29.3.16

Memórias, imagens, coisas perdidas no tempo

Agora, quando vejo o mundo reflectido nos olhos de quem o descobre a todo o momento, sou surpreendido por memórias enterradas no correr dos anos. Memórias de eventos ou sensações que nem sonhava ter e que me dão perspectivas bem diferentes de épocas tão distantes.
A última, surgiu ao dizer adeus para sair de casa, sabendo que apenas nos voltaríamos a encontrar ao fim do dia. Recordou-me uma imagem recorrente, uma sensação que se entranhou nos tempos da primeira infância. O meu pai a sair de casa bem cedo «porque tem que ir "ganhar pão", tem que ir trabalhar», e só voltar ao fim do dia, muitas das vezes para trabalhar mais um pouco, no escritório, depois de jantar. E eu ver o meu pai como aquele bastião que se ausentava muito cedo mas sempre retornava, grande, forte. E eu queria estar perto dele, se possível ajudando-o (sendo que o mais certo era que a minha "ajuda" ainda lhe desse mais trabalho).
Era então mais novo do que eu sou hoje. E por isso tão depressa me sinto velho, como extremamente novo, numa permanente contradição a abraçar estas novas experiências tão reconfortantes.

10.3.16

Cibopata quê?

O detective Tony Chu consegue saber tudo sobre o que come. Por isso investiga trincando a torto e a direito, ainda que tenha que comer as vítimas... 
Num mundo louco, futurista, com as aves banidas da alimentação por causa das doenças, a polícia do tipo ASAE é toda poderosa. Cruzam-se pessoas com estranhas capacidades, e reforços cibernéticos numa divertida alegoria com desenhos cativantes e repletos de referências para os mais atentos.
Também já há três volumes em português.

FATALE

Também já estão disponíveis três volumes em português. 
Uma mulher que não morre corre o tempo arrastando para a desgraça os homens que consigo se cruzam e que não conseguem resistir à sua sedução. Entre o policial e o fantástico, com desenhos pesados, densos, negros, Fatale cativa por querermos adivinhar o que está para vir.

A saga do Bem e do Mal

Por ora temos três volumes, já disponíveis no nosso mercado.
A eterna luta do Bem e do Mal torna difícil perceber o porquê da sua existência. Já não há lados puros, e a guerra é sempre errada, independentemente dos pontos de vista. 
Pelo meio de uma guerra espalhada pelos quatro cantos da existência, o amor une improváveis amantes, guerreiros do Bem e do Mal. Um filho cimenta tal aventura que põe em causa o status quo bélico.
Perseguidos pelos diferentes mundos do universo, as histórias envolvem-nos tal como os acolhedores desenhos.

E no início

A primeira graphic novel?
Desenho cuidado e delicioso. Histórias com conteúdo moral, sempre actual. Leitura obrigatória para quem gosta de BD. Demorei a cá chegar...

1.12.15

Natal de 2015

Andei dois anos sem pedir nada ao Pai Natal. Ou melhor, pedia apenas uma prenda, que este ano chegou para mudar a minha vida, mas deixava tais desejos fora destas páginas.

Agora, porque não voltar aos velhos hábitos, e escrever a carta ao Pai Natal e ver o que é que ele consegue arranjar-me desta vez?

1.


Acima de tudo, calma e paciência para contemplar a vida e tudo o que dela podemos retirar.

2.
Para isso, Pai Natal, arranja-me lá mais e melhor tempo. Para gozar a família, os amigos, e investir em coisas positivas como ler mais, passear, fotografar, escrever, comer, beber, sentir o mundo. Ultimamente o relógio não tem sido meu amigo. Vamos mudar isso, ok?

3.
Já viste isto?!!

4. 

Ficava tão bem lá em casa, esta Eames Lounge Chair & Ottoman...

5.
Está na altura de fazer um upgrade. Que tal este?



Espreitando o futuro

Ainda não vi o filme (vou esperar que chegue ao videoclube), mas devorei com prazer o livro. 
«O Marciano», de AndyWeir, é uma sólida obra de ficção científica. Partindo da premissa de um astronauta ficar abandonado na superfície de Marte, e ter que usar todos os seus recursos com os escassos meios disponíveis para sobreviver, na esperança de poder ser resgatado, enquanto na Terra se inventa uma forma de o alcançar em tempo útil, o livro deixa-nos constantemente a espreitar a acção que se segue, tentando antecipar os problemas e soluções que se colocam a cada virar de página.
Lê-se num instante para quem, como eu, gosta de ficção científica. E deixa-nos ainda mais curiosos quanto ao filme. Veremos.

Viva, México

Mais um livro de Alexandra Lucas Coelho que nos expõe outro destino de viagem. Desta feita o México.
Ao contrário do Brasil, neste país a autora esteve apenas três semanas, e nesses curtos dias viajou de Norte a Sul revelando as disparidades de uma extensa nação. 
Mais descritivo, e menos vivido que o livro sobre o Brasil, por vezes cansa o leitor, tamanha é a quantidade de informação condensada nas suas páginas. Mas, ainda assim, não deixa de ser uma revelação e um cartão de visita para um país que merece uma visita. Desde que se fique  longe de Juarez, seguramente uma das zonas mais perigosas do planeta.

27.10.15

Mulher-a-dias

A mulher-a-dias faz dias
Que não vem
Perdeu conta às horas
E meses que um dia tem
E o tempo que passou,
Passou a ferro
E a roupa que lavou
Tingiu de negro
Viu o dia perecer
A dançar num vendaval
Como um pano amarrotado
Que se esquece
No estendal

Linda Martini

13.10.15

Zé Gato

A cidade é para fazer dinheiro
E se tu és um tipo inteiro
Vais passar um mau bocado
Vais ver o que custa não ser ouvido
No meio de tanto homem vendido
Em silêncio comprado

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos, desta terra?
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra
Quem és tu Zé Gato?

Mas tu és teimoso como um burro
Venha luva ou venha murro
Nada te faz desistir
A luta é de vida ou de morte
Mas a consciência é mais forte
E não te deixa fugir

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos desta terra,
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra
Quem és tu Zé Gato?

És mais um caso de solidão
Porque afinal poucos são
Os que se entendem contigo
E às vezes é num marginal
Que vais encontrar, encontrar a tal
Compreensão de amigo

Quem és tu Zé Gato?
O que é que te faz correr
pelos cantos mais sujos desta terra,
Tu já deves saber que mesmo quando vences batalhas,
Estás longe de acabar com a guerra

Quem és tu Zé Gato?

12.10.15

O Escultor

Esta graphic novel lê-se desde as primeiras páginas com uma ânsia para saber como findará. Pelo meio, toda a história cresce, ganha corpo, forma e enche-nos de simpatia pelos personagens. Queremos estar com eles, conviver com eles, sentir com eles. 
Os desenhos são magníficos e obrigam a uma segunda e terceira leituras para os contemplar. A escrita é muito cuidada e coerente, juntando com brilhantismo o real e o fantástico, introduzindo na narrativa uma série de temas que subtilmente nos fazem pensar sobre as circunstâncias e condicionantes da vida dos dias de hoje. Das relações à subsistência, da espontaneidade ao constrangimento, do mimetismo à originalidade. 
Adorei lê-la, este fim-de-semana.

3.10.15

Outono

O Outono está aí.
Sempre gostei do sol apenas morno, do frio a insinuar-se, das primeiras chuvas que lavam o mundo. 
E das castanhas, a tomar o lugar dos gelados.
Quentes e boas, como aconchego dos dias mais curtos.

Mais Brasil

Mantendo-me pelo Brasil, nada melhor que um pouco de Ruben Fonseca e os seus anti-heróis. Em "Axilas & outras histórias indecorosas" navegamos por entre contos onde se sucedem pessoas normais com pensamentos e acções extraordinários, e pessoas extraordinárias com pensamentos e acções nomais. Sempre com muita ironia, humor e surpresa, Ruben Fonseca anima-nos durante umas horas, pois que não é preciso muito tempo para devorar este livro. E ficar logo a pensar no próximo que iremos desbravar.

Vai, Brasil



Mais do que o retrato de uma viagem, em "Vai, Brasil" Alexandra Lucas Coelho oferece-nos o retrato de um país e do seu povo, com a proximidade de quem ali permaneceu muito mais que os dias de passagem que usualmente associamos a viajar.
Com a sua prosa de fácil leitura, descritiva quanto baste, Alexandra Lucas Coelho vai de Norte a Sul, Este a Oeste, num país onde riqueza e pobreza seguem caminhos diverentes, separando as gentes, a cultura, a vida. No meio da alegria e do desprendimento, da miséria, da cultura, da história, este livro permite-nos encontrar o Brasil dos nossos dias, e compreendê-lo de perto. 
Adorável o português assumido pela autora, próximo do brasileiro mas ainda assim tão europeu, mostrando que a língua portuguesa não está tão quebrada como muitos apregoam.
Lê-se de um fôlego. E quere-se logo mais.