28.1.12

A Faca e o Queijo

A faca enterrou-se com uma facilidade apreciável, traduzindo o cuidado com que fora afiada. Por baixo da roupa  nenhuma resistência. Não se ouviu qualquer grito, urro, gemido, silvo, nada. Nada de nada.
O homem com luvas de pele rodou a faca e, com o gume apontado ao alto, puxou-a aos céus, cortando na camisa e o casaco ressequidos pelo sol uma janela com um palmo de comprimento. Foi aí que enfiou as mãos e começou a extrair a palha que enchia o espantalho. Não toda, apenas a necessária para poder enfiar o saco que resguardava as "jóias da condessa".
Compôs o boneco que de braços abertos olhava o nascer do sol e deu uns passos atrás contemplando a sua obra. 
Perfeito!
Mal se notava o corte nas vestes do espantalho.
Afastou-se uns passos e sentou-se num monte de rochas que sobressaíam na seara, marcando o ponto para onde eram atirados os calhaus que emergiam a cada passagem do arado. Pegou no GPS e registou as coordenadas numa mensagem que enviou pelo telefone.
Carla recebê-las-ia dentro de segundos para as reproduzir num papel que guardaria na última matrioshska. Depois, deixá-la-ia numa prateleira de um café da moda, a vinte quilómetros dali.
Estaria então terminado o percurso da caça ao tesouro. Dentro de duas horas começariam as filmagens e, se tudo corresse como planeado, os vencedores chegariam às "jóias da condessa" a tempo da vitória ser registada com o pôr-do-sol por detrás, garantindo um efeito óptimo para a passagem dos créditos finais.
Acendeu um cigarro, e contemplou o disco de fogo a erguer-se e a dar vida à fauna que iniciava a sua labuta. 
O homem, por seu turno, tinha agora umas cinco horas de sono garantidas dentro da carrinha da produção. E amanhã teria que iniciar a preparação do próximo programa.
Enquanto apagou a beata pensou: "Castelo Branco. Comia um queijo de Castelo Branco. Para a semana vamos para lá."
Sorriu, ergueu-se, e enquanto guardava na mochila a faca já embainhada ouviu o aviso de SMS recebida.
"Missão cumprida. Beijos".

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