4.3.13

Passo a passo

Cada passo era um extremo sacrifício. As pernas queimavam de dor à medida que a esquerda ultrapassava a direita, e a direita a esquerda, transportando o corpo estafado, esfomeado, molhado e carregado. 
O caminho subia, mas pouco. Ainda assim, sob as suas botas a água empurrava a lama e dificultava as passadas, escorregadias. O capacete sacudia alguma da chuva, mas pesava-lhe no alto da cabeça descaída. A toalha enrolada ao pescoço evitava os arrepios das escorrências mais atrevidas. Pelo menos ia aquecendo a água com o calor do corpo.
Já não sentia a ponta dos dedos das mãos, que seguravam a G3, cada vez mais pesada.
Enquanto maquinalmente progredia todos os seus pensamentos se esfumaram. Só via as costas verdes do companheiro que na frente guiava os seus passos. Um pé atrás do outro. 
Um, dois, esquerdo, direito.
Aqui não havia o rigor da parada. Havia o caminhar penoso da marcha final. Cem quilómetros. Carga total. Os ombros esmagados. Os músculos castigados. O estômago esquecido da fome que deveria sentir. 
Sobre si a dúvida: retiraria algo de bom de toda aquela experiência?

Vinte anos após ter cumprido o serviço militar ainda gostava de caminhar. Depois daquele dia, no qual vencera a centena de quilómetros, qualquer passeio era uma brincadeira. "Quem corre por gosto não cansa", diz o adágio. Seria bom que a realidade fosse assim.
O certo é que agora, por gosto se atirava a trepar montanhas, tanto de Verão como de Inverno, de mochila às costas, com uma ou duas câmaras fotográficas, umas objectivas e um tripé,  e muita paciência.
Só, na montanha, calcorreando quilómetros todos os dias, e captando alguns dos momentos mais belos que os seus olhos viram, vivia o sonho de criança.

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