20.12.04

Prendas de Natal

Diz-nos a tradição, porque assim fomos educados desde o berço, que na noite de Natal se dão e recebem prendas. Quando infantes deliciamo-nos com a anormal dose de brinquedos novos que nos vêm parar às mãos, após uma ceia cheia de goluseimas e seguido de mais um dia de alarvidade gastronómica. As preocupações que temos são... não são. Nada nos preocupa enquanto crianças à beira do Natal. Acreditamos neste senhor



e nada mais interessa.

A dado ponto, os nossos pais decidem que devemos passar a contribuir para o amontoado de embrulhos, e que deverão ser abertas prendas oferecidas em nosso nome. Mas, e ainda que restritas ao núcleo familiar, tais prendas são compradas por eles, pelos pais. Ou então são eles quem nos dá o precioso dinheiro para as comprar. Ainda assim, começa a preocupação. Temos que pensar naquilo que vamos oferecer. E aparecem as primeiras surpresas, quando a prenda que julgamos perfeita não obtém uma reacção de entusiasmo total da parte do ofertado.

Paralelamente aproximam-se aquelas noites de Natal em que já não nos interessa receber brinquedos, livros, música ou goluseimas. Passamos a ver o aspecto monetário da coisa e queremos é que pais, tios, avós, sei lá quem, contribuam para o fundo monetário dos dias que se seguem. Ao entrar na adolescência uma boa noite de Natal cabe num bolso. Desde que o encha de notas.

Quando damos por isso, já as noites de Natal se repetem, e já nós temos as preocupações que outrora víamos aos nossos pais. Precisamos de uma prenda para toda a gente. Se me esqueço da empregada fico mal visto, porque ela trás sempre uma inutilidade qualquer, ou uns bombons do LIDL. Se Fulano ou Sicrano decidem aparecer e não tenho uma prenda para eles é uma desgraça...

Então, o Pai Natal morreu. E a única forma de o resuscitar é aparecendo crianças na família. Filhos, sobrinhos, sei lá... putos. Quando nascem novos putos, as noites de Natal voltam a ter cor e encanto. As prendas dos adultos ficam para segundo plano enquanto tudo olha para o último brinquedo desembrulhado e o brilho nos olhos do fedelho que se lambuza numa onda de brinquedos.

Coligados, insistimos em manter o mito. Lá vem o Pai Natal. E ficamos contentes por enganarmos a criança que estimamos, assim como outrora fomos enganados.

Recordo o dia em que entrei na cozinha (sim, lá em casa as prendas apareciam em cima do fogão, porque era debaixo da caminé, por onde descia o tipo das barbas) e vi uma bicicleta, com rodinhas de lado, empinada no fogão. A minha primeira bicicleta foi um momento de estúpida alegria.
São momentos inesquecíveis e irrepetíveis. Eram, sem dúvida, os melhores Natais. E são Natais assim que queremos dar aos rebentos da família. Por isso nos preocupamos nas compras. Para que tudo corra bem e todos fiquem satisfeitos, a contemplar a excitação dos mais novos. Dos que ainda acreditam no Pai Natal.



PS: Se quiserem uma apreciação científica sobre o gordo de barbas brancas e pijama vermelho, espreitem aqui e descubram aquilo que, por acaso encontrei (eheheheh).


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