pouco acolhedor. As pessoas. Feias, bonitas, lindas, horríveis. Mulheres atraentes, mulheres enjoadas, enjoativas. Machos latinos, "fatos", miseráveis.
Sentei-me e senti.
Um imenso caldeirão.