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22.6.06

"O Edifício da Verdade" (epílogo)

‑ Isto é assim: se abandonares a materialidade, se te despojares do corpo, ganharás um conhecimento pleno, ficarás a saber tudo, tudo sobre tudo, a todo o tempo, sempre actualizado... mas nada poderás fazer para além de estudar; por outro lado, se optares por um conhecimento funcional, parcial, pouco a pouco irás descobrindo as coisas, não todas, mas algumas. Descobri‑las‑ás em ti, por ti, no teu corpo, na tua vida, na terra... e aí poderás marcar a diferença. Para os outros existes. A eles podes transmitir a tua mensagem.
A escolha não foi dificil.
‑ Prefiro o conhecimento parcial. Não sou pessoa para ficar a ver acontecer.
‑ Então, como estás no Edificio da Verdade, pergunta. Responder‑te‑ei na medida da tua escolha anterior.
Vitor fez uma pausa. Perguntar?! Havia tanta coisa que queria saber, coisas profundas. Sem saber porquê, foi começar por algo superficial, uma espécie de aquecimento, de apalpar o terreno em que se movia.
‑ Curiosidade trivial: porquê estas provas sensaboronas?
‑ As duas primeiras analisam a tua capacidade, para ver se poderias dar uso aos conhecimentos que porventura viesses a adquirir. A última revela o teu "eu", a tua sinceridade e posição face à Verdade.
‑ Já era tempo de as actualizar, não?
‑ Não! Elas são eternas. Os grandes génios da tua filosofia por elas passaram.
‑Onde estamos? ‑ Vitor tentava aprofundar o teor da conversa.
‑ Na tua imaginação.
‑ Então isto não existe?
‑ Não disse isso. Porque não há‑de a imaginação ser real? Ela é o motor do Homens.
‑ Então, o que está na minha imaginação existe?
‑ A dois níveis. Existe para ti e para aqueles a quem o transmitiste, nos livros por exemplo. E existe noutra realidade.
‑ Outra realidade? Estás a falar noutra dimensão?
‑ Porque não? Mas prefiro outra realidade.
‑ E essa "outra realidade" cruza‑se com a minha realidade? ‑ bebeu um gole da sua cerveja fresca, fixando os olhos da sua adorável interlocutora.
‑ Não achas que sim? Já o sentiste.
‑ Sílvio Cunha! ‑ o ar surpreso não transmitiu a excitação que sentiu ao ver esclarecido um enigma.
‑ Exactamente.
‑ Ele estava no mesmo plano que eu? ‑ Não era fácil compreender tudo aquilo. Sílvio Cunha, o temível perseguidor que o assolara nos últimos tempos, fora por si criado para uma das suas obras, onde funcionava como um alter‑ego, aquela parte que cada um de nós se recusa a assumir, da qual fugimos, impedindo um reencontro inevitável. E inevitável porque é parte de nós. O reencontro é permanente desde que dele tomemos conhecimento.
‑ Sim, porque tu quiseste.
‑ Eu quis? Se eu o quisesse, saberia da inutilidade de fugir dele, saberia das vantagens em me unir a ele.
‑ Nem sempre se pode saber o que se quer.
‑ Aí tens razão. Muitas vezes sinto‑me sem saber o que quero. Na volta nem quero nada.
‑ Querer. Queres sempre qualquer coisa. Podes não sabê‑lo ou descobri‑lo tarde demais. Mas queres. É isso que te faz andar. É isso que faz andar o Homem. Nem que seja acordar de manhã, ou deitar ao fim do dia, mas um Homem quer sempre alguma coisa. E acaba por ser o seu querer que determina a sua dimensão, o seu relevo entre iguais.
‑ Quem és tu?
‑ Isso cabe a ti descobrir.
‑ És Deus? Deus existe?
‑ Pfff ... Deus, Deusa... porquê algo tão abstracto, e ao mesmo tempo tão concretamente à medida dos Homens?
‑ Então não existe Deus?
‑ Não! Deus existe. Basta que o Homem o imagine, lhe dê forma e força. Já te disse que a imaginação é.
‑ Eu nunca acreditei em Deus. Nunca o consegui conceber.
‑ Então, para ti, Deus não existe. Existirá porventura outra coisa?
‑ Bem,... eu acredito na Natureza.
‑ Nesse caso, a Natureza é o teu deus.
Vitor parou um pouco para aclarar as ideias e beber um pouco mais da cerveja que, curiosamente, ainda enchia o copo. Voltou à carga:
‑ Foi para isto que eu cá vim?
‑ Não sei. És tu quem decide.
‑ Pode o Homem viver sem Deus?
‑ É dificil. Toda a gente acredita nalguma coisa que lhe é superior.
‑ Então, porque não é o mundo justo?
‑ Ah!, uma dúvida que te consome há já algum tempo. Vamos por partes. Quem fez o mundo?
‑ Deus?
‑ Enfim, para ti, digamos, a Natureza, certo? ‑ Vitor acenou afirmativamente com a cabeça. ‑ Mas quem é que age sobre o mundo?
‑ O Homem, principalmente.
‑ É o Homem perfeito?
‑ Não, longe disso.
‑ A Natureza, era obrigada a fazê‑lo perfeito?
‑ Bem..., imaginando a Natureza como Deus, e sendo a perfeição um sinónimo de Deus, se ela criasse algo perfeito estaria a criar outro Deus. Isto não é um contrasenso?
‑ Então a tua dúvida está respondida.
‑ Mas, e o mundo?
‑ Oh, mortal... Se o Homem não conseguir evoluir até à perfeição, é porque ficou pelo caminho. Não será o primeiro e certamente não será o último. Mas aí, a Natureza recomeça de novo. Ela tem todo o tempo que for preciso. Ela é o Tempo. Só que não a obriguem, independentemente do nome, a que seja perfeita, a que crie coisas perfeitas. A perfeição não está na mesma proporção do poder. A perfeição é relativa. Não é por a Natureza, ou Deus, ou Alah, Buda, Jeová, Mãe Terra, o que quer que seja, ser poderosa que é perfeita. Não te esqueças disso. ‑ acalmou o tom de voz, bebendo ela também um pouco de cerveja.
Um pequeno silêncio instalou‑se enquanto Vítor pensava sobre o que falar. A conversa sobre Deus não fora esclarecedora, pelo menos para o escritor, porém ficara com uma base de reflexão, um ponto de partida para ulteriores cogitações.
‑ Onde estive eu, nestes últimos e disconexos tempos?
‑ Perdido dentro de ti.
‑ Então, onde estou eu agora?
‑ Ainda dentro de ti, só que mais localizado, menos perdido, menos só.
‑ Por falar em só, porque não encontrei ainda o Amor?
‑ Porque o procuras.
‑ Como posso não procurar?
‑ Se não duvidares dele, acreditarás que ele te encontrará, mais tarde ou mais cedo. Na altura certa.
‑ Se não o procurar...
‑ Se não duvidares.
Nova pausa.
‑ Então, e a Amizade, também a procuro?
‑ Talvez... talvez tenhas aí mais sorte que no Amor. E não será a Amizade mais necessária, mais fundamental que o Amor?
‑ Eu já nem procuro amigos... Eu limito a minha luta a manter os amigos. E já são tão poucos...
‑ Não!... os amigos mantêm‑se independentemente de lutas. Não vão nem vêm como as ondas do mar. Esses amigos "iô‑iô" não são os amigos de que estamos a falar. Os que contam são aqueles que estão connosco, sempre que precisamos, sempre que precisam.
‑ Ah,... esses... Mas, para além do Diogo não tenho mais ninguém.
‑ Tens! Mas tens que lhes dar alguma hipótese, não? Ser mais tolerante, confiar um pouco.
‑ Mas eu não estou a ver mais ninguém...
‑ Quando regressares pensa nisso. Olha à tua volta. Tenta conviver com as pessoas.
‑ As pessoas. Sabes muito bem que as pessoas são o meu passatempo, são matéria prima. Eu adoro conhecer pessoas, gente nova.
‑ Não me digas que nesses conhecimentos todos não arranjas amigos?
‑ Digamos que me tornei calculista. Continuando a disfrutar do prazer que esses conhecimentos me proporcionam, vacinei‑me contra a falsidade. As pessoas são falsas. E detesto pessoas que se julgam senhoras da verdade, da razão. Por outro lado simpatizo com todos aqueles que estão em busca. Aqueles para quem a verdade está algures à espera de ser descoberta. Só esses são suficientemente interessantes. Só esses têm algo para receber e muito para dar. Só esses são gratificantes.
"Se um gajo não se julga merda por uma vez na vida, não pode evoluir. E a grande maioria nunca se julgou merda. Sempre foram uns iluminados. Iluminados de merda que vivem na escuridão. São poucos os oásis que descobrimos.
‑ São poucos, mas bons. E existem.
‑ Mas aí coloca‑se o problema das ilusões.
‑ Isso é outra história.
‑ Mas conhecer pessoas é um campo propício para as ilusões. E a grande maioria das ilusões conduz a desilusões. Nada acontece como nós prevemos. Somos rasteirados quando começamos a acelerar. Quando nos aproximamos, vemos as expectativas esfumarem‑se, arderem como uma caixa de fósforos. As ilusões conduzem às desilusões. Por isso deixei de as ter. Passei a dar‑me com as pessoas de forma diferente, distante, sem alimentar qualquer expectativa.
‑ Talvez por isso percas novos amigos.
‑ ...Mas é mais seguro assim.
‑ Acreditas nisso? Sentes‑te bem dessa maneira?
‑ Não! Nem assim consigo atingir a felicidade.
‑ Tu nunca conseguirás atingir a felicidade permanente. Ninguém consegue. Podes vir a ser alguém alegre ou triste, mas de resto... Terás é momentos de felicidade e outros de infelicidade, nada mais.
"Tem lógica.", pensou Vitor. Fez mais uma pausa. Bebeu um pouco da melhor cerveja que alguma vez provara. Olhou para as crianças que ao longe corriam pela relva, rindo... Gostava de crianças... Gostaria de ser criança. Como tudo era tão simples na ignorância de um ser infantil.
‑ O que é que eu quero?
‑ Pensa antes assim: o que é que te faz correr?
‑ Eu. ‑ respondeu após breve reflexão ‑ Só corro por mim, para mim. ‑ perante a passividade da bela mulher, continuou ‑ Sim, parece egoísmo. Mas não é. Não. Agora percebo. Por causa do que sou, daquilo que pretendo ser, de tudo o que defendo e acredito, enquanto corro por mim, cumpro valores como a Amizade, a Liberdade, a Dor. Valores que fazem parte de mim. Ao correr por mim, estou a defendê‑los. Isto não pode ser egoísmo, ou então o egoísmo não é negativo.
Olharam‑se profundamente. Um olhar quente, forte. Ela sorriu. Vitor percebeu a deixa.
‑ Voltarei cá?
‑ Sempre que preciso.
Aparentemente o tempo de antena acabara. O Edificio da Verdade fugiu, e Vitor passou a ser ele de novo. Caminhava pela areia, sentindo nas suas costas o CÉU e o INTERNO, e o pobre e velho casinhoto. Lá à frente viu o seu prédio. Entrou, subiu, sentou­‑se na poltrona. Fechou os olhos e pensou.
A verdade, apesar de mais próxima, continuava longe. Pelos vistos teria que morrer para a atingir. Mas para isso há tempo. A Eternidade é tempo. Agora era altura de viver para o presente. A começar por pedir desculpa a quem merecia. Agora iria viver. Se não podia apagar o passado, lutaria pelo presente. Agora iria viver. E acreditar na Verdade. Agora ia
Viver.
(FIM)

1.6.06

"O Edifício da Verdade" (28)

Vinda de nenhures, uma voz soou:
‑ Bem vindo ao primeiro andar do Ediffcio da Verdade.
"Estás numa sala com duas portas e dois porteiros. Uma delas deixa‑te continuar, a outra não. Um dos porteiros só diz a verdade, o outro só sabe mentir. Não tentes forçar a saída. Apenas podes fazer uma pergunta a um deles para descobrir o melhor caminho.
Vitor riu‑se. Só podiam estar a gozar com ele. O enigma é cativante, mas já tem barbas. Sem cerimónias avançou para o porteiro mais perto, perguntando‑lhe:
‑ Se eu perguntar ao outro porteiro qual é a porta que me deixa continuar, o que é que ele me responderá?
‑ Esta porta aqui.
Por razões de lógica foi para a outra. A resposta a esta pergunta seria sempre a da porta errada, como uma breve reflexão o demonstrará.
Ao abrir a porta, mudou completamente de situação, apenas pensando porque carga de água quis continuar com aquela palhaçada.
.
Estava agora num degrau. Abaixo dele um tipo com um chapéu branco. Quis mexer‑se mas não o conseguiu. Com a visão periférica ficou com a sensação de estar num palco. A voz falou de novo:
‑ Estás agora num degrau. Como já te apercebeste, estás paralizado. Tens um indivíduo à frente, outro atrás e ainda um terceiro atrás de uma cortina. Dois de vocês têm chapéu branco, os outros negro. Quem primeiro descobrir a côr do seu chapéu, diz.
Vitor ficou parvo. Como raio iria ele descobrir a côr do seu chapéu? Só conseguia ver um deles... O que estava atrás de si ainda via dois, os outros nem viam nada... "Onde estou eu?", perguntou­-se.
Silêncio. Os tons de azul mal iluminado que inundavam a cena ajudaram‑no a concentrar‑se. De repente, o silêncio elucidou­‑o.
‑ O meu chapéu é negro, pois se fosse igual ao do da frente, quem estivesse atrás de mim diria logo a sua côr por exclusão de partes. A única justificação para o seu silêncio é termos chapéus dif...
.
O novo espaço não tinha limites. Era negro. Apenas uma pálida luz, vinda do nada, se impunha perto dele. De pé, o escritor ouviu de novo a mesma voz:
‑ Agora, ao revelares o teu maior remorso, vais mostrar sinceridade.
Ficou estático. Algo bateu fundo, percorrendo‑lhe o corpo como uma corrente eléctrica, dando‑lhe um nó no estômago e um peso na consciência. Soube de imediato qual era a situação. Mas custava‑lhe falar. Sentou‑se. Apercebeu‑se de que não havia chão. Ele estava ali, no nada e na luz, a falar de algo que o oprimia. Que sempre o oprimiria.
‑ Houve, aqui há tempo, não muito, uma mulher... ‑ começou a custo, muito lentamente, ‑ ... de trinta anos. Não me era nada de especial. E se calhar até era. Pelo menos, na altura marcou‑me. Infelizmente não pela positiva. E podia ter sido. Eu precisava. Teria sido muito melhor. ‑ nova pausa, como se estivesse a ganhar balanço para abordar o assunto com clareza. ‑ Apesar dos seus trinta anos, não era uma pessoa muito esclarecida. Costumo dizer que há miúdas de catorze anos mais senhoras, mais senhoras de si. ‑ Vitor gaguejou, como se não soubesse o que dizer, como o dizer.
(continua)

25.5.06

"O Edifício da Verdade" (27)

VI
Abriu lentamente a porta. Escuro. Entrou com cautela. A entrada sumiu‑se nas suas costas. Escuridão total. Silêncio absoluto. Uma incrível sensação de ausência de espaço. Mas não era o vazio. Porque o vazio, por definição, não tem nada. Vitor ainda existia. Logo, aquilo não era o vazio. E mesmo que se negasse a sua pessoa, seria impossível afirmar o vazio. Porque o vazio não tem cheiro. E ali cheirava.
O escritor sentiu‑o. Doce mas desagradável. Forte mas impessoal. Um cheiro indescritível, mas que Vitor reconheceu. Cheirava a Morte. Não era o cheiro dos cadáveres. Não!, era mesmo o cheiro a Morte. A Morte tem um cheiro. Peculiar, mas tem. E nós não o conhecemos. Por enquanto. E nem queremos conhecer. Porém, Vitor foi capaz de o identificar, como se lhe estivesse inato, como se desde sempre fosse capaz de reconhecê‑lo. Cheirava a Morte.
Após uma imobilidade que se estendeu por tempo indeterminado, caso ainda existisse tempo, o escritor decidiu avançar. A iniciativa deu origem a uma luz intensa, como que o flash de uma máquina fotográfica que durou vários segundos. Esta passagem do negrume para a luz foi tão violenta que Vitor fechou os olhos com força para evitar a dor. Sentiu uma tontura. Através das pálpebras cerradas apercebeu‑se da normalização da iluminação exterior. Cautelosamente, abriu os olhos preparado para qualquer choque. Já estava a ficar habituado àquilo. E agora, que aceitara que estava morto, sentia-se mais à vontade.

O átrio era amplo. Os tons e os efeitos de iluminação faziam-no sentir como se estivesse num hotel. Não havia, porém, uma única peça de mobiliário. Nem sequer havia paredes. Não havia limites. Era tudo um único espaço ilimitado, impossível de existir no interior do casebre no qual entrara. A luz espalhava-se suave, branca, e o cheiro mudara radicalmente para uma fragância feminina e aprazível. Ouvia‑se música clássica que o escritor reconheceu como sendo a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvörak. Mais à frente, muito erecto, estava um sujeito. Tinha o olhar fixo no infinito. Vestia como um empregado de hotel, em tons púrpura. Mãos atrás das costas, queixo levantado, peito inchado. Uma pose muito profissional. Foi para ele que o escritor se dirigiu. Mas o sujeito antecipou‑se, interrogando:
‑ Bom dia. Deseja entrar?
‑ Entrar? Onde?
‑ Como? Você está no Edificio da Verdade e não sabe?
‑ Edificio da Verdade?
‑ Nome?
‑ Vitor Cardoso.
‑ Sim, está marcado. Tem tido dúvidas existênciais?
‑ Sim, por vezes...
‑ Então quer entrar.
Vitor ia responder, mas algo lhe desviou a atenção. A seu lado, sem barulho mas com muita luz, materializou‑se um sujeito idoso. Vinha com cara de poucos amigos e retirou‑se gritando:
‑ Fraude! Impostores! Cambada de...
Mais não ouviu. O pseudo recepcionista constatou, átono:
‑ É a sua vez. - Sem hipótese de replicar, o escritor viu‑se noutro espaço completamente diferente.
(continua)

18.5.06

"O Edifício da Verdade" - (26)

O porteiro era enorme. Carrancudo, grandes manápulas nuns braços curtos e musculados que tinha cruzados no peito sobredimensionado. Cabelo à escovinha, brinco numa orelha, óculos escuros. Vestia um fato negro com uma camisa vermelha apertada até ao último botão. Foi directo:
‑ O que é que quer? ‑ o hálito fétido sentiu‑se vindo de cima, tal era a sua altura.
‑ Bem,... quero entrar?
‑ O que é que o faz pensar que o deixo entrar?
‑ Bem, aqui não entram todos os que quiserem?
‑ Optimista! Aqui só entra quem tem cartão, ou está na lista dos convidados.
‑ Mas isto não é o Inferno?
‑ Claro que é o INFERNO, a discoteca mais quente das redondezas.
‑ Não, o Inferno mesmo.
‑ O INFERNO MESMO não conheço. Aqui perto só mesmo o CÉU.
‑ Espera lá! Onde estamos?
‑ ‘Tás a brincar comigo? Olha que não é com essas merdas que te deixo entrar.
‑ Calma, calma. Deixa‑me passar, vá lá...
‑ Não! Não tens cartão, não estás na lista, estás sózinho, muito mal vestido... Nem penses.
‑ Então não há lugar para mim no Inferno?
‑ Por enquanto não. Não estás preparado. Agora sai daqui que espantas os clientes.
A conversa não ia mais longe. Vitor decidiu tentar o Céu. Por exclusão de partes teria lá lugar.
O porteiro era igualzinho. À excepção da camisa, azul néon, do brinco que primava pela ausência e do hálito que em vez de fétido era mentolado.
‑ Onde pensas que vais?
‑ Posso entrar no Céu?
‑ Não!
‑ Porquê?
‑ Porque não. ‑ este conseguia ser mais antipático e parecer mais estúpido que o outro.
‑ Deixe‑me lá entrar.
‑ Já disse que não!
‑ Então diga‑me ao menos porquê...
‑ Não aceitamos paneleiros no CÉU.
Vitor compreendeu o equívoco:
‑ Mas, eu não sou roto. A t‑shirt nem é minha.
‑ Mas faz questão de a usar.
Vitor despiu a camisola que dizia "I’m gay" em vermelho.
‑ E agora?
‑ Não é o hábito que faz o monge.
‑ Isso era válido quando eu a tinha vestida.
‑ Mas não argumentou.
‑ Isto é de loucos. O Inferno não me quis. O Céu rejeita‑me. Porquê?
‑ Não és carne nem peixe. Não és santo nem diabo. Não és nada. Zero.
‑ Zero!?, eu ?
‑ Desampara‑me a loja. Estás a assustar‑me os cientes a sério.
Vitor recuou. Caminhou pela areia até um ponto sombrio, algures entre as duas discotecas. Sentou‑se no chão de pernas cruzadas.
Que raiva! Apetecia‑lhe espancar os porteiros. Mas nem que fosse três o conseguiria. Cerrou os dentes. Cerrou os punhos. Cerrou os olhos. Contraiu‑se todo. E gritou!
AAAAAHHHHHHHHH!!!
O som gutural perdeu‑se na imensidão que o rodeava. Aos poucos relaxou. Ergueu as pálpebras. As discotecas CÉU e INFERNO pareciam mais afastadas. Em frente descortinou um casinhoto. Largo, baixo, em pedra maciça, telhado de madeira... sombrio.
O escritor ergueu‑se e caminhou para a porta. Sentiu chegar a hora da verdade.
(continua)

16.5.06

"O Edifício da Verdade" (25)

Cá fora, como já se tornara usual naquela noite, encontrou outro espaço. Já não se encontrava no Bairro Alto de onde viera. Já não havia prédios, não havia passeios, não havia candeeiros. Já não havia cidade.
Ao escritor apresentou‑se um caminho, ao estilo de entrada de quinta, rodeado de pinheiros mansos cuidadosamente plantados, cujas copas impediam qualquer vislumbre do céu estrelado. Já não chovia. Já não estava frio. Vitor apercebeu-se de que secara.
Seguiu em frente. Sob os seus pés, uma areia fina defendia‑o, proporcionando‑lhe um agradável caminhar. Sentiu‑a quente, como numa praia ao pôr‑do‑sol de Verão, a correr por entre os dedos dos pés, adaptando-se à volta destes, afundando-se sob o calcanhar. Escutou com atenção, mas não ouviu nada. Nem vento, nem gente ou animais. Nada. Um silêncio de Morte. Seguiu em frente.
What will you do, when you're lonely? / Nobody waiting by your side? - Eric Clapton, Layla. Lembrou‑se, pois sentiu‑se só. Isoladamente só.
Caminhava calmamente. Passo firme mas pausado. Tentava absorver o momento, não obstante a ansiedade proporcionada pela incapacidade de prever o que se seguiria. Ainda assim não se sentia amedrontado. Pelo contrário, a calma, a Paz... Não era uma sensação real, comum. Nem no sono se consegue atingi‑la. Isto sim, intrigava‑o.
Passos perdidos, incontáveis, conduziram o escritor ao longo do corredor natural, irreal. A luz difusa vinha de nenhures. Lá ao fundo, focos de partículas luminosas indicavam movimento. Aplicava‑se literalmente a expressão "luz ao fundo do túnel".
Caminhou até que, por fim, as árvores acabaram. Desembocara numa planície, ou antes, num areal extenso, sem sombra de mar. Em qualquer direcção, podia ver‑se o infinito, à excepção daqueles dois edifícios.
Eram duas grandes discotecas, decerto. Cá fora não se ouvia nada porém, os seus nomes e cores eram sugestivos. Do lado esquerdo, com luzes vermelhas fogo, a estrutura de néon ostentava em grandes letras a palavra INFERNO. Do outro lado, azul gelo, com um ar frígido e insípido, o CÉU, a letras garrafais anunciado.
Vitor Cardoso parou. Olhou demoradamente os dois edifícios cujas luzes acendiam e apagavam com ritmos incertos. Conseguia ver os distintos porteiros, os dois com ar de quem está à porta de uma discoteca.
"Morri." ‑ foi o pensamento. ‑ "Morri, e tudo aquilo que neguei em vida, confirma‑se na morte. Pior…, depois da morte é tudo uma piada de mau gosto."
Com resignação, encaminhou‑se para o INFERNO onde julgou, por natureza, ter lugar reservado. Não ousaria a entrada no Reino dos Céus.
(continua)

10.5.06

"Edifício da Verdade" (24)

Passos. Novamente os mesmos. O mesmo. O tipo que não o largava. Vitor, sempre sem pensar, começou a fugir. Os passos
aceleraram. Desta vez o sujeito corria atrás dele. Começou uma desenfreada e alucinante corrida pelas ruas estreitas.
Toc, toc, toc, toc ... passos incessantes a um ritmo infernal.
Respiração ofegante. Coração a disparar. Cérebro a tentar funcionar.
De onde é que o reconhecia? Vitor tinha a certeza de saber quem ele era. Sentia-o.
Vitor não era um homem religioso. Sempre desprezara a fraqueza das religiões. As suas contradições e falhas de lógica. Talvez por falta de Fé. Ou se A tem, ou não. Vitor não A tinha, por certo, e fugia a sete pés dos cultos.
Contudo, ao virar a esquina, na corrida contra o homem misterioso, aquele adro atraiu o escritor. Aquele crucifixo sobre a porta, a luz das velas no interior. A paz.
Entrou na igreja, deixando de imediato de ouvir os passos que o secundavam. Habituou os olhos à penumbra. Algo o fazia crer que tinha que agir. Entrar para ficar parado estava fora de questão. Avançou na escuridão, pelo meio dos bancos, em direcção ao parco altar. Recordou Joseph K.
Deambulou pela igreja, analisou as figuras. Estátuas, iluminuras, vitrais, relevos. Havia de tudo. Até que deu de caras com o confessionário. Pequeno, de madeira escura, frio, mas ao mesmo tempo reconfortante, vá lá saber-se porquê. Estacou a observá-lo.
- Podes entrar. - voz macia, de homem, vinda do lugar do padre.
- Mas ... , eu nem sou católico.
- Não faz mal, meu filho.
- Nem sequer acredito em Deus.
- Isso já não sei. Se calhar até acreditas e não o sabes. Lembra-te de Sócrates. Talvez precises de O encontrar. De te encontrar.
Relutante, o escritor ponderou as alternativas e, sem mais delongas, sentou-se no confessionário. Por momentos, pensou que deveria estar ajoelhado.
- Já pagaste?
- Pagar?
- Sim, meu filho. Para estares aqui tens que pagar a Deus.
‑ Pagar a Deus?
‑ Em dinheiro.
‑ Mas eu não tenho nenhum...
‑ Então assina a nota de dívida. ‑ na parede do confessionário, por debaixo da rede ocultadora, abriu‑se uma gaveta, como as das estações de serviço nocturnas. Um papel e uma caneta. Vitor assinou sem ler.
‑ Agora podes começar. De que foges, meu filho?
‑ Não sei ao certo. Creio que de tudo isto, e de uma pessoa em especial.
‑ Pessoa em especial?
‑ Sim, há um tipo que me persegue. É tétrico e apavora‑me.
‑ E quem é ele?
‑ Não sei. Aliás..., sei... mas... não sei!
‑ Ai! ‑ disse o pároco num tom arreliado, ‑ Que é que queres dizer com essa conversa?
‑ No meu intímo conheço‑o. O meu sub‑consciente avisa‑me contra ele, com uma força que só pode ter saído de uma experiência pretérita. Não é nenhum pressentimento, nenhum sexto sentido. É muito mais real.
‑ Mas não o consegues identificar?
‑ Exacto.
‑ És baptizado?
‑ Como?
‑ És baptizado? ‑ a pergunta soara deslocada.
‑ Sim. Os meus pais assim o quiseram. Mas é curioso, sempre que me perguntam isso eu costumo alegar que, na altura, chorei. Como se fizesse uma declaração de rejeição na inocência do meu primeiro ano de vida.
‑ Não és religioso. ‑ não era uma, pergunta. O tom afirmativo era evidente.
‑ Não.
‑ Acreditas ao menos em Deus?
‑ Não.
‑ Então, porque vieste aqui?
‑ Porque era a única porta aberta.
‑ Quem sabe se a religião não é isso mesmo? A única porta aberta para muitos. ‑ houve uma pausa. Depois o homem do clero continuou, ‑ Voltando a esse homem, deixo‑te uma pista. Se ele é assim, é por tua causa. Foste tu quem o fez assim.
‑ Eu!? Como assim?
‑ Busca no teu íntimo.
‑ Estou farto de o fazer, mas não consigo resultados.
‑ Pensa em ti, em algo que te está muito perto. CONHECE‑TE A TI MESMO.
‑ Mas...
‑ Acabou. O teu dinheiro não dá para mais. Se quiseres continuar tens que assinar nova nota de dívida.
Foi então que Vitor se apercebeu de que aquilo era uma charada. Nunca estivera na posição de procurar conforto na igreja. Nunca acreditara em Deus ou nos ditos "Seus representantes". Nunca encontrara pingo de lógica em dar dinheiro a um deus, especialmente quando este é omnipotente. E agora vira‑se a dar força aos argumentos que sempre contestara.
Depois de ter contradito a sua posição quanto à prostituição, depois de ter contradito a sua posição quanto à religião, Vitor confirmou o desconhecimento da sua própria pessoa.
"CONHECE‑TE A TI MESMO"
Saiu do confessionário. A meio da igreja, a caminho da saída, olhou para trás. Viu sair do outro lado da caixa das confissões o homem misterioso de quem fugira toda a noite. Vestia batina branca, com os devidos paramentos. Com um sorriso frio, olhou‑o através de uns olhos gélidos.
Vitor abandonou o local com calma. Mas muito intrigado.
(continua)

5.5.06

"O Edifício da Verdade" (23)

IV
Sentou-se no passeio frio e húmido. Olhou os pés descalços, dormentes. A camisola agarrava-se ao tronco. A chuva insistia em cair... cabelos a escorrer.
De repente, vindo sem saber de onde, de um sítio fundo, muito fundo, muito íntimo, fechado a sete chaves, uma convulsão. Um soluço. Uma lágrima. E outra, outra ... outra ...
Vitor chorou! Lágrimas antigas, lágrimas novas, amor, raiva, ódio, desespero ... tudo junto. Novas e velhas. Umas com as outras. Soluçou alto, o choro ecoou nas ruas vazias. Alto e prolongado. As lágrimas, misturadas com a chuva, rebolavam sem controlo. As tremuras aflitivas da dor confundiam-se com as do frio.
Vitor caiu para trás. No passeio frio e húmido dobrou-se na posição fetal e chorou. Esperneou. Gritou. Havia doze anos que não chorava. Doze anos contidos. E mesmo a última vez fora forçada. Estava bêbado e chorara sem proveito. Não conseguira sentir a redenção do choro.
O seu lamento era irregular, estranho. Vitor tinha desaprendido de chorar. Vitor não sabia chorar.
O tempo passou. A chuva caiu. Caiu, até se esgotar. A cena prolongou-se ad aeternum. Por fim o escritor sentiu-se livre. Sentiu o peso fugir, largá-lo. E secou os olhos. Correu com o nó na garganta. A pouco e pouco, ergueu-se. E gritou em plenos pulmões:
- FILHA DA PUTA!!!

26.4.06

"O Edifício da Verdade" (22)


O elevador. Chama‑o. Espera. Espera. Desespera. Corre escadas abaixo. O choro da loira ouve‑se no prédio inteiro. Soa como se estivesse a ser sujeita a tratos de polé, agonizante. Descalço, e de tronco nu, sai para a chuva miudinha. Grita com o frio. Grita com o susto. Dentro do Mercedes, o seu perseguidor sorri. Foge para o outro lado. Vira, a esquina. Vê o Bairro Alto. Volta atrás, espreitando para a rua de onde saíra. Bairro Alto.
Pelo menos a chuva abrandou. Veste a t-shirt. Fica‑lhe pequena. Nas costas uma frase a vermelho: "I'm gay".
Era o Bairro Alto. Não havia dúvida. Vitor conhecia aquelas ruas de outros tempos, de outras aventuras. Mas, para não destoar do resto da noite, qualquer coisa estava diferente. Gente. Não havia ninguém na rua. A noite mantinha‑se, os candeeiros iluminavam espaçadamente as estreitas ruas de castanho vestidas. Mas não havia movimento. Não tinham bares, discotecas, pessoas... nem sequer carros... só chuva. Chuva fria, miudinha irritante. Chuva que molha sem se dar conta.
Vitor sentiu‑se atordoado, como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Como se já não fosse ele. Era isso. Vitor sentia­‑se outro. Aquilo não lhe estava a acontecer. Aquilo era com outro. Era um sonho, decerto.
Reiniciou a marcha. Sem destino. Limitou‑se a andar. Os pés gelados, descalços, a pisar as poças e o chão irregular. Ensopado até aos ossos. De uma entrada ouve a voz:
‑ Oh, encharcado, queres dar uma cambalhota?
‑ Como? ‑ virou‑se. Era sem sombra de dúvida uma mulher da vida, com uma proposta de mercado. O seu corpo por dinheiro. Cotação do dia, cinco contos.
‑ Vi que saiste da casa dela. Deves querer acabar o que começaste. Aliás, aquilo que julgaste ter começado.
‑ A proposta é tentadora...
‑ Anda... eu seco‑te. ‑ a prostituta era uma mulher baixa, loira, de formas arredondadas. Não era bonita. Mas tinha uns olhos quentes, meigos, daqueles nos quais apetece mergulhar.
‑ Não posso! Não tenho um centavo comigo. Fui assaltado.
‑ Então adeusinho. Não há cá borlas. ‑ e deu um passo atrás, voltando para a escuridão da qual saíra misteriosamente.
"Mercenária!"
Vitor seguiu o seu caminho aleatório, na esperança de acordar. Continuou por ruas sujas e gastas, pensativo, fechado em si. De um momento para o outro, lembrou‑se da sua luta contra a prostituição. Lembrou‑se de um dos seus livros mais vendidos em que deitava abaixo o mercado carnal. Lembrou‑se de ter feito questão de afirmar que nunca contribuiria para tal degradação.
Ainda não tinha cinco minutos que rejeitara uma proposta, só porque não tinha dinheiro. Se tivesse, decerto iria para a cama com ela. Só para foder.
E de um momento para o outro, deixou de se conhecer. De um momento para o outro, apercebeu‑se de que nada em si era certo. Nada do que julgara afirmado tinha valor. Vitor Cardoso não sabia quem era, como era, até onde era.
(continua)

7.4.06

"O Edifício da Verdade" (21)

Prédio de subúrbios. Escadas mal iluminadas. O elevador cheira a pó. 5° direito. O apartamento, uma surpresa. Tinha uma sala principal, um quarto, uma cozinha e casa de banho. Mas a sala era algo do outro mundo. Presas no tecto, pendiam faixas de tecido sedoso e transparente. De todas as cores. Umas vinham até ao chão, outras nem tinham meio metro. Pelo meio daquele efeito descortinavam‑se um sofá, um equipamento de alta finidade, uma televisão, uma mesa e quatro cadeiras.
‑ Sente‑se no sofá. Esteja à vontade.
‑ É costume trazer estranhos para casa?
‑ Só os que atropelo. Já agora, eu sou a Sibela.
‑ Sibela? Original. Eu sou Vitor Cardoso. Sou escritor.
‑ Eu sou designer de interiores. E sado‑masoquista. ‑ disse rindo. ‑ Deixa‑me ajudar‑te a tirar essa roupa molhada. - Não foi subtil a mudança de pronome.
A chuva apanhara‑os à entrada. Tirou‑lhe a camisa e os sapatos. Levou‑os para perto da lareira.
Lareira? De onde viera aquela lareira, tão bem acesa? Vitor juraria que não estava nada ali, quando entraram. Sibela, quando voltou, fez‑se acompanhar por dois balões de brandy aquecido. Parecia que estavam à espera deles.
‑ Aguenta só um pouco. Vou pôr‑me à vontade. E prepara‑te para uma surpresa! ‑ dito isto entrou no quarto.
A aparelhagem ligou‑se sózinha. Marillion, "She chameleon ". Vitor pensou enquanto bebericava o brandy. Que raia se passava? A noite era infindável. Sucediam‑se as peripécias e os cenários. Esta era a quinta mulher loira que se metia com ele. O homem com ar de assassino psicopata, ainda por cima de aparência familiar incutia-lhe um inusitado horror. Vitor queria pensar mais mas não conseguia. Queria concluir alguma coisa de lógico, de verosímil. Tentou os truques para acordar. Nada. Já devia estar acordado. Lá se ia a teoria do sonho. E o cérebro que se recusava a pensar. Parecia bloqueado. Parecia incapaz de atingir o mais básico dos silogismos.
‑ Surprise!
AH!!!
O susto foi irreal. O choque irresistível. Sibela estava ali, a seu lado, numa pose assustadora. Ela era bonita. Com o seu cabelo solto e sem óculos, ainda mais. E estava nua. Um belo corpo. Seios firmes e volumosos. Pernas altas e torneadas. Mas aquele... aquele... aquela coisa... ! Sibela tinha fixado, por meio de correias, uma prótese, um apêndice, uma aberração. O certo é que, em vez de um desejável ninho púbico, a loira exibia um pénis erecto feito em material sintético.
Com o choque, Vitor levantou‑se, largou o balão de cristal que se estilhaçou no soalho de madeira, e pasmou boquiaberto. Pior ficou quando ela disse:
‑ Vá lá, não custa nada... não é o que vocês costumam dizer? Porque não provas um pouco do outro lado?
O escritor começou a recuar, roçando nos tecidos pendurados. Ela caminhava para ele. Ele fugia. Virou‑se para a lareira. A sua camisa, bem como os seus sapatos, alimentavam o lume forte. Estavam já quase em cinzas. Ela tocou‑lhe. Pôs‑lhe uma mão no rabo. Um dedo tentando ser mais maroto que os outros. O escritor perdeu a paciência, a calma. Virou‑se dando‑lhe um violento tabefe que a prostou. Correu para a porta. Agarrou numa t‑shirt que estava pendurada na porta da cozinha. Saiu sem olhar para trás.
(continua)

30.3.06

"O Edifício da Verdade" (20)

Ofegante. A sua respiração ofegante, o bater do coração descontrolado. Vitor continuou a correr. O silêncio permitia ouvir todos os seus movimentos. Os sapatos no empedrado escorregadio, nas poças. O silêncio apenas violado pelos seus sons. Sons que o rodeavam com uma intensidade brutal. Quem era aquele tipo? Porque o seguia? Parecia‑lhe conhecido. Parecia‑lhe um assassino.
"Merda de nevoeiro!" Continuava a correr sem ver bem para onde. Passo ritmado, constante. Boa fuga. Não sabia porquê, mas tinha que fugir dele. Olhou por cima do ombro e não viu nada. Só brumas. Só humidade.
Quando se virou para a frente sentiu o impacto. Os faróis mal se viam, mas a frente do carro era bem sólida. Apanhou o pancadão, rebolou sobre o capot e caiu para o asfalto. Deixou‑se ficar imóvel.
Uma mulher saiu do carro, num momento em que a visibilidade melhorava consideravelmente. Para além da côr do cabelo, nada tinha a ver com todas as outras mulheres que enfrentara nessa noite. Era alta, tinha uma expressão simpática. Boca pequena, olhos grandes por detrás de uns óculos largos. Usava um rabo de cavalo muito bem cuidado.
Debruçou‑se sobre o escritor:
‑ Desculpe, não o vi... Está bem?
Vitor contou os ossos. Mexeu‑se devagar, sentindo todos os músculos, todas as articulações, todos os membros.
‑ Acho que sim... ‑ sacudiu a cabeça, como se estivesse a aclarar as ideias.
‑ Sente‑se aqui um pouco. ‑ levantou‑o e ajudou‑o a sentar‑se no automóvel, um Mercedes muito confortável ‑ Quer um gole? – ofereceu de uma pequena garrafa que tirou do porta-luvas.
- Obrigado. – bebeu um pouco. Gin. – Acabou… - informou enquanto devolveu a garrafa.
- Venha até minha casa. Tenho lá mais. Além de merecer, quero ter a certeza de que está bem. Mas que ideia a sua, vir a correr assim numa noite de nevoeiro sem sequer procurar se vêm carros.
Vitor acomodou‑se, baixando um pouco o banco. Ela arrancou com um chiar de pneus. O escritor fechou os olhos. Mais chiar de pneus. Motor a alta rotação. Sentiu o carro a fugir de traseira.
Reajustou o banco e olhou para a estrada. E olhou para ela. A mulher estava bem bebida, reparou então. E conduzia como uma louca por ruas desertas que não reconhecia. Agarrou a pega da porta e fez força com os pés como se isso travasse a corrida desenfreada. Agora o tema da conversa era a ecologia. A ecologia? Como fora ela buscar o assunto?
A visibilidade aumentara. Adiante via-se bem uma rotunda. Tinham que parar para ceder a prioridade, tanto mais que enquanto se aproximavam uma carrinha de mercadorias branca entrou na rotunda e começou a dar voltas sucessivas ao redondel. O Mercedes estacou.
- Ah, queres brincadeira? – perguntou retoricamente a sua condutora. Com um chiar de pneus entrou na rotunda… em sentido contrário. Acelerou fundo.
O escritor gritou um “não” que saiu das suas entranhas mais profundas. Ambas as viaturas aceleraram em direcção a um ponto comum. Vitor assegurou-se que o cinto estava apertado e rezou para que o Mercedes tivesse air-bag para o passageiro.
À última hora, mas mesmo no último instante, desviaram-se os dois, um para cada lado, uma das rodas do Mercedes batendo com força no lancil do passeio central.
- Louca!!! Pare com isso. Trave que eu quero sair.
- Calma, estava tudo sob controlo.
- Como controlo!? Você está bêbeda! Imagine que se desviavam os dois para o mesmo lado?
- Não seja merdas! Tenha lá calma. Eu vou mais devagar.
No momento em que começava a chover ela baixou a velocidade para uns saudáveis 60 quilómetros por hora. Ligou o limpa pára-brisas. Calou-se. Por uns instantes o silêncio oprimiu o ambiente. Vitor pensava furiosamente em qualquer coisa para dizer enquanto relaxava, largava a porta e respirava mais lentamente. E pedia para que ela dissesse qualquer coisa. O silêncio era constrangedor. Ouvia-se apenas a chuva que se tornava intensa, e o chiar das escovas no pára-brisas.
Novo cruzamento. Este com STOP. Ela pára. As escovas param. Uma cortina de água enche o vidro.
‑ Parece que temos problemas...
‑ O que se passa? ‑ perguntou o escritor, a voz a fugir‑lhe após o prolongado silêncio.
‑ As escovas estão a encravar. Veja se consegue dar‑lhes um empurrão.
Vitor abriu o vidro, esticou o braço e empurrou a escova do seu lado. Ambas avançaram mas, no regresso, voltaram a parar. O escritor puxou. Nova volta. Nova paragem.
‑ Vamos tentar continuar assim. Eu não moro longe. ‑ dito isto, arrancou. Lá fora chovia. Vitor, de braço estendido, ora empurrava ora puxava uma escova teimosa. A chuva gélida magoava‑lhe a carne. O sangue custava a passar. Os dedos adormeciam‑lhe. A estrada alargara. De um momento para o outro pareceu‑lhe estar em Tomar.
À frente, um vulto. Era um homem. Algo dentro de si o fez ficar alerta. Empurra, puxa. Empurra, puxa. Aquele era o homem. Sim, lá estava ele à chuva, com o seu pato na lapela a reluzir... Empurra, puxa. Empurra, puxa. Viu uma estrada à direita. Num repente, puxou o volante àquela que o atropelara. O cama reclamou, mas fez a curva.
‑ Obrigado. Ia distraída e já não virava. Como sabia que morava aqui?
A estupefacção substituiu a resposta. Empurra, puxa. Empurra, puxa.. Seguiram mais uns minutos e chegaram. Vitor não sentia o braço direito. Os dedos não fechavam. Espirrou.
(continua)

21.3.06

"O Edifício da Verdade" (19)

Virou na esquina mais próxima. As ruas não tinham ninguém. Os seus eram os únicos passos que ecoavam na madrugada. Ao longo dos passeios, estranhamente, eram raros os carros estacionados, separados por poças pouco profundas. O alcatrão molhado reflectia a luz amarela dos candeeiros públicos excessivamente espaçados. Nas fachadas, luzes difusas tremiam atrás de estores e cortinas. Cheirava a chuva de Primavera, daquelas que fazem a terra crescer. Viu o rio. Viu a ponte D. Luis. Estava no Porto.
Aquilo não era o Porto. Não podia ser. Faltava a Sé. Faltavam as barracas dos vendedores da Ribeira. Faltava a gente. Faltava o espírito.
‑ Estás perdido. ‑ a voz quente e sensual sobressaltou‑o.
‑ Sim. ‑ admitiu enquanto se virava. Mirou‑a de alto a baixo. Era baixa, cabelo comprido até à cintura, loiro. Cara doce. Não tinha muitas curvas. O peito era decerto pequeno. A cintura estreita, as ancas largas. Não vinha vestida de maneira a revelar o seu corpo, mas parecia ser mulher com argumentos suficientes para enfeitiçar um homem, mesmo exigente. Emanava carinho e simpatia, bem como alguma fragilidade interior. Como se para ela, por muito boa que tentasse ser, a vida fosse madrasta. Como se facilmente baixasse os braços perante as contrariedades, sendo por isso levada ao desespero, às acções impensadas que acarretam um arrependimento posterior.
‑ És de cá? ‑ perguntou ela. O sotaque não era muito carregado, mas era suficiente para a enquadrar na cidade invicta.
‑ Creio que não. Onde é "cá"?
‑ Queres vir comigo? ‑ a resposta foi intencionalmente evitada.
‑ Para onde? Porquê?
‑ Queres ajuda? ‑ as questões sucediam‑se sem resposta.
‑ Sim. Talvez...
‑ Eu ajudo‑te. Se tu me ajudares.
‑ O que preciso de fazer?
Estendeu‑lhe a mão macia e quente.
‑ Vem. ‑ disse com uma firmeza adocicada.
Vitor seguiu‑a. Braços que se cruzaram. Vitor seguiu‑a. Vitor já estava por tudo. A mão dela passou pela sua cintura. A dele caiu-­lhe sobre os ombros. Vitor seguiu‑a. Até à porta, de uma das pequenas casas.
Entraram. O ambiente era acolhedor. Pouco espaço havia. Uma única divisão, com cama, mesa, sofá e kitchenette. Uma porta dava seguramente acesso à casa de banho. A janela sem cortinas mostrava a rua toda. Apesar de reduzida, a casa era um espelho daquela mulher. O cuidado com que as pequenas coisas estavam distribuídas denotava que nada ali fora deixado ao acaso. No fundo era a ordem exterior como compensação para a desordem interior. Só tarde demais Vitor percebeu isso.
‑ Queres ajudar‑me?
‑ Qual é o teu problema? ‑ perguntou o escritor.
‑ Não sei bem como to dizer... ‑ começou ela. De costas para ele despiu o blusão de cabedal que envergava. Não tinha nada por baixo. ‑ Acho que o meu mal é mesmo carência afectiva.
Avançou para ele.
A noite galopava na insanidade do irreal. Vitor já não se espantava por aquilo que só os seus personagens tinham direito a viver. O inusitado apetecido e simultaneamente assustador alimentavam o espírito aventureiro que apenas nos sonhos se tornava grande. Aceitando como inevtáveis as situações à medida que se sucediam, abraçou o mundo onírico. Desta feita, semi‑sencostado ao balcão que dava para a pequena cozinha, sentiu aquele corpo nu através da sua roupa. Os pequenos seios espetaram‑lhe o coração. Sentiu uma mão a desapertar a camisa amarrotada.
‑ Satisfaz‑me.
Outrora diria sim sem pensar. Porquê hesitar agora? Porque não uma noite de sexo? Sim, porque não? Olhou pela janela. Lá fora começava a choviscar. Sentiu-lhe o corpo quente.
‑ Está bem. ‑ beijou‑a. A loira desconhecida afastou‑se dois passos e desapertou as calças de ganga. Tirou‑as, ficando como a natureza a criou. Vitor olhou pela janela.
NÃO!!!
Calças de ganga. Sapatos de couro, clássicos, com atacadores. Camisa preta. Blazer informal verde, com um pato dourado a esvoaçar na lapela. Olhos verdes, frios. Nariz aquilino. Barba por fazer. Caminhava compassadamente. Na sua direcção.
Novamente o medo. O medo não! O pavor. Largou a correr porta fora, sem se ralar com a recém‑conhecida que o desejara. Esta, nua, seguiu‑o para a chuva, exibindo‑se para ninguém, numa ridícula tentativa para o suster. Vitor, com uma passada muito maior, afastou‑se num instante. Ela caiu de joelhos e começou a chorar, os punhos fechados a bater numa poça. Nem assim cumprira o seu desejo. A chuva miudinha a cair sobre a pele muito branca. O cabelo escondendo a face e as lágrimas perdidas. O seguidor ignorou‑a, passando no seu ritmo, como se não existisse. Vitor já ia longe, penetrando na bruma.
(continua)

16.3.06

"O Edifício da Verdade" (18)

‑ Olha...
Voltou‑se. A loira deprimida tinha saído atrás dele, e falava­‑lhe. Não era muito baixa, tinha vinte e poucos anos, cabelos curtos, cara redonda, olhos verdes, tez clara... Muito bonita.
‑ Sim?
‑ Estive a ouvir a conversa lá dentro. Pareces alguém com um sonho desfeito.
‑ Talvez. Ou apenas esquecido.
‑ Queres ficar um pouco comigo? Se calhar até temos algo para partilhar... para nos enriquecer.
‑ ... Sim, está bem. Eu sou o Vitor Cardoso.
‑ Veronique.
‑ Francesa?
‑ Não. Ascendentes luxemburgueses. Mas nasci cá. Por isso não procures um sotaque. Nunca o tive.
‑ Vamos sentar‑nos ali, nos bancos do miradouro?
‑ É melhor não. Sabes como é... assaltos, e esta estúpida humidade. Nem chove nem deixa de chover.
‑ Então vamos para onde? Ao Grego não podemos voltar.
‑ Vem comigo. Vamos para minha casa.
Era perto. Uma pequena vivenda cor de tijolo, com jardim ressequido e descuidado. Sentaram‑se num sofá antigo, coçado. Ela nem lhe ofereceu uma bebida. Apenas o desafiou para falar, mantendo um silêncio perturbador. Vitor cedeu passados uns minutos duranteos quais conseguiu ouvir os grilos que inundavam a noite exterior. E falou daqueles últimos momentos por que passara. Correndo o risco de passar por louco, contou tudo. Do nevoeiro a Cascais. Tudo. Falou durante minutos sem fim, perante o olhar atento de Veronique, que nunca o interrompeu.
‑ És capaz de acreditar nisto?
Mais um silêncio interminável. Ela parecia ser incapaz de falar. Por fim, com uma voz quente e decidida, avançou.
‑ Gosto de ti, Vitor Cardoso.
‑ Suspeitava. A menos que costumes trazer desconhecidos de quem não gostas cá para casa.
‑ Não é isso. Gosto mesmo de ti.
Ele segurou‑lhe a mão. Estava tão quente, ao contrário das suas palmas geladas. Aproximaram‑se. Muito. Vitor arriscou um beijo. Veronique esquivou‑se, apoiou a cabeça no ombro do escritor. Ele apertou o abraço. Assim ficaram incontáveis minutos, até que, parecendo ter vencido algum medo, ela beijou‑o levemente. Depois com mais intensidade. As palavras havia muito tinham morrido. Agora só mesmo suspiros para apanhar os grilos.
Passado um pouco, Vitor começou a desapertar‑lhe a blusa Depois o soutien. Afagou‑lhe os seios. Beijou‑os. Deixou‑se conduzir sem sequer pensar. Um rito natural, instintivo, animal.
Investiu para o cinto. Ela afastou‑lhe a mão irrequita. Insistiu, tentou os botões das calças de ganga com uma persistência de polvo.
- PÁRA!!! ‑ berrou a loira.
Assustado, afastou‑se. De pé em frente a uma Veronique semi‑despida.
‑ Pára! Nada do que é fácil merece ser amado! Sai! Sai! Sai! ‑ foi gritando.
Estupefacto, e qual peixe na corrente, saiu. Estava outra vez na rua. Noutra rua completamente diferente.
(continua)

7.3.06

"O Edifício da Verdade" - (17)


Saiu para a rua. A discoteca de néon não está mais ali. Aliás, nada mais está ali. Aquilo já não é Lisboa. Se é que alguma vez o fora.
Um sentimento, algo vindo do fundo do seu âmago animal, gritava‑lhe "Cascais! Cascais!", mas não parecia Cascais. E até parecia. A baía..., a zona velha. Só havia uma maneira de verificar.
Entrou para uma cabina telefónica, marcou o serviço de chamadas a pagar no destinatário, e pediu o número de Diogo.
‑ Desculpe, mas esse número não existe. ‑ respondeu solicita a telefonista.
‑ Como não existe?
‑ Não existe. Não foi atribuído. Tem a certeza de que é este o número que deseja?
‑ Tenho... Olhe, desculpe lá, mas já agora tente este outro. - ditou o seu próprio número.
Após um breve silêncio, a resposta num tom embaraçado:
‑ Não está a brincar comigo, pois não?
‑ Não! Porquê? O que é que se passa?
‑ Esse número foi desligado há dois meses por falta de pagamento.
Abandonou o aparelho, intrigado com o que se estava a passar. Parecia ter entrado no mundo de Rod Serling. Conseguia mesmo ouvi‑lo dizer: "You're now entering... the twilight zone. "
Como estar parado de nada adiantava, começou a caminhar pelo empedrado ribeirinho. Não via vivalma. Para criar ambiente só mesmo o som do mar a enrolar na areia. Pequenas vagas, compassadas, constantes. Uma brisa transportava um estranho odor a maresia. Mar, diesel, peixe, putrefacção... No céu, nem uma estrela. As nuvens mantinham um tecto compacto.
Lá ao longe, em lâmpadas de néon, desenhavam‑se as letras que indicavam vida: "O GREGO ‑ Bar ". Como tinha gente, decidiu arriscar.
Entrou, sentindo a indiferença dos presentes. Para além do empregado de balcão que se esmerava na limpeza de um copo, só mais um casal desaguisado, um bêbedo e uma loira deprimida, de olhos inchados.
O balcão repousava à sua direita, comprido, de madeira clara, ocupando toda uma parede. Tinha uma série de copos pendurados e no fundo espelhos espreitavam por entre uma série de garrafas "expostas para consumo da casa", e um conjunto de bandeiras e insignias académicas. Uma rosa vermelha, de plástico, encontrava‑se lá. Estava cheia de pó, esquecida entre tudo o resto. Algo arrasta o escritor até aos longínquos tempos da Faculdade de Direito.
Olhou para o barman que levantou a cabeça dirigindo‑lhe uma atenção forçada. Com algum espanto reconheceu-o, um antigo colega de faculdade, alguém a quem já chamou amigo.
‑ Ricardo?!
‑ Como?..., sabe o meu nome?
‑ Ricardo... Não te lembras de mim? Vitor... Vitor Cardoso!
‑ Vitor. De onde o deveria conhecer?'
‑ Foda‑se, Ricardo, da Fe‑Dê‑La!!
‑ De Direito?
‑ Sim. Lembras‑te do Nuno Figueiras?
‑ Claro!
‑ E não te lembras de mim?
‑ Olha lá... Nem penses que me enrolas. Daqui não levas nada à borla. Tás com sede bebe água do mar.
‑ Eh, pá, não quero nada disso... Só estou um pouco perdido.
‑ Não queres beber?
‑ Não! Mas dava‑me jeito uma ajuda.
‑ Claro! Dinheiro. Vai p'ró caralho. Põe‑te com merdas e eu ponho‑te na rua…
‑ Na rua... eh, pá, ... Lembra‑te do passado!
‑ Qual passado? Eu nem sei quem tu és. Da FDL, das centenas de pessoas que comigo falaram, já têm sorte os poucos com quem ainda me dou.
‑ Então, ... e os laços, o passado?
‑ O passado... É passado. O que me interessa é o agora. E agora... põe‑te daqui para fora ou consome qualquer coisa.
‑ Eh, pá ...Lembra‑te de tudo o que passámos juntos. Estou a cagar‑me para a ajuda... Só queria que te lembrasses.
‑ E eu queria mesmo que parasses com essas merdas.
‑ Mas...
‑ CALA‑TE!!! Quem te disse que eu quero recordar? Quem te disse que para mim o passado interessa? A mim não! Eu não sou desses que vai a jantares todos os anos. Eu vivo para o futuro.
‑ Mas o passado tem o seu valor.
‑ O passado "teve" o seu valor. Agora já passou. Se restam memórias já é bastante mau. As memórias são um peso. Peso morto. Peso que nos carrega. Algo de que temos de nos libertar se queremos ir em frente.
‑ Mas então lembras‑te?
‑ Não. Não me lembro. Não quero lembrar‑me. Quero‑te daqui para fora. E já. ‑ virou‑lhe as costas e caminhou para a outra ponta do bar.
Vitor esticou‑se e pegou a empoeirada rosa vermelha. Dirigiu­-se para a saída soprando carinhosamente as pétalas, limpando o esquecimento que caía sobre um sonho comum, avivando juras que tinha deixado adormecer. Sentiu um nó na garganta. Ergueu os olhos para o horizonte, focando um navio que ao longe flutuava. Luzes na noite. Luz.
(continua)

16.2.06

"O Edifício da Verdade" (16)

Vitor avança a passo, tentando recuperar a respiração. Dirige-se para a música, um bater ritmado que vem da esquerda. Entra numa rua conhecida, num ambiente estranho. Duas casas iluminadas de néon estão abertas ao público. Daquela da direita, que mais parece uma árvore de Natal, sai o som de discoteca, com techno ou rave ou lá o que é essa merda que desconhece. Do lado esquerdo consegue ouvir algo mais calmo, quase um sussurro por baixo da barulhenta vizinhança. Vitor escolhe este estabelecimento.
Porta aberta, nenhum gorila à vista, avança a direito. Vestíbulo. A música é agora perfeitamente audível. Blues, do mais puro e genuíno. Buddy Guy, de certeza. Entra para a sala principal.
Choque!!! Foram dois os responsáveis pela preplexidade e pela sensação de desconforto. Não havia um único branco na sala. No ambiente fumarento só via negros bem dispostos. E no pequeno palco, um grupo tocava. Era tão parecido com Buddy Guy ... mas não era ele.
E de um momento para o outro, silêncio. Os músicos pararam, as conversas pararam, cem cabeças viraram-se para a entrada, onde pendiam duas pesadas e empoeiradas cortinas vermelhas. Duzentos olhos cravados nele. Duzentos olhos de um ambiente que só se espera encontrar em Chicago ou Memphis, ou outra terra americana.
Sentiu-se desconfortável, deslocado, a mais. Engoliu em seco.
Virou-se. Atrás de si um negro com a altura de “Magic” Johnson, a largura de Joe Frazer e a cara de King-Kong, fê-lo repensar a estratégia. Lembrou-se de que não tinha um tostão. As conversas voltaram. A música recomeçou. Don't know which way to go.
Sem perceber como ou porquê sentiu-se a caminhar até ao balcão onde encostou o estômago.
- Ora, então o que é que vai ser? - o empregado de meia idade era quase careca. Tinha um sorriso largo com o qual exibia o seu belo marfim. Antes de Vitor poder responder, continuou:
- Ah!, não quer nada. Pois, não tem dinheiro. Foi pena ter sido assaltado.
- Como ... Como é que sabe isso?
- Sei muitas coisas. Atrás do balcão vê-se muito e ouve-se ainda mais. Gostou das gémeas?
- Como gostei? Assaltam-me, agridem-me, quase me violam ...
- Quase?
- Sim, quase!
- Não o obrigaram a ... ?
- Não. Agarraram-me no coiso e, pimba!, K.O.
- Afinal sei muito, mas não sei tudo. É estranho ...
- O que é estranho?
‑ Algo que vai para além da sua compreensão. Aliás, até vai para além da minha. Você é diferente. Entra, no “Blue Condition”, não chega a ser violado pelas gémeas...
‑ O que é que se passa? Onde estou?
‑ Você ama a Isabel?
‑ Não, eu não a... ‑ pausa de estupefacção, ‑ Acho melhor ir embora.
‑ Não. Fique. Ainda não terminou a sua passagem por aqui.
‑ Aqui... o que é “aqui”?
‑ Por agora, “aqui” é apenas o “Blue Condition”. Joga poker?
‑ Sim. Mas só quando tenho dinheiro, sabe. Sem ele não costumam deixar‑me jogar.
‑ Venha dai.
Seguiu o negro de avental branco, deixando-se levar pelo insólito da sua condição. Aquela careca luzidia indicou a passagem para uma pequena sala separada por uma cortina. No momento em que entrou para um espaço com o ar ainda mais viciado, o guitarrista iniciou um fenomenal solo. A guitarra chorou a dôr que Vitor sentira nos últimos dias.
Uma mesa de pano verde. Quatro jogadores. Uma cadeira vazia. Negros de várias idades e vários níveis de vida. Quem dava as cartas tinha um chapéu chegado para trás e bastante ouro. Aneis, fios, pulseiras. Foi ele, o único que não fumava, quem falou:
‑ Já chegou atrasado. Era suposto ter entrado na mão anterior.
‑ Eu?! – disse o peixe de boca aberta.
‑ Sim. Mas agora não interessa. Sente‑se.
O escritor sentou‑se no lugar vago. Para não alimentar o equívoco foi logo anunciando:
‑ Eu não estou a perceber nada, mas desde já aviso que não tenho dinheiro para apostar.
‑ Eu sei. Acredita em almas? ‑ o interlocutor era o mesmo, perante o ar fechado e submisso dos outros três jogadores.
‑ Essa é boa. Que almas? Almas como?
‑ A ideia de alma eterna. A que Deus salva e o Diabo compra.
‑ Não! Não acredito.
‑ Então aposte a sua.
‑ Acabei de dizer que não acredito.
‑ Melhor. Se perder, perde nada.
‑ Não posso perder o que não tenho, é verdade. Mas não posso apostar o que não existe.
‑ Tem medo?
‑ Não. Só não faço algo que vá contra as minhas convicções.
‑ Enganar mulheres faz parte das suas convicções?
- …
- Deixe estar. Suponho que não aposta pois no seu íntimo acha que as almas podem existir, eu posso ser o Diabo a querer a sua, e o melhor a fazer é jogar pelo seguro.
- Não é nada disso. Se pusesse as coisas nesses termos, as probabilidades apontariam para uma condenação, independentemente de negócios com o Diabo.
- Então está bem. Vitor Cardoso não quer apostar a alma que não tem. Quer jogar o relógio de luxo que não funciona?
- O que está do outro lado?
- Algo que ganhei há pouco. - debaixo da mesa saíu uma carteira que Vitor sem esforço reconheceu como sendo a sua.
- E eles? - apontou para os outro três.
- Não jogam. - a voz veio das suas costas; era o barman.
- Feito.
- Venha um baralho novo. Quer baralhar ou dar?
- Tanto faz.
- Então, faça ambos, por favor.
Uma mulata loira, com uma curta mini-saia, trouxe as cartas.
Os collants negros faziam realçar as pernas de tal forma que Vitor se excitou só de a ver. Os seios apertados num generoso decote eram absolutamente grandes.
Relógio e carteira no meio da mesa. Vitor iniciou a tarefa de baralhar os rectângulos de plástico. As cartas estalaram sob os seus dedos, entrelaçando-se, misturando-se. Obra do acaso.
A loira voltou. Whisky para o negro. Vodka limão para ele.
- A bebida é por conta da casa. E este é para dar sorte. - inclinou-se sobre ele e beijou-o. Um beijo forte, lábios nos lábios. A língua quente encontrou a dele e enrolou-se. Suave e ardentemente, soltou-o. Saíu da sala. Vitor respirou fundo.
Acabou de misturar as cartas. Deu duas a cada um. Não viu as suas.
- Não é preciso parar. As apostas estão feitas ..
Assim era. Completou a distribuição. Levantou as suas cinco cartas. Lentamente foi descobrindo o jogo. Sete de ouros. Nove de espadas. Ás de copas. Sete de paus. Sete de copas. Com muita calma ergueu os olhos.
O adversário sorria largo. Reparou que tinha um dente de ouro. Vitor viu-o beber um trago do seu whisky.
‑ Eu quero uma! ‑ disse com voz átona, monocórdica.
‑ Eu duas. ‑ "Uma. Ele ou tem dois pares ou quase sequência. Eu estou a tentar o poquer. Vamos com calma". ‑ conteve a expressão facial e levantou a primeira, carta. Ás de espadas. MERDA! !, deitara fora outro ás. Respirou fundo e levantou a ponta da outra. Sete de espadas.
Uma alegria inundou‑o. O estômago gritou. As carnes sentiram a passagem de uma corrente de energia. Baixou a cabeça para que os seus olhos não anunciassem a vitória.
‑ Escusa de tentar esconder a alegria, senhor Vitor. Aqui não há lugar a blufs. Está, tudo apostado. Limite‑se a mostrar. Eu paguei para ver.
Vitor riu. Permitiu que os seus lábios rasgassem um sorriso de orelha a orelha. Uma a uma, baixou as suas cartas. Primeiro o ás.
‑ Poquer!
A expressão do negro permaneceu inalterada. Apenas disse, após uma pausa:
‑ Você é um tipo ponderado. Outros já teriam avançado gulosamente para o bolo. Fez bem em esperar.
De uma vez só, baixou o seu jogo. Copas, copas, copas, copas e mais copas. Flush. Vitor esquecera‑se da hipótese de flush.
Sentiu‑se derrotado, mas não regateou. Não fez figuras tristes. Bebeu o seu vodka de uma vez só e saiu. Chegou à rua num instante. Pelo caminho reconheceu os acordes que vinham do palco. Damn right I got the blues.
(continua)

9.2.06

"O Edifício da Verdade" (15)

Acordou. Com um arrepio. Era natural. Não tinha mais consigo o seu quente blusão de penas, e a noite continuava fria e húmida. O nevoeiro, porém, era muito menos denso, e já era possível ver até uma boa distância. E foi isso que o preocupou. Parecia estar no sítio em que fora assaltado, mas também parecia que não. Enquanto compunha as calças desapertadas analisou a sua situação.
Do lado esquerdo o rio continuava preguiçosamente. À direita, o jardim do Passeio Ribeirinho era o mesmo. Mas em frente não via o cais do ferry‑boat, nem sequer as bilheteiras, cafés e toda essa panóplia de construções. Para trás, árvores. Árvores?!, ali, junto ao Tejo? Árvores grandes, frondosas, num aglomerado florestal. Não seria agora, pela noite, que enveredaria por ali. Sentou‑se para pensar.
Passos. Vinham da floresta. Levantou‑se sem saber bem porquê. Medo. É isso. Vitor tem medo. E tudo porque não compreende onde está, como está, porque está.
Viu‑o. Surgiu do meio da nebelina, qual D. Sebastião, o Desejado. Apesar da distância, apesar das más condições de visibilidade, viu‑o tão claramente. Como se a imagem tivesse sido cuspida para o seu cérebro e lá tivesse ficado agarrada.
Viu‑o. Era um tipo magro, seco, estatura média... Cabelo escuro, ligeiramente encaracolado, penteado para trás. Sobrancelhas crespas sobre uns olhos verdes, lindos, irreais, frios... Nariz aquilino, barba por fazer sobre faces duras, salientando os ossos faciais. Era incrível como se apercebia daqueles pormenores todos... Vinha vestido com uma camisa preta e um casaco informal verde. Numa das lapelas deste, um pato dourado voava para o Inverno. Calças de ganga e sapatos clássicos de atacadores completavam o personagem.
Ritmo. Andava ritmadamente. A trajectória apontava, sem sombra de dúvida para o escritor. Os braços caídos ao longo do corpo, punhos fechados. O nevoeiro a seus pés. Uma expressão imperturbável, granítica. Lábios cerrados, olhos friamente inexpressivos. Uma expressão do Inferno.
Medo! O medo continuava. O facto de ter visto o homem tão claramente, quando ele estava tão longe, ainda o assustou mais. O coração acelerou. Um nó na garganta. As mãos suaram. Os olhos piscaram, na esperança de afastar a visão. A incapacidade de raciocínio. Aquilo já não era medo. Aquilo era um inexplicado pavor.
Fuga. Pôs‑se em fuga. Correu na direcção contrária, para um Cais do Sodré que não encontrou. Disparou pelo negrume enevoado e não olhou para trás. Correu durante uma onírica eternidade. A respiração ofegante. Incontrolável.
Luz. Uma praça. Parece familiar. Agora sim, espreita sobre o ombro. Não vê nada nem ninguém. Suspira. Reconhece a Praça Duque da Terceira, junto da estação do Cais do Sodré, como quem vai para a Rua do Alecrim. Esta está lá. Mas..., não pode ser. Do lado direito falta muita coisa. Não está lá a Rua do Arsenal. A Ribeira das Naus não passa de um estreito caminho de terra. No meio da praça, árvores. Os semáforos estão todos vermelhos! Mesmo aqueles que não vê, tem a certeza. Não há carros. Não há gente.
Mas há música. Vem dali. Dali da frente.
(continua)

6.2.06

"O Edifício da Verdade" (14)

Vitor levanta‑se. Decidiu ir até ao Pavilhão Chinês, ali ao Príncipe Real. Costuma frequentá‑lo. Por vezes só para beber, outras para jogar um pouco de snooker. Hoje quer mesmo as duas coisas. No meio do espesso nevoeiro, inicia a caminhada. Tem tempo. Aliás, tempo não lhe falta. E são‑lhe úteis estes passeios solitários. Ajudam a pensar. Decide seguir junto ao rio até ao Cais do Sodré. Subirá depois pela Rua do Alecrim...
Tão enebriado ficara que, mesmo sem ter o disco a tocar, continua a ouvir a voz de Teresa Salgueiro a cantar como só ela sabe. A música segue‑o, não sai da cabeça... "Eu fui contigo ao Inferno /Fomos ao fundo do mar".
O isolamento torna-se desconfortável. Algo incentiva a desconfiança. Não se cruza com ninguém. Não ouve nada do mundo real. Só os seus passos no pavimento, rugindo com a areia que pisam. Areia. Não é habitual encontrar‑se areia no Passeio Ribeirinho.
Uma gargalhada. Veio dali da frente. É nitidamente de mulher. Vindas por entre a névoa, duas gémeas bloqueam‑lhe o caminho. São duas jovens loiras, altas, encorpadas, de grandes seios e ancas largas. As saias curtas permitem ver pernas bem moldadas pelas meias de nylon pretas. Não são bonitas no rosto, mas os seus corpos assemelham‑se a verdadeiras máquinas de sexo. Ambas usam óculos.
‑ Boa noite, cavalheiro... ‑ diz uma gargalhando enquanto a outra prossegue.
‑ ... Tem lume que nos arranje?
‑ Não, lamento.
‑ E já agora... ‑ começa uma.
‑ ... Que horas são? ‑ parecem incapazes de dizer uma frase completa. O que uma começa a outra termina. Vitor olha para o relógio. Está parado nas oito horas e oito minutos. Bate‑lhe ao de leve com um dedo.
‑ Merda! Desculpem, mas este aqui decidiu parar. ‑ uma das gémeas põe‑se a andar para trás de si. É essa quem começa a frase que a irmã terminará:
‑ Isso é uma pena. Assim vamos ter...
‑ ... Que o assaltar para termos alguma compensação.
‑ É muito feio não ter...
‑ ... Nem lume, nem horas para partilhar connosco.
Assaltar?! Não, Vitor não acredita. Duas raparigas de vinte e poucos anos querem assaltá‑lo? Ele que se gabava de nunca ter sido sequer abordado para tal efeito?
‑ Nem pensem! ‑ diz dando dois passos em direcção à gémea que ficara à sua frente.
‑ Não tentes fugir...
‑ ... Que nós não te deixamos.
Pára novamente. Sente no pescoço a respiração quente de uma das gémeas. Volta‑se rápido, disposto a passar à violência, mas é de imediato projectado pelo ar caindo de costas. A gémea cai‑lhe em cima. Fica numa posição caricata. Ao sentar‑se praticamente sobre o seu pescoço, a saia subiu completamente. Mesmo à sua frente está o sexo dela, mostrando-se por entre o cinto de ligas, sem qualquer peça que o cubra.
Sente o cheiro que, não sendo agradável, é definitivamente erótico. Mas algo o preocupa mais. O indicador direito dela, com uma unha grotesca, ameaça um dos seus olhos. Basta uma rápida investida para o cegar. Opta pela imobilidade.
‑ Vais ficar quietinho...
‑ ... Enquanto eu te despojo do que está a mais. – riem em tom ordinário. Sente as mãos da outra irmã a tirar‑lhe o leitor portátil de CD, a vasculhar outros bolsos... Aquela que o imobiliza ainda se chegou mais para a frente, aproximando a sua fome da vontade de comer. Ele sente‑se crescer.
Umas mãos começam a entrar nos apertados bolsos da frente das calças de ganga.
‑ Sabes que ele...
- Está com tesão. Sim, sei. E tu...
- Posso aproveitar. Está bem.
As mãos desapertam‑lhe o cinto. Continuam e abrem o fecho das calças. Uma delas entra por debaixo das cuecas e agarra‑o firme. Essa gémea fala:
‑ Já podes.
A irmã, que positivamente se senta na sua cara, veloz como um raio, ergue um punho e soca‑o. Cai na inconsciência.
(continua)

1.2.06

"O Edifício da Verdade" (13)


II


Finais de Novembro. O quarto desarrumado. Livros espalhados, alguns entreabertos. Folhas de papel manuscritas amarrotadas por todo o lado. No computador, o monitor exibe uma folha em branco. Por mais que se esforce, Vitor é incapaz de continuar a escrever.
Não tem sequer conseguido viver bem. Sente‑se desenquadrado, melancólico, com os horários trocados. Vive de noite, dorme de dia, alimenta‑se mal, à base de comida encomendada, ou congelada. Cinco minutos no micro-ondas e já está. Acompanha com cerveja, com vodka, com whisky... algum vinho. Não está permanentemente embriagado, mas também já não se recorda de estar perfeitamente sóbrio.
Vitor sente‑se oprimido, como se uma mão invisível o agarrasse e apertasse constantemente. Como uma marioneta nas mãos do seu manipulador, Vítor é agora incapaz de criar, de ir para além do desejo, da desconhecida força que o controla.
Lá no canto, ao lado da cama, o relógio marca 17:58. O corpo estendido começa a rebolar, a tremer, a esticar‑se... Vitor acorda, a garganta seca do álcool, a cabeça dorida com a melancolia.
Uma hora depois sai de casa. A pé como de costume, desce até à Baixa. Come um hamburguer e caminha junto ao rio. No bolso do blusão, o leitor portátil de CD vai tocando os Madredeus. O escritor absorve a voz de Teresa Salgueiro que lhe vibra nos ouvidos, clara, cristalina... A gravação foi feita ali perto, em concerto no Coliseu.
O dia, aliás, o fim do dia, continua húmido. No ar, uma camada de nevoeiro torna a cidade sombria e fria: em Lisboa é comum assistir a um tempo assim, mas pela manhã. Normalmente, por alturas do meio‑dia, costuma abrir. Hoje não foi assim, e a cidade encontra‑se envolta num manto branco, não muito espesso, mas deveras incómodo.
Cais das Colunas. Dia de semana, fim de tarde. Sentado no muro, fica por ali algum tempo a ver o corropio de pessoas que, condicionadas pela labuta diária, uma luta que mais não é que a actualização de um dia de caça para o homem pré‑histórico, pessoas que, dizia, correm para os barcos na ânsia de poder chegar mais cedo ao lar. Barcos que chegam quase vazios. Filas de gente tal filas de formigas. Entram. A linha de água desce, desce, desce... Já cheio, manobra preguiçosamente e parte rumo à outra margem. Barcos que chegam, barcos que partem. Constantemente. Com o cair da noite, o sulcar das poluídas águas do Tejo torna‑se muito mais bonito. São castelos de luz que viajam. Luz que apenas permite descortinar a esteira de espuma suja engolida pela bruma que os cacilheiros deixam ao cumprir a sua tarefa.
"São voltas, ai amor, são voltas...", canta a Teresa.
O nevoeiro aumenta. A Lua, que ainda há pouco tentava com desespero tornar‑se visível, foi agora completamente obliterada. O nevoeiro aumenta. O tráfego diminui. Cada vez se sentem menos as pessoas e os carros. E os barcos. O nevoeiro aumenta. Mesmo a luz dos candeeiros é agora difusa, incapaz sequer de fazer sombra. O nevoeiro aumenta.
A meio do "Fado do Mindelo" o CD pára. O escritor pragueja, por ter sido imprevidente deixando acabar a carga das pilhas. O nevoeiro aumenta.
Do outro bolso do blusão tira uma garrafinha metálica e bebe um pouco de vodka. O nevoeiro aumenta. Sente‑se a aquecer. Estar ali parado, com o traseiro na pedra fria, enregelara‑o até aos ossos.
Silêncio. Nevoeiro. Silêncio. Nem carros, nem barcos, nem pessoas, nem sequer o murmurar do rio com as suas pequenas ondas a bater na margem. Silêncio. Um silêncio constrangedor. Sobrenatural, mesmo.

26.1.06

"O Edifício da Verdade" (12)


Só com o passar tempo se apercebeu de como fora mau aquele dia. Por portas travessas, veio a saber a história de Isabel. Tinha trinta anos e nunca conhecera alguém que a amasse. Todos os homens com quem tinha estado, e eram bastantes, apenas se serviram dela. Apenas receberam, nunca deram. Teve parceiros com vinte anos e com cinquenta... todos olharam para o próprio umbigo e a tomaram como a presa fácil que se deixou ser.
É certo que desta vez Isabel usou Vitor, no dia em que se conheceram. Mas depois, aparentemente, quis redimir‑se. Quis apagar o erro, quem sabe na esperança de construir algo de novo, algo de bom. Não conseguia afastar a semelhança física com a Janis Joplin, que aos poucos se acentuava por força da construção do imaginário. Era apaixonada e deixava‑se usar... E quando Vitor teve na mão a oportunidade para ser diferente, ser melhor, foi igual aos outros. Foi igual. Usou‑a. E mal.
Sem que estivesse à espera, uma semana depois de terem dormido juntos, atendeu uma chamada dela apesar de nunca lhe ter comunicado o seu número de telemóvel. Isabel convidou-o para um encontro, uma saída. Por dentro, tal qual um miúdo, pensou: "Querias agarrar‑te? Toma!!!". Para ela inventou a desculpa mais imbecil alguma vez utilizada, deixando no ar a certeza de não a querer ver mais.
Como se arrependia. Mas era tarde. Era cada vez mais outro mundo. Deixou de aparecer em público por algum tempo. Voltou a recusar participações em festas ou eventos. Queria esquecê‑la. Esquecer tudo aquilo. Queria fugir.
Acabou por combinar as férias com Diogo.
(continua)

5.1.06

"O Edifício da Verdade" (11)

A festa era informal. Demasiado informal. Foi organizada numa pequena discoteca de Lisboa para o efeito reservada. Segundo o convite que recebera, alguém fazia anos. Não sabia quem. Aliás, seria incapaz de reconhecer qualquer dos Junqueira. Eram apenas mais uns novos ricos sem cultura que a dado ponto, e com os “padrinhos” certos, lograram alcançar o estatuto que justificava o envio de convites a todos os desconhecidos famosos só na esperança de vir a aparecer com eles em asquerosas fotografias nas peganhentas e ocas colunas sociais. E, depois da aceitação, era espantosa a quantidade de pseudo figuras públicas que engoliam o engodo. Os nomes mais sonantes, garantia de publicidade, estavam omissos. Os da segunda liga enxameavam o espaço que tomaram como seu, apenas outra oportunidade para sair à noite sem gastar dinheiro em bebidas.
Vitor não se recordava de ter alguma vez alinhado num desses convites. Porém, aquela era a única hipótese na busca por Isabel, pelo que alinhou naquele autêntico tiro no escuro.
Abeirou‑se do gorila à porta que o olhou de soslaio enquanto fingia ler o convite. Vitor duvidava mesmo que ele conseguisse ler. Grunhiu esboçando um sorriso frio como o Pólo Norte, deixando‑o passar. Penetrou no odioso ambiente. Tinha tudo aquilo de que não gostava. Era mal iluminado por um jogo de luzes inócuo, sem objectivo. O ar, pesado, quente, abafado, fumarento... O som a que alguns chamavam música seria capaz de acordar mortos, de tão alta que jorrava nas pesadas colunas em cima das quais os mais carentes de atenção se exibiam.
Tão deslocado se sentiu que o primeiro passo foi em direcção ao bar. De uma assentada pediu dois vodkas com limão. Fez questão de que fosse apenas com limão, sem a estúpida e detestável dose de refrigerante. Absorveu o primeiro de um trago, sorrindo enquanto o sentia descer. Afastou‑se para um canto mais vazio com o outro copo entre as mãos suadas.
Não viu ninguém a quem dirigir uma palavra. Pelo contrário. Só lhe apeteceu erguer uma parede entre ele e todos os outros que, felizmente, pareciam ignorá‑lo. Apesar de o relógio apenas agora se aproximar das duas da manhã, já bastante gente estava tocada, pelo que havia muito que passara a fase de meter conversa. A idade média era extraordinariamente baixa, inundando o espaço com uma colorida multidão de jovens. O escritor sentiu‑se envelhecido.
Vieram‑lhe à ideia os aniversários passados. Como terminaram mal esses dias. Os últimos cinco tinham dado direito a outras tantas bebedeiras, tão desamparado, desesperado, se sentira então... Acabou a bebida e foi pedir outra dose igual.
Buscou a máquina do tabaco e extraíu um maço. Olhou-o como que hesitando no passo seguinte. Depois, esboçou um sorriso amarelo e afastou‑se para o seu canto. Acendeu mais um prego para o seu caixão, o que já raramente fazia. Foi então que a vislumbrou. Os olhares cruzaram‑se. Esperou que caminhasse até si. Beijou‑a ao de leve nos lábios.
‑ Vitor... quanto ao outro dia...
‑ Esquece!
‑ Não. Quero pedir‑te desculpa. Foi errado o que fiz. Ainda por cima depois as coisas não correram nada bem e...
‑ Aprendeste a lição? Se é que houve alguma?
‑Sim, isso sim. Desculpa. ‑ abraçou‑o e beijou‑o prolongadamente. Realmente, o beijo entre sóbrios é muito mais agradável, pensou.
Arranjaram uma mesa de canto onde começaram a falar. Tinham dado a mão e iam trocando carícias. Falaram de tudo um pouco e de nada em concreto. Vitor embalava no vodka e fumava continuamente. Isabel estava bem alegre. Volta e meia brincava com os seus cabelos loiros. Por vezes debruçava‑se sobre a mesa para ir roubar mais um beijo húmido.
Contaram, histórias do passado. Partilharam anedotas. Começaram a rir. A dada altura ela disse:
‑ Queres fumar uma broca?
‑ Tens aí?
‑ Um resto. Queres?
‑ Está bem. Já está feita?
‑ Não, vai fazê‑la à casa de banho, só para não dar bandeira. Mas fumamo‑la aqui à vontade.
‑ Dá cá.
Foi à casa de banho, lavou a cara com água fria, fechou‑se num dos compartimentos e enrolou. Não costumava fumar daquilo. Erva ainda consumia por razões de inspiração, mas hash “só para efeitos medicinais”, como costumava brincar. Agora, por exemplo, calhava bem um pouco de remédio.
Voltou para junto de Isabel. Acendeu o charro após um prolongado beijo. Continuaram nas anedotas, o subterfúgio da gargalhada e da conversa fácil. Esgotada a conversa esconderam-se no riso cada vez menos natural.
Retiraram‑se pouco depois, de taxi para Benfica. Vitor levou­‑a até ao apartamento e arrastou‑se com ela para o sofá. A irmã, com quem Isabel dividia a casa, estava fora.
Após o escritor os ter servido de vodka pura, envolveram‑se em jogos sensuais de múltipla exploração. Combinaram que ele dormiria ali, para não andar tocado na madrugada.
Já passava das cinco. Foi então que ela disse:
‑ É melhor irmos para a cama.
Ele levantou‑se devagar e mostrou intenções de lhe pegar ao colo. Ela recusou, sendo peremptória:
‑ Cada um para a sua.
Vitor não queria acreditar. Depois de tudo aquilo? Depois de o pôr naquele estado? De o aliciar a consigo passar a noite? Não se desmanchou:
‑ Está bem. Onde é que eu fico?
Ela conduziu‑o a um quarto, indicando‑lhe uma cama.
‑ Eu fico no quarto da minha irmã. ‑ disse ‑ Ficas bem?
‑ Sim. ‑ foi a lacónica resposta. Já estava a despir‑se para se deitar.
Isabel saiu. Uns minutos depois voltou. Encostada à porta inquiriu Vitor que se deitara por cima dos lençois, mãos atrás da cabeça.
‑ Ficas mesmo bem?
‑ Sim, não tenhas problemas.
‑ Eu poderia dormir contigo, mas nada acontecerá.
‑ Tu é que sabes.
‑ Queres que eu fique contigo?
‑ Tu é que sabes. – inconscientemente decidira assumir uma postura de adolescente amuado e nem se apercebia do ridículo da mesma.
Nova ausência. Voltou com óculos. Obviamente tirara as lentes de contacto sem as quais não deveria ver nada, a julgar pela grossura das lentes dos óculos. Despiu‑se lentamente. Primeiro a saia larga de padrão hippie, depois a blusa, seguida do soutien. Enfiou uma camisola. Deitou‑se agarrada a um Vitor de boxers e camisa vestido.
"Mas nada acontecerá." Seria ingenuidade? Ou pretendia iludir-se? É que dificilmente algo não aconteceria. Inexistia qualquer barreira moral ou de decência que inibisse o escritor, e se Isabel quisesse ser irredutível tivera a oportunidade para se retirar. Assim, pouco depois, e apesar de algumas reticências sem veemência por parte dela, ambos consumavam aquilo que durante horas tinham preparado.
Contudo, a dança dos corpos prolongou-se no tempo, sem entrega, sem ritmo, sem compatibilização ou sem emoção, apenas um repetir de actos mecânicos. Nunca o escritor se satisfez, nunca atingiu o clímax. Isabel parecia empenhada em conseguir agradar. Vitor cedo quis acabar a farsa, cedo quis chegar ao ponto em que lhe seria legítimo parar. Mas tudo parecia querer piorar as coisas.
A sua mente flutuou, perdida em pormenores. As horas no relógio sob o candeeiro. O quadro na cabeceira da cama. O padrão dos lençóis. Aqueles cabelos húmidos caídos sobre os lábios. “Vá lá, vem-te!”, ordenou o escritor a si próprio. E entre a preocupação do desempenho e a mente vogando em tudo o exterior ao sexo, via passarem os minutos, as horas sem saber como parar.
Foi pelas oito da manhã que, exaustos e suados, se quedaram sob as cobertas. Mas por pouco tempo. Vitor, inquieto, saíu da cama e foi para a casa de banho. Regressou largos minutos depois para começar a vestir‑se. Isabel nada disse. Deixou-se ficar ali deitada, nua, a olhar para ele. Parecia satisfeita, mas simultanemente ansiosa por mais. Que contradição. Ele não. Já vestido, por cortesia, despediu‑se com um beijo, uma carícia, partindo. O metro é já ali.
Vitor entrou na estação das Laranjeiras e deixou-se levar para casa. Intimamente, em silêncio, praguejava. Sentia-se estúpido.
(continua)

15.12.05

"O Edifício da Verdade" (10)

Não parecia o mesmo quarto. Imaculado, nada fora do lugar. Nada de folhas espalhadas, nada de roupa suja, tudo arrumado. O sol já caminhava para Poente e entrava pela janela aberta que igualmente deixava o ar frio de uma Lisboa outonal inundar o quarto. Ao sol, de pé, com as mãos nos bolsos, cachecol ao pescoço, Vitor absorvia cada pormenor do que via. O pôr-do-sol era um dos momentos que mais o afectava. Adorava vê-lo. Adorava senti-lo.
O telefone tocou. Uma, duas, cinco vezes. De volta à realidade o escritor atendeu. Era Carlos Morais. Depois das banalidades do costume chegou ao assunto:
- Já está a imprimir. Foram rapidíssimos desta vez. Ainda sai a tempo do Natal. Vai ser um sucesso.
- Hum... é só?
- Estás bem?
- Sim, porque não haveria de estar?
- Sei lá, pareces distante. Porque não vens hoje à festa dos Junqueira?
- Só se for para me sentir mesmo mal...
- Faz um esforço. Pode ser que te ajude.
- Duvido.
- Em todo o caso lá te espero.
Despediram-se. Engoliu em seco. Também o seu editor se esquecera. Bolas!, fizera anos havia cinco dias, e nada... só duas pessoas se lembraram. Duas pessoas, uma garrafa de brandy e o resto de uma de vodka.
Diogo telefonou‑lhe. Deu‑lhe os parabéns, relembrou‑lhe as férias e desculpou‑se da pressa, mas tinha ali consigo uma estilista de quarenta anos que ansiava por si. Não podia demorar, frisou.
Paula telefonou‑lhe. Paula não o esquecia. Vitor foi sempre incapaz de lhe dar o que queria e merecia, mas nunca sentiu por ela o mesmo que Paula sentia por si. Se Vitor estendesse a mão, Paula viria. Mas o respeito que lhe tinha impedia‑o de a tratar assim. Ela, sempre que podia, estabelecia contacto com a sua voz quente e o toque macio. Mas Paula não era aquela que procurava. Faltava‑lhe a alegria, a autonomia que queria numa mulher. Não queria quem lhe dissesse sempre que sim. Queria alguém que lhe desse luta.
Viu as horas. Subitamente tomou uma decisão: sempre iria aos Junqueira. Talvez lá visse a Isabel. Aí o respeito não era barreira, e agora queria tê‑la na cama. Era quase uma questão de princípio, de teimosia, de birra. Criancice. Apontou para lá chegar depois da meia‑noite.